Jenny Gil Sousa

Descrevermos a nós próprios, realmente não é nada fácil.
Acho que sou uma menina a tentar a atingir alguns sonhos. Menina por isso, porque acho que tenho muita coisa a aprender, ainda me sinto tão verde neste mundo, eu quero fazer tanto e quero aprender tanto. Acho que é mesmo isso uma menina, e pronto, e esses sonhos passam por várias áreas, desde a parte profissional, a parte acadêmica, a parte pessoal, acho que por isso é difícil, nos realizarmos a nós próprios.
Eu acho que há aqui três grandes identidades que eu tento gerir da melhor forma possível, não quatro, que é ser mãe, esposa, estudante e professora. Porque há aqui uma perspectiva individual muito ligada ao fato de ser mãe e ser esposa, que é onde eu penso que estas quatro identidades andam a par e par e que uma, embora seja em alturas diferentes, acaba por ser mais importante que do outras, mas estas quatro identidades pra mim são fundamentais.
Eu tenho outras, felizmente e que também tento que sejam também reconhecidas. Como filha: eu tenho dado também muito apoio aos meus pais porque eles encontram em mim força; irmã, porque o meu irmão é mais novo que eu e acaba também por encontrar na minha casa ou no meu colo algum tipo de conforto; nora, felizmente eu tenho uma ligação muito forte com os meus sogros; e de amiga, porque tenho amigos a vinte e cinco anos, que eu tenho desde a primeira classe que fomos sempre da mesma turma e conhecemo-nos assim de gingeira e então também não posso deixar que essa identidade de amiga também fique pra trás.
Essencialmente, preocupa-me esta questão de deixar que umas ultrapassem as outras, deixar umas por contas das outras, embora estas quatro identidades sejam, neste momento, a minha grande preocupação pois todas as outras também são fundamentais e tento ir amparando e tento chegar a todo lado e felizmente podê-las conciliar e tem sido muito difícil, com disciplina, com horários muito apertados, sendo muito rigorosa comigo própria e com aquilo que faço, tenho conseguido unir umas e amparar os outros e dar atenção a minha filha, ao meu marido, ficar no doutoramento, porque eu sou professora e trabalho a tempo inteiro na escola, é por aí, acho que a minha vida é assim.
Eu nasci na Venezuela, em Caracas. Vim do calor e eu adoro o calor, mas vim com quatro anos, portanto, não tenho memórias muito fortes. Eu sou filha de uma mãe muito protetora, que vê nos filhos, a razão de viver e o único objetivo de estar viva. E tive um pai complicado. No início teve problemas de álcool, nem sempre estava presente, portanto, uma mãe que vê nos filhos a razão de viver e um pai que andava em dificuldades. Meus pais são portugueses e foram pra Venezuela e tiveram lá oito anos, depois nasci eu, éramos quatro, e tiveram ao todo oito anos na Venezuela.
Eles não conseguiram casa, eles casaram e não tinham casa e foram morava na casa de uma tia e a ideia era construir a casa. Na Venezuela, eles ganhavam todo o dinheiro e mandavam pra cá e depois de conseguir a casa pronta, vieram embora. Foi mesmo pra fazer a casa.
Quem sempre me acompanhou nos estudos foi minha mãe. Até a primeira classe ela me levava até a biblioteca de Ourém e fez-me logo um cartão, pra ela um orgulho, um cartão da biblioteca e todas as semanas nós íamos, eu e minha mãe a Ourém, requisitar livros e fazer leituras. O fato de não ter dinheiro não significa nada, pois eu pude ter acesso aos livros. E eu ainda hoje valorizo muito mais ir a biblioteca e poder escolher do que fazer uma biblioteca em casa, por exemplo. Ela sempre contava-nos muitas histórias. Tenho imagens muito marcantes de estarmos na cama do meu irmão, os três, e ela a contar história e cada um de um lado a tentar a seguir as histórias. Ela também gostava muito de ler e então ela tentou-nos transmitir essa paixão. Eu também escrevia, até achava que ia fazer disso uma profissão, a minha mãe também alimentava isso. Além de ter um diário, escrevia histórias, assim do dia a dia, as vezes eu fugia pra esse mundo imaginado e eu gostava de escrever.
