Manuel Carlos Lobão de Araújo e Gama

Sou o mais novo de sete filhos. Vivo em uma família aparentemente tradicional. Depois de cursar dois anos de microbiologia, um jovem e sua mãe estavam um dia a lanchar, e o jovem disse que queria desistir da microbiologia para fazer teatro. A mãe diz que não lhe vai pagar nada, e ele responde: não lhe pedi dinheiro nenhum. Deu-se uma volta de 360 graus.
Se eu estou aqui hoje, é a custa desse lanche que tive com a minha mãe, porque fui para o teatro. Frequentei ate o último ano do curso de teatro, e na altura, já estava a trabalhar como ator. Fiz curso superior de ator. A certa altura, o Teatro Experimental do Porto, que era uma companhia tradicional muito importante no panorama teatral nacional, fez audições porque queria reformular, completamente, sua estrutura. Como eu já trabalhava como ator há dois anos. Então, resolvi me inscrever nessas audições e ingressei.
No primeiro dia de ensaios estava lá uma jovem que era mais velha que eu; os nossos pés, debaixo da mesa, estavam constantemente a bater um no outro, e nos constantemente a pedir desculpa. A imagem que eu tenho dela – daquela que se tornou minha mulher – é que tinha um casaco que eu não gostava. O espetáculo estreou, começamos a namorar e passando um ano e pouco, casamos. Estamos casados há 16 anos. Seu nome é Maria; é uma mulher de teatro.
Entre os irmãos, eu sou o único que ainda está casado; 16 anos sem me separar, porque eu me oriento. Por um conjunto de circunstâncias, não completei o curso, porque casei no último ano. Naquele ano, a Maria continuava a trabalhar comigo, entretanto, em 98, convidaram a Maria pra dar aulas numa escola, só que ela não podia dar aulas porque ia trabalhar no Teatro Nacional de São João. Na saída, ela disse algo do gênero: ‘o meu marido tem a mesma formação, se quiserem, ele pode dar as aulas’. Aí, eu fui a uma entrevista e eu fiquei a dar aulas lá em 98.
Durante 10 anos fui professor do ensino secundário, aulas de expressão dramática, num curso de animação cultural. É uma das poucas coisas que eu acho que sei fazer bem. Eu sou um bom professor, e isso, é a única coisa que eu sei. Eu tenho alunos que me odeiam, mas eu sou bom professor. Sou também um ator, mas nunca me considerei um ator extraordinário. Penso que desisti de ser ator, não me interessa absolutamente nada. Gosto muito de ensinar e produzir e isso é uma coisa que eu gostava de investir. Já fiz espetáculos muito bonitos, me orgulho de ter feito, mas sei de que sou professor; isso eu descobri e adorei o ensino.
Nasci no Porto. Filho de um pai engenheiro e de uma mãe professora primária, uma irmã médica, um irmão engenheiro, de outro irmão gestor, de outro irmão advogado, de dois irmãos de rúgbi, eles estão na questão do rúgbi.
O meu pai, Antônio Pedro, teve sete filhos, oito filhos, um morreu. Eu sou o mais novo. No ano em que nasci, ele abriu uma fabrica de assistências elétricas tubulares. Interessou-se por minha mãe, começou a pintar e foi um dos fundadores do Teatro Experimental do Porto, uma pessoa intelectualmente interessante. Ao fim de 27 anos de casado, meu pai era uma pessoa muito diferente, ele saía de preto, de fato e gravata, a sustentar sete filhos.
A minha mãe é uma pessoa muito importante na minha vida, tem um conjunto de coisas, de características que eu não me identifico, só tolero, porque é minha mãe porque eu acho piada. Uma das atitudes mais nobres da minha mãe foi quando meu pai, depois de se terem divorciado, foi lhe ter aberto as portas de casa quando ele estava doente. Ela tem muitos netos, ela cria algum deles, ela vive com algum deles. Agora eu dou muito valor a família. Mas quem me ajudou a ver isso foi a Maria. Ela é uma pessoa muito importante, é por isso que estou aqui hoje, estou aqui é a custa dela. Então, família pra mim é muito importante.
Havia livros na minha casa, mas nada de extraordinário. Não havia uma biblioteca. Não lembro, de me instigarem a ler. A minha próxima etapa é ter tempo pra ler. O que é mais interessante é que os bibliotecários tinham a obrigação de conduzirem um leitor a não perder tempo com maus livros, porque não há nem tempo para ler todas as boas obras. Portanto, a minha próxima ação depois que eu terminar o doutoramento vai ser ler, adquirir os clássicos, tentar fazer um bocado a biblioteca de todo. Tenho internet em casa e é aí que eu me concentro, mas a próxima etapa é ler, ver os livros.
