UMA TESE \ SE POSSÍVEL FOSSE FAZER TESE

Se em um estudo, em uma investigação de dezoito meses, em estágio de pós-doutoramento, fosse possível construir uma tese – que não foi o caso dessa pesquisa – a minha tese seria que, para ser doutor, inclusive doutor em Estudos Culturais, há que se ensaiar a vida toda; o ensaiar para ser doutor começa na infância, nos exercícios do ler, no ato da leitura, na relação com os livros. Mas ainda, se essa infância for vivida na mobilidade entre culturas; nos encontros interculturais de um povo imigrante. Assim, a criança aprende a ler o mundo e se faz doutor um dia; um doutor em Estudos Culturais!

Para brincarmos de tese, bridemos as histórias de vidas de todos esses doutorandos em Estudos Culturais e seu eternos exercícios de conhecer  os saberes, conhecer os produtores desses saberes, para produzir conhecimento sobre conhecimento. Brindo todos vocês, leitores desse documento-conhecimento, com uma bricolàge montadas com fragmentos das falas de nossos heróis, como as únicas provas de minha tese, possível, de que é a leitura o grande ensaio da vida.

Eu estou na via acadêmica mais por uma curiosidade que sempre me perseguiu desde pequena. Sempre gostei muito de conviver com os livros, de ir sempre as feiras do livro e até, em um momento alto da minha infância, sair com o meu pai e chegar à casa cheia de livros. Lia livros com textos mesmo, não eram somente aqueles livros que se desenhava. Lia muito, lia muito, lia muito. E isso fez e faz de mim, um bocado, uma pessoa idealista, como eu estava a dizer, onírica. Muitas vezes tenho altas esperanças sobre as coisas, sobre a realidade; porque essa realidade, às vezes, é uma construção livresca, é uma construção dos livros, é um mundo quase da fantasia (ANÔNIMO ACVR)
Sempre fui um garoto muito preocupado em ler, em aprender coisas novas e acho que os meus pais nos passaram também um pouco disso. Meus pais sempre se preocuparam muito com a parte de nós lermos e termos mais conhecimento, etc. Eu, desde muito novo, me lembro de ler David Crockett e livros sobre índios e cowboys e muita coisa. Livros que eram do meu pai, quando ele era novo. E depois, sempre tive livros pra ler, sempre gostei de ler e sempre tive meu livrinho na carteira. E meus pais marcavam muito idas à Feira do Livro. Comprávamos praí muita banda desenhada, também tentávamos comprar outros tipos de livros para eu ler. Mas aos 5, aos 7, sempre li as aventuras. Portanto, sempre a minha relação com a leitura foi uma coisa natural e fácil (JOÃO HESPANHOL)
Eu tive sempre uma relação muito forte com leitura. Acho que também os meus pais nunca me patrocinaram a ler, mas eu sempre tive o exemplo da minha mãe que lia bastante. O meu irmão também. O meu pai tinha um grande fascínio por enciclopédias, sempre lia enciclopédia. Não havia internet nessa altura. E acho que dentro de casa, eu sempre tive muitos livros. E eu também, a partir de sempre, frequentei muitas bibliotecas das escolas onde eu estudava e depois a Biblioteca Municipal, então, sempre tive essa mania, sempre fui muito leitor, lia muito ao ponto que me chamavam ‘o menino que não falava’, porque estava sempre a ler. Viviam me dizendo: ‘vai brincar lá fora, menino! Eu não ia jogar a bola e nem essas outras coisas (ANÔNIMO PFMJ)
Eu vindo de uma formação extremamente prática, cheguei aqui em Portugal e sofri horrores, porque não tinha esse estímulo da leitura. Porque você vem de hotelaria o que que você vai aprender é a atender hóspedes; você vai aprender inglês; você vai aprender a coordenação de um hotel etc. Então assim, eram coisas práticas demais e eu pensava que o mestrado ia ser uma continuidade do turismo(UIARA MARTINS).
