Timothy John Robertson Oswald

Eu sou o que sou em várias pessoas. Sou docente na Universidade de Aveiro. Também sou investigador, sou aluno, mas eu não me vejo como ‘aluno’, já não sou aluno na minha cabeça. Eu sou aluno da vida que já é muita coisa e neste momento estou a aprender muitas coisas. Sou autodidata. Nesse sentido, eu não sou aluno de ninguém. Sou pai e marido e aquelas coisas todas. Sou portista, torço pelo futebol do Porto. Essa é outra parte também muito importante da minha identidade. Eu acho que em certos termos, também eu não sei quem eu sou. Eu não sei, porque eu não sei se eu sou inglês, sou português, sou europeu… Mas entre ser inglês e ser português, já não consigo distinguir. Eu sinto-me bem aqui, sinto-me bem lá, enquadro-me nos dois lados, então, eu acho que eu estou a perder a definição da minha identidade. Coisa que também é importante. Eu não sei mais quem eu sou!
Eu sou filho. Tenho a minha mãe, mas o meu pai já não. Ela mora longe, o que custa um pouco. Ela está na Inglaterra e já está com certa idade. Sou irmão. Somos uma família muito chegada. Somos cinco irmãos. Tenho um irmão nos Estados Unidos, uma irmã na nova Zelândia, eu que estou aqui em Portugal e tenho duas irmãs na Inglaterra. Mas nos juntamos muito. Eles vem cá passar as férias, eu vou pros Estados Unidos e para Nova Zelândia. No natal, juntamos todos na casa da minha irmã, com os filhos e agora, com os netos. Agora já somos, pra aí, umas trinta, quarenta pessoas. Mas creio que a nova geração da família, está mais em contato entre eles, do que a nossa, porque tem os facebooks e aquelas coisas todas. Mas eu não me dou muito bem com estas coisas, eu tenho certas noções de perversidade porque eu não gosto muito de mostrar a cara pública e pormenores da minha vida, mas os meus filhos estão lá todos os dias.
Tenho um filho e uma filha. A minha filha está a acabar o sexto ano do primeiro ciclo de medicina veterinária, em Lisboa. E o meu filho está no segundo ano de engenharia geológica, em Coimbra. Então, estamos sozinhos em casa, mas tenho essa ideia de identidade que é muito importante pra mim. Tenho a minha casa de Aveiro – eu sei que Aveiro não é cidade, quer dizer, pra mim não é cidade. Aveiro é uma aldeia grande, não é. Mas temos uma casa da praia que é numa aldeia mesmo, mesmo pequenina e eu gosto muito de lá está. Nos fins de semana, sou uma pessoa porque estou lá, estou no jardim, estou a fazer as coisas da casa, estou na praia, estou no café. Enquanto aqui é diferente, porque aqui estou num apartamento fechado, fazendo as coisas que eu acho que são importantes.
O meu pai era oficial da marinha da Inglaterra, mas não na Inglaterra. Quase nunca vivemos na Inglaterra. Quando eu era pequenino vivíamos a caminhar nos navios e vivemos muito nas embaixadas, porque meu pai era Adito Militar. Eu nasci na Inglaterra, no sul da Inglaterra, num porto, perto do mar. Sempre vivi ao pé do mar, eu não consigo viver para outro sítio, tem que ser ao pé do mar. Tentei uma vez, tentei não, vivi três anos no Egito, em Cairo, que é longe do mar e tem tudo menos água. Adorei, mas não podia lá ficar sem o mar, precisava de ser ao pé do mar. Nós tivemos uma vida muito pra lá e pra cá; nós tivemos uma vida que íamos pra muitos lados, um ano aqui, dois anos ali. Eu já vivi na Argentina, já vivi em Líbia, em Hong Kong. Como digo: não vivi, estava lá com os meus pais. Depois que cheguei a certa idade, mandaram-me pra uma escola interna na Inglaterra, porque estava a ter uma educação muito fraca. Um ano aqui e um ano lá, pronto, então fui a um colégio interno, num sítio longe do mar, frio, só chovia, não gostei nada, portanto, saí logo que pude.
Como não tinha acabado os estudos, fui trabalhar e também não gostei muito. Então voltei para escola, acabei, depois fui para a universidade. Estudei na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Tirei primeiro a licenciatura em Psicologia. Quer dizer, os cursos de Cambridge não são bem assim, são chamados por áreas, como das ciências naturais. Dentro das ciências naturais, a pessoa escolhe uma atividade e eu escolhi Psicologia e Psicolinguística. Depois fiz o mestrado lá também e fui trabalhar.