Eu e o meu irmão fomos os únicos que tivemos essa experiência, na família, com ensino superior, eu não vejo mais ninguém. Desde pequenina eu decidi que ia estudar em Coimbra, que ia viver pra Coimbra, pelo imaginário, pelo espírito acadêmico e tudo, e hoje eu até penso que pode ter sido algum professor que deu-se o seu curso em Coimbra e que portanto, é o único elo que eu encontro, por eu ter essa fixação por Coimbra. Mas o que é certo é que eu consegui entrar na minha primeira opção, no curso em Coimbra, e foram momentos pra mim muito especiais, primeiro, porque fui com o Marco – na época meu namorado e hoje, meu marido – e ao mesmo em que eu me formava, em que eu ia aprendendo muita coisa, porque estava no ensino superior e tal, eu fui também descobrindo muitas coisas de mim mesma. Não tínhamos meios financeiros pra colocar um apartamento só pra gente. E então fomos colegas de casa e vivemos isso tudo e as saídas, eu não era muito de discotecas nós éramos mais de fazer coisas em casa, fazíamos tudo isso e depois a gente só saía no outro dia. Fazíamos coisas estupidas como ver as telenovelas.
Fui estudar pra Coimbra, Animação cultural, que é a minha formação de base. E depois ao terminar o curso fiquei a viver em Coimbra, porque o Marcos, ainda estava estudando. Depois casei e fiquei a morar aqui, na região, até hoje, porque estive a trabalhar aqui perto em Pombal e depois em Leiria e portanto permitiu-me continuar a viver por aqui.
Comecei a dar aulas, eu terminei o curso em vinte e sete de setembro e no dia vinte e três de outubro eu comecei a dar aulas. Não tinha ninguém da minha idade, eu tinha vinte e dois anos. E então eu tinha alunos que tinham a minha idade, na altura, as vezes eu mentia, as colegas não elas sabiam. Mas aos alunos eu dizia que tinha vinte e cinco anos pra eles me respeitarem.
Eu quando acabei a licenciatura, em 2003, eu comecei a fazer logo outra licenciatura em Assistência Social. Só que eu comecei a dar aulas na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria, onde estou agora, e me indicaram que não me adiantava a fazer mais uma licenciatura, mas sim o mestrado e depois um doutoramento. Então suspendi a licenciatura e em 2007, comecei o mestrado em Arte e Educação na Universidade Aberta. Portanto, terminei o mestrado e entrei logo no doutoramento.
Quanto ao meu casamento, ele é das pedras e eu sou mais da educação e das artes. Mas às vezes é bom, porque ele consegue de uma forma muito prática e muito clara, dizer em duas palavras aquilo que eu estava a tentar a dizer num parágrafo. Porque a matéria dele dura, né e a nossa desaparece é efêmera. A paixão dele sempre foi o petróleo, ele até queria fazer o mestrado em engenharia do petróleo que é a paixão dele e decidiu, decidimos depois, que iria experimentar trabalhar numa plataforma de petróleo e então ele foi pra o Gabão, um ano a seguir de nos termos casado, então eu casei em 2005 e em 2006 que ele foi pra o Gabão. O Marcos é o que chamamos de embarcados, que é aquele esquema que passa tantos dias no alto mar e vem de volta para terra. Trabalha naquelas plataformas no meio do oceano.
Quando eu estava a terminar o mestrado, eu percebi que não tinha estudado aquilo que queria, gostaria de aprofundar mais. No mestrado estudei a formação do animador cultural enquanto estágio. Hoje eu faço o desenvolvimento científico da Animação Cultural na Escola Superior. Faço parte inclusivamente da comissão científica da licenciatura em Animação Cultural, aonde eu trabalho. Animação cultural, Educação Social, nos três cursos, aonde eu dou aulas.
Para o doutorado, quando vi Estudos Culturais, achei que estava em casa.
Wlad Lima e Jenny Gil em entrevista na cidade de Fátima.
Wlad Lima e Jenny Gil em entrevista na cidade de Fátima.
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Um comentário em “Jenny Gil Sousa”

  1. Prezada Jenny,
    Gostaria de acessar o capítulo identificado a seguir, ou gostaria que você me enviasse o arquivo do livro. Cordiais saudações.

    Edegar Luis Tomazzoni (USP-Brasil)

    CHRISTOPOULOS, T. P. ; RIBEIRO, D. S. ; TOMAZZONI, Edegar L. . CONTRIBUIÇÕES DE PROJETOS PRIVADOS PARA GARANTIA DO DIREITO AO LAZER, POR MEIO DE NEGÓCIOS SOCIAIS E EMPREENDEDORISMO SOCIAL. In: Ana Fontes, Jenny Gil Sousa e Maria de São Pedro Lopes. (Org.). Da participação na Cultura à cultura da Participação. 1 ed. Óbidos: RIAP – Associação Rede Iberoamericana de Animação Sociocultural – Nodo Português, 2014, v. 1, p. 127-139.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.