Manuel Ferreira da Costa

Regresso à Portugal, na década de 70, em 1978, muito jovem, com doze anos, para viver dois grandes choques culturais. Eu chego aqui e descubro que não havia processo de equivalência de estudos, então, me tiraram quatro anos de escola. Voltei para a escola primária, ao pé das crianças pequeninas e isso foi um grande choque para mim. Esse atraso de quatro anos eu vivi até a licenciatura, quer dizer, quando os meus colegas iniciavam na licenciatura, eu ainda estava bastante atrás. Quando acabaram a licenciatura, estavam com idade para entrar para tropa. Portanto, vivi com todos esses percursos misturados.
O outro choque cultural foi a ideia que tínhamos que Portugal era um país desenvolvido. Chegar a uma terra, que conheci algumas vezes na minha infância, e viver toda essa coisa que Portugal estava a atravessar – as crianças que andavam descalças e estavam a fazer xixi em todo canto, a mulherada toda vestida de preto, não nos ensinavam nada, o fado, enfim, cristalizado. Eu vinha de um grande trópico, habituado a democracia desde pequenino. Na escola estávamos a frequentar bibliotecas desde a primeira infância, desde o pré-escolar. Os meus hábitos de leitura foram desde os cinco anos, ao contrário das pessoas que, depois, eu vinha encontrar aqui. Eu ainda hoje conheço pessoas da biblioteca municipal.
Quando eu regresso, nós fomos viver para o Sul, zona de pescaria. Um ano e meio após a revolução, logo ao meio do ano escolar. O meu pai tinha dito que aqui era um bocado violento. Muitos fugiram depressa para Portugal porque haviam retornados da África, ocupavam casas e tal, e torna-se violento, muito de repente. Portanto, uma imagem negativa. Nós chegamos no fim de semana e nos instalamos, no dia seguinte, o meu pai abriu uma loja, uma mercearia, venda, ali naquela zona e nós fomos diretamente para escola, onde nos apresentamos.
O meu primeiro choque cultural foi quando saí da casa dos meus pais e vou para rua, em um bairro pescatório, no centro da cidade. Era um sítio importantíssimo porque ali estavam os correios, a rua do comércio, a câmara municipal e então era a grande rua de pescaria. Passam duas mulheres, duas peixeiras, a fazer a sua performance natural, mas pra mim, foi absolutamente ilegível. Duas mulheres peludas, vestidas com aqueles trajes, lenços e aquelas coisas, calças e tal. Gritavam uma com a outra. Uma experiência forte num espaço muito curto, de alguns segundos. Eu vejo e fico muito impressionado com aqueles dois seres, e todo aquele luto e aquela toda perfomatividade, porque gesticulam muito e encenam muito; ritualizam muito o modo como se tratavam. Eu só pensava em fugir e voltar para França. Eu quero fugir daqui, eu não quero mais ficar aqui, pensava.
Foram muito difíceis os primeiros dias e as primeiras semanas. O meu irmão mais velho, o André, é muito simpático e todo bonitão e as meninas gostavam e tal, rapidamente, se enturmou, como vocês dizem. Eu fui um bocadinho atrás dele porque eu tinha muito medo de ir para escola e de sair a rua, porque eu não me identificava com aquele território. Rejeitei completamente esse território e esse ambiente cultural. No fundo, esse húmus cultural desse período.
Logo depois, fomos viver para o Porto e eu vivi lá, até os meus dezessete anos. Aí, me adaptei melhor a cidade, a escola, aos professores que eram escritores, que eram intelectuais. Uma escola boa, que é feita mesmo nesse ambiente e eu senti que tinha me recuperado. Eu voltei aos livros e o ambiente da biblioteca, que era o hábito que eu já tinha, é assim que eu vejo. Mas com dezessete, dezoito anos, sofro novamente, esse choque cultural, porque eu venho aqui para uma escola de Varzim, para iniciar o liceu. No Porto era tudo muito livre, tinha as bandas de rock, cantavam em português. E muitas delas criadas no liceu. Aqui não! Aqui era um ambiente de grupinhos, das meninas das roupinhas, dos meninos que tinha o melhor tênis. Muito tribal, muito por grupos, quase que se cheiravam uns aos outros para se reconhecerem. Eu não tinha grupo para me encaixar. Durante um ano letivo, eu passo a ir e voltar de comboio e sempre que não havia aulas, a tarde ou de manhã, eu ia para o Porto para encontrar com os meus amigos.