Nossa casa era uma casa de ambiente muito feminino, porque o meu pai nunca estava; porque estava sempre no mar e coisas assim. A minha mãe é que era tudo. Ela nasceu em África, nasceu em Zâmbia e viveu lá até os vinte e poucos anos. Depois foi pra Inglaterra e casou com o meu pai. Na África, era ler ou ler, não havia mais nada, não havia nem rádios, nem televisão, nem nada, então ela fomentava duas coisas: a oralidade e a contagem de histórias. Nós fomos, todos os dias, “obrigados”, a contar sobre o nosso dia e depois, contar uma história.
Tivemos que ler. Mas quando a gente lia o livro não era só pra nós, era ler o livro para depois contar ao resto dos meus irmãos. Contar como é que era o livro e se valia a pena ler aquele livro. Fazíamos muito isto; a casa sempre estava cheia de livros. Só tivemos televisão quando eu já era adolescente, talvez doze, treze anos, pela primeira vez. Então era, só livros. A minha mãe tinha uma regra que era,, depois do pequeno almoço, se não estava a chover, era fora da casa a brincar no jardim. Brincar do que queríamos, mas depois almoçar, ir estudar. Então, era a gente, praticamente, todo o dia fora da casa. Para leitura, nós tínhamos, mais ou menos uma hora ou duas, ao fim do dia. Porque o hábito inglês era de ir pra cama muito cedo. A dar uma ideia, eu com oito anos, as oito horas, já estava na cama. Primeiro a minha mãe lia uma história pra mim e pro meu irmão, porque somos os dois mais velhos, la lia a história e depois fazia perguntas. Uma coisa que ela fazia e que era muito engraçado era que ela lia até quase no final e depois, nós é que tínhamos que inventar o final da história. Eu me lembro da primeira vez que eu li um livro sozinho até o final e estava a imaginar o final, mas descobri que o final não era o que eu havia imaginado e foi uma desilusão tão grande. As nossas prendas, de natal e de aniversários, eram praticamente livros ou jogos, ou bicicletas ou coisas assim. Então, sempre lemos muito.
Eu entro na Pré-escola com quatro anos e na Escola Primária com cinco. Vivendo em outros países, eu estudava sempre, ou nas escolas internacionais ou escolas britânicas, nunca em escolas locais. Então, eram escolas feitas para a comunidade estrangeira. Eu, por exemplo, já frequentei a escola americana. Minha língua de aprendizagem foi sempre o inglês, com exceção de um ano que eu estive em uma escola de francês, onde foi já não lembro, mas me lembro de que eu não aprendi nada. Mas eu me lembro que havia coisas esquisitas, porque na escola americana em Buenos Aires nós tivemos todos os dias de manhã – a maioria dos alunos eram americanos – eles tinham uma coisa de estiar a bandeira; todos os dias tem que estar lá, a cantar e não sei o que. Os alunos não americanos, também não eram obrigados a ir fazer isso, nós íamos já a tomar o pequeno almoço e comíamos aquele bacon e ovo, enquanto eles estavam lá fora a cantar o hino.
O meu pai era da Escócia, o pai da minha mãe era irlandês de descendência e a mãe era daqueles africanos do sul – são aqueles que promoveram aquele sistema do apartheid e pronto. Então, somos essa mistura do gênero. Quer dizer, eu estudei nessas escolas que eram, completamente, multiculturais. Havia pessoal de todo o mundo, a maioria nem eram britânicos; muitos americanos, indianos e pessoas de outros países como Alemanha. A Alemanha não tem pessoas suficientes para ter escolas, então os meninos da família da Alemanha iam estudar em uma escola inglesa, por exemplo. Havia muita, muita gente, mas era sempre em contato transitório, porque estava toda a gente em movimento. Então, eu sabia perfeitamente que era muito bom, mas só íamos estar ali por apenas um ano; depois íamos embora pra outro sítio. Era intenso, mas não era duradouro, portanto, não tinha contato com essa gente toda. A minha esposa que cresceu em Lisboa, durante a vida toda dela, ainda tem contato com os meninos da escola primária, mas eu não tenho essa possibilidade.