O teatro entra na minha vida um dia quando eu tinha 18 anos. Comecei a trabalhar no Teatro Nacional São João como arrumador. Enquanto trabalhei lá, tive um contato muito próximo com atores, com a direção do espetáculo e achei que era essa a minha e tal, entrei e pronto, foi assim que conheci o teatro. Eu adoro ver espetáculos em que eu me sinto muito mal, mas vou vendo, porque eu aprendi a fazer durante 10 anos numa companhia de teatro em Viana, nomeadamente produção, comecei a bater muito, mas é belíssimo ver maus espetáculos. A mim, é muito difícil encontrar um espetáculo que me deixe realmente surpreendido. Fiz um micro espetáculo com a Maria; fizemos pra tentar ganhar algum dinheiro por não consegui qualquer investimento, ninguém a trabalhar na área da produção.
Dos 16 aos 24 eu já me sustentava; uma coisa que está estritamente no sangue. Na escola que eu trabalhava, havia um aluno muito interessante que queria ir para o curso de e eu disse: ‘ó Nuno este curso não é pra ti, eu vou te procurar um curso’. E procurei-lhe um curso e descobri um curso em Viana do Castelo de Gestão Artística e Cultural, que eu não sabia que existia, era o segundo ano de existência. Aí eu disse: ‘o Nuno vai pra este curso que pra ti é melhor’ e ele: ‘ainda não ia sair de casa e tal’. Cheguei em casa e disse a Maria: ‘o Maria, eu descobri que existe este curso, que achas d’eu me inscrever’; e ela disse: ‘eu acho o curso interessante’; e eu disse: se calhar vou me inscrever. Afinal, eu não tinha o curso superior completo.
Me inscrevi, me candidatei num contingente perfeitamente normal, fiz o exame e entrei no curso. Eu na altura, a dar aulas no Porto em itinerário completo no ensino secundário, tinha muito trabalho na estrutura que eu dirigia, e ainda dirijo, estávamos na época das vacas gordas como se dizia, ganhei muito, muito dinheiro com aquilo. Fui a primeira sessão de aulas em Viana do Castelo a dizer:’ atenção, tenho estatuto de trabalhador estudante, não vou poder ir as aulas; para avaliação vou posso vir, por isso só fazia o exame e pronto, muito bem e tal, tudo combinado. Ou seja, eu fui para o curso por causa do Nuno, mas o Nuno não foi para o curso, e eu decidir ir.
Nas viagens que fazia Porto-Viana com um colega chamado Antônio Vieira Lopes, constantemente me dizia na viagem: ‘ora Manuel, tu tens que pedir equivalências do teu curso profissional, dava-te equivalência’. Então em maio, eu decidi enviar um mail a diretora do curso para lhe perguntar se, ao abrigo da legislação que existe de creditação, se eu poderia creditar. Passado meia hora, Anabela Moura – com quem eu havia discutido no primeiro encontro por essas questões todas -, e ela responde-me passado meia hora, muito bem, pode envia-me o seu currículo, portanto, em setembro eu entrava no curso e em maio do outro ano já havia creditado quase tudo. E aí, eu estava em reunião com ela  e ela diz: ‘o Manuel não quer fazer mestrado?’
Eu já estava a pensar em fazer um mestrado na área da programação cultural, mas ela diz: sim, mas estamos a ver um mestrado em Educação Artística e há duas vagas que estão destinadas a pessoas que não tenham licenciatura, mas que tenham um percurso profissional e o seu percurso não me deixa qualquer tipo de duvidas que tem competência e características pra o fazer, se estiver interessado. Inscrevi-me, candidatei-me e entrei para o mestrado.
Fiz o primeiro semestre de mestrado que eram aulas todos os dias, 8 horas por dia, uma coisa assim deste gênero, nos meses de agosto e setembro. Um dia Anabela Moura me chamou no intervalo de uma aula e me perguntou: quer dar aulas aqui?’ Bom eu deitei-me a rir, pensei que era anedota; e ela: ‘quer dar aulas ou não?’ e eu: ‘mas como?’ Em resumo: Há uma legislação que permite que os melhores alunos das unidades possam dar aulas; aqueles que têm bastante informações.
Terminei o mestrado, entreguei o ponto e tal, e então recebo um telefonema a meio do ano letivo do Politécnico, de alguém do próprio politécnico, a perguntar-me se eu não queria fazer um doutoramento. A Anabela Moura andava-me a chatear para eu ir pra o Brasil, porque eles iam fazer um doutoramento com o Brasil e outro com a Inglaterra. Pensei: eu ir pro Brasil ou pra Inglaterra para fazer o doutoramento? Ah, não não não! Elas me chatearam tanto que eu encontrei o doutoramento em Estudos Culturais. Pensei: ‘vou fazer a minha vidinha que é para não me empurrarem pra uma coisa que não me interessa’! Ainda estava a escrever a tese de mestrado e já ia fazer o primeiro ano de doutoramento.
Em cinco anos fiz uma licenciatura, um mestrado e iniciei o doutoramento. Pronto, decidi, quero Estudos Culturais, nem sei explicar… Estudo e dá-me muito prazer.
Wlad Lima e Manuel Gama em entrevista na cidade do Porto.
Wlad Lima e Manuel Gama em entrevista na cidade do Porto.
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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.