Anônimo AGF

Tenho 38 anos e nasci em França, onde vivi praticamente uma grande parte da minha vida. Meus pais migraram para França, são portugueses da Guarda. Emigraram no inicio dos anos 70. Tiveram 2 filhas. A minha irmã, que tem 2 anos a mais do que eu, nasceu cá, mas foi por coincidência, os meus pais estavam cá. Mas minha irmã viveu sempre em França. E eu que nasci lá, vivo cá em Portugal. E a minha irmã que nasceu cá, vive em França e tem família e não esta a pensar viver pra Portugal.
Sou filha de imigrantes, os meus pais regressaram pra Portugal em 2009 definitivamente, portanto, já cá vivem. Tivemos uma vida muito tradicional. Em casa falava-se português. Só ao longo do tempo e passados muitos anos é que lá já falávamos, ainda como hoje em dia, metade português, metade francês. Mas, a minha irmã e eu, basicamente mergulhamos e vivemos na cultura francesa. Como todos os imigrantes, se calhar da altura, falava-se o português. Comia-se tão bem a comida portuguesa porque vinhamos a Portugal todos os anos.
Me formei lá, mas com a vontade de um dia voltar para Portugal. Já no fim da licenciatura em francês como língua estrangeira, tivemos que realizar um estagio para alunos que estivessem a aprender francês como língua estrangeira. Sendo portuguesa, e sendo os meus pais do Conselho da Guarda, decidi tentar a minha sorte em Portugal. Enviei cartas de pedidos de estágios por varias universidades, entre as quais, a de Lisboa, por pensar que ali, haveria mais oportunidades. Também ao Instituto Politécnico da Guarda, por ser a cidade dos meus pais. E qual não foi o meu espanto! Surgiram ao mesmo tempo três respostas positivas.
Optei por Lisboa por ser uma universidade para ampliar os meus horizontes. Mas concluída a licenciatura, enviei uma carta perguntando se era possível realizar um estagio curricular, era um estagio voluntário aqui em Guarda. Disseram-me que sim – isto foi em 98 – e deram-me a possibilidade de permanecer no Instituto Politécnico como professora de Frances. Exerci essa função entre 1998 e 2008, em duas escolas: na Escola Superior de Educação e mais tarde no polo de turismo de Ceia, na Serra da Estrela. Mas o francês começou a perder muitos estudantes, e os meus serviços não eram por si tão necessários como 10 anos atrás. Então surgiu à oportunidade, quase milagrosa, de vir trabalhar na Universidade Aberta. Concorri num concurso de abertura para Centros Locais de Aprendizagem.
A Universidade Aberta é a única universidade publica à distancia, em Portugal. São cursos superiores ministrados em regime de e-learning. Em 2008, decidiram abrir varias extensões para cobrir o território nacional todo e também os Açores. A Ilha da Madeira ficou de fora, por enquanto. Então, o polo abriu no Sabugal no distrito da Guarda. Desde 2008, sou formadora do Centro de Aprendizagem Local da Universidade Aberta. Vim para Portugal em 1998, não sabendo bem que futuro me esperaria cá, em Portugal, e fui ficando… Depois casei, tive um filho, divorciei-me e cá estou. E cá estou, passado 15 anos, na Guarda.
Eu fui sempre uma aluna bastante aplicada. Portanto, fiz um percurso escolar todo seguidinho, nunca reprovei, formei. E a partir do 12º ano, não fui logo pra universidade estudar francês, porque resolvi primeiro fazer um diploma que é mais prático, que se realiza em 2 anos. É um diploma do Ensino Superior em Comercio Internacional. Ainda não tinha ideia, nessa altura, do que fazer, mas já sabia que gostava de vir pra Portugal. Depois enveredei para o espanhol, ou seja, notava-se ali, que eu não sabia muito bem qual a área que eu queria seguir. A partir do bacharelado em espanhol, eu decidi mesmo ir para o francês, já com essa ideia de tentar a minha sorte em Portugal.
Foi um percurso sem grandes obstáculos. Sempre gostei muito de ler, sempre, desde pequena. Desde que eu me conheço, sempre gostei muito de ler. Uma aluna não muito brilhante, mas uma aluna aplicada, dedicada aos estudos. Os meus pais nunca puderam nos ajudarem, a minha irmã e a mim, nos trabalhos da escola, mas sempre nos incentivassem. Mas não me lembro deles terem ajudado ou apoiadas, porque eles não dominavam a língua francesa. Portanto, quem foi a minha referencia e o meu apoio, foi a minha irmã. Foi a minha Irma mais velha dois anos que me ajudava. Hoje em dia trabalha numa câmara lá em França e já esta ocupando um posto já muito bom. Foi ela que me ajudou ao longo do meu percurso, quando eu tinha alguma dificuldade e depois trabalhamos muito sozinhas.