O meu pai não tinha paciência para essa coisa de leitura. Era uma pessoa toda militar, quer dizer, ele não entenderia, por exemplo, aquela coisa da gente adivinhar o final das histórias, porque para ele, as coisas eram muito diretas, o final certo era o final que o autor escreveu. E eu me lembro do meu pai tentando ler, mas para adormecer as crianças. A mãe ou o pai sentava ao lado das crianças na cama a ler – normalmente começa com as mães – e a criança a ouvir e adormecer. Depois passado um ano ou dois, é a mãe a ler e a criança a seguir as palavras com o olho e a apontar os sinais e por em repetição. E depois acaba com a criança a ler para a mãe, foi assim que comecei a ler. O meu pai, não. O meu pai juntava – já éramos quatro na altura – ele juntava nós quatro e lia a mesma história pra todos eles. Isso tinha que ser um processo mais curto possível. Não, ele não tinha paciência para estas coisas, mas, para desporto era fantástico. Nós tínhamos sempre a sensação que aquela função era da minha mãe, não era dele.
Eu devorava os livros e estava sempre a procura do próximo livro. Até hoje em dia, em casa eu tenho o hábito de ler dois ou três livros. No apartamento em Aveiro leio um livro, na casa da praia, leio outro livro. Não consigo ler o mesmo livro nos dois sítios. Mas tenho lá umas prateleiras com talvez, não sei, duzentos livros que ainda não li. Estou à espera de ler e tenho esta ansiedade de ter uma biblioteca a minha espera. Mas é porque estive em muitos sítios que não havia livros. Por exemplo, quando eu vivi no Egito durante três anos, só havia livros por troca entre pessoas. Na altura, não era proibido, mas para importar livros escritos em outra língua que não fosse a língua árabe, eram caros, muitos impostos, por isso, ninguém tinha livros, então, muita gente trocava os livros.
Na escola, quando eu tinha nove ou dez anos, parti a perna fazendo uma estupidez no recreio e durante uns seis meses não podia fazer aquelas coisas normais. Então, eu e outras crianças que estavam doentes, ficávamos na biblioteca da escola. Lembro-me disso muito bem. A escola não tinha muitos livros, mas tinha livros normais de leitura. E eu, não só gostava de ler os livros, como queria ordenar os livros, queria organizar os livros. Não sei se toda a gente tem esse sonho, mas havia uma altura que eu queria ter tido uma livraria ou ter trabalhado numa livraria. Eu tenho muito, nesse aspecto, o livro em si. Agora também não tenho qualquer paciência para livros que não gosto. Há muitos livros, muitos mesmo que eu comecei e não acabei. Eu não tenho essa paciência.
Há vários clássicos e sei que toda a gente gosta de um livro chamado Moby Dick, que é um livro estilo literatura do séc. XIX. Penso que sempre procurei os livros. Quando éramos pequeninos, com a minha mãe, nós tínhamos que escrever os nossos nomes dentro dos livros que tínhamos lá em casa, porque a minha mãe tinha a ideia que os livros, quando nós crescêssemos, os livros iam ser para os nossos filhos. Ela trata muito bem os livros dela. E ela tem livros que são de várias gerações. A minha mãe tem livros que são da bisavó dela. Livros com mais de cem anos de idade. E não são somente as bíblias, são livros normais que ela tem. Penso que apanhei isso dela. E uma das consequências é que, eu não consigo fazer muitas leituras em computadores. Não tenho um tablet, não consigo. Tenho que ter o livro na mão. E eu gosto de livros de segunda mão.
Nós tivemos sempre a casa na Inglaterra. Era uma casa base e quando havia férias, a gente voltava para casa, porque quando éramos mais velhos, começamos a frequentar escolas internas na Inglaterra. Mas eram todas, escolas diferentes, porque na altura, havia escola pra rapazes e escolas pra raparigas, porque não havia mistura. E a gente sempre passava três, quatro meses do ano em Inglaterra. Minha mãe levava com ela os livros, ela até tem biblioteca… Parece uma mala grande, tu abres e tem bastantes livros lá dentro. Ela levava isso para todo lado. Eu me lembro disto na casa. Ela guardava isso sempre no quarto dela. Em Hong Kong, porque havia aqueles bichos… Cupim, Então ela tinha a biblioteca-mala em cima de quatro pedras e em volta água. para não deixar os bichos chegarem lá. Mas a minha mãe recusava de passar um livro de um filho pro outro. ‘Esse livro é pra ti, não é pra mais ninguém’, portanto, se o teu irmão quer este livro, eu compro outro exemplar para ele. Porque não era só a leitura, como eu disse, era o livro em si; era o objeto que para ela era importante.
