NOTAS DE BAGAGEM

Porque será que no Brasil, em minha casa em Belém do Pará, norte do país que o mundo inteiro conhece como Amazônia, eu não pensei, em nenhum momento, o quanto seria difícil permanecer por 18 meses em Portugal, fazendo estudos em um estágio de pós-doutoramento? Creio que não pensei porque precisava sair, por motivos pessoais e por motivos profissionais. É o que nós brasileiro chamamos de “dar um tempo”.

Só que com o tempo, “a ficha caiu”.

“Dar um tempo” fazendo uma pesquisa nova, e em terra estrangeira, é brincadeira! Uma atitude de alguém sem a mínima noção do que seja viver em outra cultura! Talvez eu não tenha pensando, porque estava me deslocando para um país onde fala-se a mesma língua que a minha, o português. Português… Quem disse que é o mesmo português o que “temos”, perto do que se fala em Portugal, em Angola, Moçambique, Cabo Verde e assim vamos para todas terras que Portugal colonizou. Reconheço que esse povo português navegou muito, lutou muito, emprenhou muitas mulheres, se misturando com diversas raças. Também roubou, matou, foi morto, foi devorado; alguns ficaram por lá, outros voltaram pra cá e a língua… É a língua mudou, e muito!

Além da diferença nos falares, não lembrei dos comeres, dos vestires, dos habitares e assim vai por toda essa cultura portuguesa, que é outra, diferente da brasileira. Eu disse brasileira, assim no singular? Gente, não posso falar de cultura brasileira, assim, no singular. Devo falar de  culturas brasileiras, culturas do Brasil do sul, do centro-oeste, do sudeste, do nordeste e do norte… Que saudades do norte! Aprendi uma coisa: viver para conhecer! Cada cultura, uma  cultura diferente. E a gente vivendo nelas vai conhecendo os pontos de contatos, mas principalmente, as diferenças.

Eu gosto de estudar as identidades, mas gosto mais ainda de trabalhar com o conceito de diferença. Diferèncé. Será que é assim que se escreve? Aprendi também que falar a língua dos outros, é poder falar melhor com os outros; é trocar melhor com o outro. Penso que enumerar as coisas todas aprendidas, e apreendidas, vai levar um tempão… Mas sei que só o tempo me trará outras compressões dessa vivência em terras portuguesas.

Aqui, nesse espaço de pensamento, desejo revelar um pouco mais do que levo em minhas bagagens. É, bagagens no plural, mesmo! As bagagens-malas, que são muitas; a bagagem cultural do viver; a bagagem intelectual de mais um estudo concluído; a bagagem emocional dos encontros; a bagagem-saudade por ter respirado um pouco esses ventos de Aveiro, apreciado o fado em Lisboa, navegado pelo Douro, ter ido à uma balada em Braga – eu disse uma, porque não gosto muito das baladas – mas fui para muitas aulas também, me inscrevi em cursos que até Deus duvida! Conhecer cidades como Guimarães, Viana do Castelo, Coimbra, Leiria, Fermentelos, Fátima, Évora, Sintra, Faro, Funchal… Para muitos desses lugares, fui levada pelos encontros com os “sujeitos de minha pesquisa”. Que bom que a saudade – que é uma linda palavra portuguesa – vai crescer e poderei voltar um dia.

Após construir essa introdução, deliberadamente emocional, pude  encontrar uma estratégia para organizar melhor minhas bagagens e assim, construir os aspectos conclusivos de minha pesquisa nesse estágio. Pensando muito e revendo tudo, decidir concluir falando de dois aspectos da vivência-pesquisa: o bloco de sensações e a impossível (+ou-)tese.

BLOCO DE SENSAÇÕES

(+ou-)TESE

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.