Eu nasci e cresci rodeada por livros. Às vezes, quando tenho a oportunidade de receber alguém desconhecido, relativamente, ao meu mundo, chegam na minha casa e dizem: ‘mas afinal o que que tu fazes na vida?’ Eu continuo a ter muitas estantes cheias de livros, mesas cheias de livros, eu vou pondo livros dentro de qualquer sítio e devo muito a influência em mim, do meu pai; o meu pai lia imenso. A minha mãe como professora, é claro que os livros eram tão importantes pra nós, como estar na mesa, era esse o grau de importância. Discutirmos os livros que líamos, quer livros, digamos daquela linha da literatura tradicional, poetas e grandes políticos do estado como Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, o Pessoa, para citarmos apenas os portugueses, sobretudo, literatura sobre política, sobre natureza. Nós tínhamos tudo quanto se publicava sobre o mundo, livros ilustrados, o mundo marinho, plantas exóticas. O meu pai tinha um orgulho tal de investir naqueles livros, na altura não havia internet. O meu pai derretia-se em emoção a trazer um livro novo pra casa. E a emoção do livro é também uma memória dos meus pais que eu guardo. Eu creio que a minha geração é fã do livro ainda. A internet é a geração da minha filha (Anônimo AMMAK)
Desde muito novinhos que somos incentivados a ler, a querer saber. Alias, eu me lembro sempre que as primeiras palavras de francês, que eu aprendi, foram com meu pai à mesa, porque meu pai estudava francês. A minha mãe que só tem o ensino primário, há expressões em francês que ela percebe. Eu me lembro de ser miúda e não gostava muito das coisas sobre os fenômenos da natureza e agora eu gosto, mas na altura… Essas coisas de, porque que chove? porque que troveja? Eu dizia: ‘ah pai não quero saber, não me interessa’ e ele dizia ‘não pode ser, isto é falta de curiosidade científica, é importante querer saber estas coisas, porque a natureza explica tudo, percebermos o que está a correr, como é que a vida funciona (DULCE MARTINHO).
O meu pai foi sempre um bom leitor e nunca foi um bom escritor, porque estorvava, quase sempre por preguiça. A nossa casa esta ainda com a parede forrada de livros, antes, cada prateleira de livros tinha dois camadas, na frente estavam os livros que se podiam ler no Estado Novo, e por atrás estavam os livros proibidos. Eu fui avisada praí a partir dos 6 anos, que tudo estava a minha disposição; o meu pai só me disse: ‘tu pode ler tudo o que tu quiseres, só que a prateleira detrás tu não podes dizer a ninguém que leste, nem aos teus amiguinhos; podes dizer o que leste das prateleiras da frente, as detrás não podes’. Tinha Eça de Queirós, que eu lia sem perceber nada, mas achava que podia ler e que pronto! Havia um monte de coisas que não era suposto uma menina ler, e eu fui lendo aquilo tudo. Eu li os Lusíadas com oito anos, não percebi nada, mas o meu pai me presenteou com os clássicos da literatura explicados às crianças. Então, eu lá depois, comecei a perceber, um cadinho, do que tratava os Lusíadas, porque li a versão para criança. A biblioteca foi aumentando, aumentando, aumentando, até que agora nascem livros em todos os cantos (FÁTIMA PAES)
A minha mãe estava em casa como a maior parte das senhoras. Eu sempre gostei muito de ler. E a minha mãe neste aspecto sempre teve livros em casa e também era muito exigente, mas não se importava que eu estivesse a ler no sofá, deixava-me ler, não exigia muito que eu estivesse a ajudar nas tarefas domésticas. Tanto que eu podia ser colocada para aprender a cozinhar e outras tarefas, mas ela nunca se impôs muito nesse aspecto. A minha mãe só tinha até a 4ª classe. E ela, na altura, não podia nos ajudava e o meu pai também não ajudava muito, porque ele também tinha o emprego dele; quando ele chegava a casa, também já era um pouco tarde (MARIA GORETI).
A minha casa sempre foi uma casa muito feliz, com biblioteca, por isso sempre houve um gosto muito grande por livros. Meu pai sempre comprou muitos e de certa maneira desafiava-nos, os filhos, à comprar livros. Por isso, a leitura ser quase obvia na minha vida, não e? (DANIEL RIBAS).
Quem sempre me acompanhou nos estudos foi minha mãe. Até a primeira classe ela me levava até a biblioteca de Ourém e fez-me logo um cartão, pra ela um orgulho, um cartão da biblioteca e todas as semanas nós íamos, eu e minha mãe a Ourém, requisitar livros e fazer leituras. O fato de não ter dinheiro não significa nada, pois eu pude ter acesso aos livros. E eu ainda hoje valorizo muito mais ir a biblioteca e poder escolher do que fazer uma biblioteca em casa, por exemplo. Ela sempre contava-nos muitas histórias. Tenho imagens muito marcantes de estarmos na cama do meu irmão, os três, e ela a contar história e cada um de um lado a tentar a seguir as histórias. Ela também gostava muito de ler e então ela tentou-nos transmitir essa paixão (JENNY GIL).