O avô da minha mãe era dono de uma quinta de café e o pai estava lá durante muito tempo. Eles viviam na Zâmbia. Não tinha eletricidade na casa. A maior parte da vida dela, quando estava lá, não tinha eletricidade, então, a leitura era só a luz de velas ou aqueles de parafina. Eu acho que isso era limitado, porque o tempo de leitura era limitado, por isso, quando é limitado, nós valorizamos mais. Então eu acho que juntou tudo isso: falta de livros, falta de tempo, falta de condições para ler. Acho que tudo isso ajudou ela ser assim.
Eu e o meu irmão escrevemos canções. Bom, tivemos aulas de música, gostávamos, ele tocava guitarra e eu era o piano. Nós estivemos a escrever uma canção e outra, mas eu nunca escrevi tanto, foi sempre mais ele a escrever. Eu ainda tenho uma destas coisas que a gente escreveu, mas isto, entre doze e quatorze anos, talvez.
Naquela escola interna que eu falei, lá, eu fiz parte da equipe editorial da revista da escola, durante dois anos. Era uma revista de reportagem, mas não era reportagem de verdade, era mais de “atividades escolares”. Eu escrevia sempre qualquer coisa e era só para dizer que eu, nessa idade, já começara a escrever. Eu sou muito tradicional nesse sentido. Eu não gosto muito de escrever no computador; eu gosto muito das canetas. Gosto muito das canetas de tinta mesmo. Gosto muito de escrever com isso e tenho a casa, uma caneta que pertencia ao meu avô, pai do meu pai, que é uma coisa fantástica, pesada e eu acho que aquilo ajuda uma pessoa a escrever. É um prazer pegar na caneta e depois ter que encher novamente e ver o que está na página. Também acho que o processo é completamente diferente, porque hoje em dia, logicamente, essas canetas são pouco usadas. Mas eu gosto de ver folhas escritas por mim, gosto de ver a minha letra. Acho que quando escrevo assim penso muito. É um processo lento, porque uma pessoa não pode corrigir. Por isso, perdi um pouco, aliás, perdi muito o hábito de escrever bem a mão, porque faço sempre no computador. Mas gosto muito, por exemplo, de escrever cartas. Eu escrevo a minha mãe; eu tenho alguns amigos com quem também escrevo. Não gostamos de trocar emails, felizmente. Eu tenho dois ou três amigos que vivem em partes do mundo, que não é que a internet não chegou, mas não é muito fiel e pronto. Tenho um grande amigo meu que está a viver no Sudão e está lá a vinte e cinco anos, está lá a trabalhar e a gente escreve cartas.
Eu me lembro que naquela escola interna, eu não sei se era sexta feira ou sábado, a gente sentava numa das salas e o professor ia até lá e dizia, ‘agora vocês vão escrever cartas pros vossos pais e estão aqui os tópicos’. Ele metia lá os pontos que a gente tinha que escrever e éramos obrigados a escrever estas coisas e ele ia ver o que a gente estava a escrever. O sentido é que nós tínhamos que incorporar aquilo que eles queriam, mas depois dizer outras coisas também. Então, eu escrevia e era um jogo, um castigo escrito.
Eu fui para universidade e queria a universidade de Cambridge, porque sabia que era uma universidade boa. Então fiz a tentativa de ir pra universidade de Cambridge e entrei. Entrei em ciências porque era mais fácil, depois lá dentro eu poderia mudar. Eu comecei com aulas de bioquímica e matemática e eu não percebia nada. Não gostei nada e não percebia nada! Mas passado uns meses já comecei a falar com os professores pra mudar e então mudei para Psicologia. Já no segundo ano, fiz cadeiras de história e filosofia de ciências, que eu gostei muito. Fiz história da arte que também gostei muito. Fiz inglês também gostei e pronto. Eu comecei a montar a minha própria licenciatura, porque na altura, era assim.
Eu tirei dois mestrados. O primeiro mestrado fiz lá, o segundo mestrado fiz aqui em Aveiro. Eu estou a falar do primeiro. Havia dois métodos de ensinar as crianças a ler – porque em inglês tem esse problema entre a diferença entre a linguagem escrita e a linguagem falada, ou seja, o que tu vês na página não é o que tu falas, a pronúncia e tudo, é completamente diferente. Então havia o método fônico, que era de aprender cada palavra consoante a fonética da palavra e depois havia o método da palavra inteira e isso era um método diferente e já havia nos anos setenta, oitenta, uma grande discussão sobre isso. Então baseado nisso o meu primeiro mestrado era sobre a utilização do método fônico com crianças, cuja a primeira língua, não era o inglês, era outra língua. A minha investigação foi com alunos do Paquistão. Eram línguas que não tem nada haver com o inglês.