O meu pai era mecânico e minha mãe trabalhava nas limpezas. Fazia limpeza em casas de família, escritórios, instituição… Naqueles anos os homens eram pedreiros, basicamente, eram todos pedreiros, lá. O meu pai, por acaso, foi mecânico. As mulheres trabalhavam nas limpezas, e aí juntos, é que se conseguia criar filhos e economizar um pouco. A ideia deles foi sempre um dia voltar pra Portugal. Estando cá eu, era uma filha que estaria cá. Portanto, teem o coração sempre dividido: tem uma filha lá, duas netas lá, uma filha cá e um neto cá. Mas pelo menos conseguiram vir pra Portugal. Se eu tivesse lá na França, eu tenho certeza que eles estariam cá, a viver, porque meu pai queria mesmo. Agora a minha mãe, eu não conseguia imaginá-la assim, tanto tempo longe das filhas e dos netos.
Quando eu cheguei a Portugal, passado pouco tempo, conheci aquele que seria o meu futuro marido no Instituto Politécnico da Guarda. Ele estava a acabar de estudar e também já dava umas aulas da engenharia civil. Casamo-nos passado dois anos ou três anos, em 2001. Tivemos um filho em 2003 e separamo-nos em 2008. Ele é português mesmo! Ele que está fora daqui. Ele é engenheiro civil, entretanto, como isto esta muito mal – ele ficou desempregado há 2 anos – e não havendo nada em Portugal, ele teve que ir pra Angola; foi trabalhar. Esteve a trabalhar em Luanda quatro meses. Neste momento esta cá em Portugal novamente. Não se adaptou muito bem; esta a espera de ver, se arranja alguma coisa por cá e fica. Se não arranjar terá que ir pra outro país. Por acaso, é algo que sim, que faz parte da minha vida sim, as separações, as viagens, a imigração…
Voltando a minha formação, inscrevi-me no mestrado em Literatura francesa do século XIX em Coimbra e conclui em 2002. Eu sempre gostei de línguas. Aliás, na escola as disciplinas que eu preferia era mesmo as línguas e sempre gostei muito de ensinar aquilo que sei, em francês, a outras pessoas. Agora, de dois anos pra cá, tenho andado a dar uma formação a adultos, a noite, quer em espanhol, quer em francês. Estou a dar agora uma formação, a noite, em língua francesa.
O que me fez pensar no doutorado em Estudos Culturais foi apenas, mesmo, por realização pessoal. Não preciso, por enquanto, não preciso. O panorama do país também não tem grandes perspectivas de que me venha a servir, num curto prazo, o doutoramento. Eu dificilmente irei ganhar mais por ter um doutoramento, ou não ter; ganhar no sentido de ter mais oportunidades. Portanto, foi apenas uma realização pessoal. Como coordenadora, o único diploma que usei, exigido aqui para coordenar o centro foi o da licenciatura, embora nos incentivem também a prosseguir os estudos, mas não é obrigatório.
O bichinho do doutoramento ficou sempre lá no fundo. Dizia assim, “passado uns tempos tenho que tirar o doutoramento”. Em 2010 resolvi mesmo, e então, optei por me candidatar a dois doutoramentos da Universidade de Aveiro: um em Educação Online e o outro em Estudos Culturais. Optei por esse último, não só porque gostei dos conteúdos e do plano curricular, mas também porque eu acho que é necessário sempre um contato com os colegas, um contato presencial, físico com os colegas, com os professores. Sempre fui habituada ao ensino presencial e porque acho que é completamente diferente estar a aprender algo com os colegas com os quais se aprende também muita coisa; com professores, do que ao invés do ecrã do computador, muito mais frio, muito impessoal. Eu só sabia de uma coisa: era na área do francês.
O doutoramento em Estudos Culturais em Aveiro chamou-me atenção pela abrangência dos temas. Aliás, isso está a vista pela diversidade dos projetos de teses apresentados pelos meus colegas que vão desde a gastronomia, a literatura, a turismo…
 
Foto retirada a pedido de AGF

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.