Havia livros na minha casa, mas nada de extraordinário. Não havia uma biblioteca. Não lembro, de me instigarem a ler. A minha próxima etapa é ter tempo pra ler. O que é mais interessante é que os bibliotecários tinham a obrigação de conduzirem um leitor a não perder tempo com maus livros, porque não há nem tempo para ler todas as boas obras. Portanto, a minha próxima ação depois que eu terminar o doutoramento vai ser ler, adquirir os clássicos, tentar fazer um bocado a biblioteca de todo. Tenho internet em casa e é aí que eu me concentro, mas a próxima etapa é ler, ver os livros (MANUEL GAMA).
No nosso ambiente familiar, fomos muito influenciadas a ler, a escrever em casa. O meu pai lia muito, e eu tive essa vivência em casa, mas nunca como uma coisa forçada. Nunca precisou dos meus pais chegarem a falar: “Adriana vai lá estudar”, ou “deixa eu ver o seu caderno, pra ver se você fez a tarefa”. Pelo contrário, era sempre eu que ia mostrar o que eu tinha feito. Agora o ambiente era muito assim, gostoso, a gente sempre foi influenciado a estudar, a gostar de ler. Eu lia de tudo desde livro pra criança, até as vezes eu pegava os livros mesmo dos meus pais de história. Eu chegava a ler até As Sandálias do Pescador. Tinha de tudo, Monteiro Lobato, tinha todas essas coisas. Lá em casa todo mundo sempre gostou muito de ler. Tinha muitos livros. Até hoje tem muitos livros lá em casa (ADRIANA BRAMBILLA).
Tivemos que ler, mas quando a gente lia o livro não era só pra nós, era ler o livro para depois contar ao resto dos meus irmãos. Contar como é que era o livro e se valia a pena ler aquele livro. Fazíamos muito isto e a casa sempre estava cheia de livros. Só tivemos televisão quando eu já era adolescente, talvez doze, treze anos pela primeira vez. Então era, só livros. A minha mãe tinha uma regra que era, depois do pequeno almoço, se não estava a chover, era fora da casa a brincar no jardim, brincar do que queríamos, depois almoçar e ir estudar. Então era a gente, praticamente, todo o dia fora da casa. Para leitura, nós tínhamos, mais ou menos uma hora ou duas, ao fim do dia (TIMOTHY OSWALD).
Eu sempre li muito. Desde a primária que a minha mãe me dava livros para ler, eu li quase todos da Any Blaiton, das gêmeas, mas cá em Portugal, havia muitos de literatura infantil, mas já não me lembro. Eu sempre li muito mesmo durante o secundário. Interessante… Porque quando entrei na faculdade deixei de ler. Comecei a ler por obrigação, tinha que ler. Eu sabia que queria ser professora. Eu gostava de línguas, mas nunca fui uma aluna brilhante em inglês, exatamente por causa da memória, mas gostava de aprender. E gostava de ser professora porque queria falar com outras pessoas (JOANA RIBEIRO).
Meu pai sempre leu muito e tem uma biblioteca razoável e sempre tive muitos livros a minha volta, portanto, eu cresci no meio dos livros por assim dizer. E eu também lia bastante e seguia o exemplo dos meus pais. Sempre estive habituado a ler textos e tudo. Eu sempre tive aquelas coisas normais, de escritos pessoais, sempre gostei de escrever (PEDRO GORGA).
Eu era uma espécie de ave rara dentro da família, sempre com um livrinho de baixo do braço e com uma voracidade, eu lia tudo. Realmente, a minha voracidade era muito grande e ainda criança era colaborador da biblioteca porque eu tinha lido tudo que eles tinham pra criança, para infância e para adolescência. Portanto, o meu mundo, era o mundo da relação do real com o conto de um livro. E com uma percepção para o processo de abstração, eu tinha um interesse imenso por ciência política, eu tinha um interesse imenso na antropologia, para o exercício de cientificidade para abstração, para o processo crítico com relação ao real. Tudo isso tem haver com o tempo e o modo com que se viveu a realidade social e política da década de 70. Eu penso que sempre tive mais propensão pra pensar do que pra fazer algo extraordinário, toda a gente diz que eu sou um artista falhado, um arquiteto, um artista plástico, um artista falhado, porque sou das artes, fiz tudo que havia de fazer no mundo das artes, menos fazer arte (MANUEL COSTA).

Sem mais nada a declarar, a não ser convidado-lo a conhecer a bibliografia básica de (e sobre) pesquisa implicada nessa investigação – LINK BIBLIOGRAFIA.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.