Depois do primeiro mestrado decidi que não queria seguir a vida acadêmica e fui trabalhar, porque quando estava em Cambridge uma das coisas que eu fazia era o teatro. Mas eu não sou ator. Atenção, eu ficava na parte do cenário, dos bastidores a arranjar os sítios e fazer coisas e ajudar os atores. Decidimos fazer um tour, uma viagem, uma turnê.Tivemos uma ideia: queríamos levar o Shakespeare até a Grécia. Então, saímos da Inglaterra, paramos em vários sítios em Alemanha e em vários festivais de teatro em Áustria. Depois, a antiga Iugoslávia. Estivemos lá umas semanas no festival de teatro da juventude que era organizado pelo partido comunista. Na altura, era uma coisa muito engraçada. Depois fomos pra Grécia e começamos a trabalhar em escolas, porque era a nossa ideia. A aprendizagem de línguas era muito importante na Grécia, então, a gente fazia aquele tipo de coisa, como: Shakespeare em uma hora! Então, eu passei quase um ano e meio a fazer isso. Depois fomos umas vezes pro Chipre, pra Turquia, pequenas viagens e voltamos para Inglaterra. Depois decidi que queria ser assistente social e fui experimentar pra trabalhar num lar de reabilitação de velhos, que tinham passado muito tempo no hospital e estavam a tentar reintegrasse na vida normal. Mas passando uns seis meses, decidi que não era pra mim.
Comecei a pensar que queria viajar mais e arranjei um lugar. Fui fazer um curso de ensino de pedagogia da língua inglesa. Um curso breve, um curso de três meses, mas muito intensivo. Depois fui até o Egito, em 83 acho eu, para a universidade americana do Cairo, onde comecei a dar aulas de inglês, língua inglesa. Depois do Cairo fui pra Xangai, China. Fui para Londres e fiz um curso mais aprofundado de pedagogia nesta área e vim para Portugal.
Eu estava a trabalhar em uma rede internacional de línguas e então, eles me contrataram pra ajudar a abrir escolas. Para tratar da parte da direção pedagógica e gestão pedagógica da escola. Há aqui uma escola desta rede em Aveiro. Vim ser diretor pedagógico desta escola e trabalhei durante quatorze anos, como diretor pedagógico. Antigamente, as aulas eram todas para adultos, portanto, eram adultos que queriam aprender inglês. Lentamente começam a introduzir as crianças. E aí começa a ter um problema para mim. Estas escolas de línguas são de natureza extracurricular. Os pais querem porque acham que é importante, mas as crianças não querem. Eu não gosto de dar aulas para pessoas que não querem lá estar. Então comecei a ficar um pouco desiludido com aquilo.
Comecei a trabalhar aqui na Universidade de Aveiro em part time, em 95, depois mudei em 2002, para full time. Havia aqui uma coisa que se chamava ano comum, que era o primeiro ano antes de Bolonha. O primeiro ano de todos os cursos científicos e nele, toda a gente tinha o inglês. Eles precisavam de muita gente e então, eu pensei, ‘eu vou experimentar para ver’. E gostei! Gostei da liberdade e gostei de não trabalhar numa entidade comercial.
Sou leitor de inglês aqui na UA. Antigamente, um leitor era uma pessoa que só dava línguas e era uma pessoa falante materna da língua que dava; apoiava o professor porque dava as aulas práticas da língua. Com a reorganização dos cursos, agora é diferente. Mas antigamente, o professor dava a parte teórica da linguística e tudo mais, e depois, o leitor ajudava os alunos a praticarem a língua. Mas isto já não é bem assim, foi mais no meu tempo de chegada. Agora o leitor é um professor de línguas vivas, pronto. Está fora do sistema universitário; eu não faço parte, estou aqui contratado. Não faço parte da mobília. Portanto, eu trabalho em contratos que são renovados de três em três anos e dou aulas de línguas e cultura.
Depois em 2005 eu decidi fazer aqui um mestrado, porque já estava muito fora da área do primeiro mestrado. Eu queria voltar a estudar e fazer investigação. Mas foi lá quase vinte e anos depois do primeiro. Eu vi que precisava de uma coisa mais estruturada. Então, eu fiz o mestrado em Estudos Ingleses. Pra todos os efeitos era um mestrado em linguística, mas, logo não era.
Comecei o doutoramento em 2006. Eu gosto muito da investigação que eu faço. Para mim, o doutoramento é a culminação do trabalho, não é o início.
Wlad Lima e Timothy Oswald em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Timothy Oswald em entrevista na cidade de Aveiro.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.