A propósito disso é que eu comecei a ir às livrarias. Durante várias partes do dia eu ficava nas livrarias do Porto, nas exposições, nas galerias e assim fui me redescobrindo. Conhecer coisas na minha adolescência: a pintura, a escultura a música clássica e contemporânea. Isso foi um percurso muito feito por mim, sempre muito marcado e resistindo a uma tendência normal que era dos meus pais, antigos imigrantes, que era só de trabalhar. Então, essas coisas para eles não faziam sentido, queriam que eu trabalhasse para ganhar dinheiro, para continuar a estudar.
Quando entrei na universidade foi por mim mesmo. Mas também porque eu já tinha ido para o estrangeiro e feito outras coisas, porque não consegui estar cá muito tempo; precisava do mundo, da Europa e ver coisas em outras universidades. E vivi muito próximo das universidades. Um mundo que eu ainda não conhecia, mas, intelectualmente, me fazia sentir muito bem.
Eu quis entrar em Direito porque era uma carreira segurar Não entrei por duas décimas. Depois voltei a ir para o estrangeiro, voltei a viver em vários países, voltei a frequentar a universidade de Bruxelas e o Instituto de Estudos Políticos Europeus. Depois de fazer várias coisas, acabo por regressar e me fixo na Biblioteca Municipal, para uma experiência de trabalho. Arranjo um emprego definitivo, funcionário público, numa área que eu gostava muito, para qual eu achava que tinha vocação. Nesse sentido, faço um curso em Espanha, regresso e tenho uma das experiências na área dos Estudos Europeus e Relações e Políticas Públicas internacionais. Mais tarde venho a estudar o Patrimônio e a estudar a Sociologia da Comunicação e da Cultura.
Os meus pais são os condenados da primeira metade do séc. XX. Filhos de agricultores vieram emigrados e depois então, se conheceram. O pai do meu pai veio da África com a ilusão de enriquecer e o pai da minha mãe emigrou para o Brasil. O do Brasil não voltou e só o da África que voltou. Portanto, a geração deles, principalmente a do meu pai, é a geração que tenta escapar desse destino de ser e nascer pobre. Depois, nos anos 60 e 70 emigram para França. O meu pai vai, passado um ano, vai a minha mãe conosco, com o meu irmão mais velho e comigo. Ele é um ano mais velho do que eu. Ele nasceu em sessenta e quatro e eu em sessenta e cinco. Nós vamos todos para lá. Eles, os meus pais, não foram agricultores, eram filhos de agricultores. Aqui eles fazem parte de uma geração que pensa num futuro melhor. O melhor seria ser costureira, empregado da mercearia, motorista de caminhão, esse tipo de coisas. Era ter uma profissão para ganhar dinheiro. Ficamos lá até meus doze anos.
Em França, o sistema de ensino é muito bem organizado, tínhamos aulas de manhã e de tarde. Na altura, não trazíamos trabalho de casa, fazíamos os trabalhos na escola. E a escola era um mundo que nos alimentava, pelo menos para mim foi. Na segunda-feira de manhã começava sempre com música, só muito mais tarde que eu descobri que eram “As Quatro Estações de Vivaldi”, que os professores iam pondo aos pouquinhos. Porque o professor chegava sempre a segunda-feira e dizia: ‘vocês são alunos da república’. Isso é uma coisa que me marcou, na minha consciência política e cultural. A França é uma república. Depois matemática, depois língua e a tarde, artes. Isso preenchia-nos! Atividade de leitura, tempo para ir a biblioteca. Na escola primária, já que estávamos lá, o nosso tempo era pra estudar e tínhamos gosto em estudar, ao contrário da minha geração e dos meus pais que nasceram e cresceram aqui. Eu vi que não tinham capacidades intelectuais de socialização e todo esse tipo de ritual social e intelectual que lá, eu vou ver. Tudo isso fica ativado em mim, ao longo da vida.
A minha mãe era doméstica e fazia costura em casa. O meu pai trabalhava nas obras e depois arranjou um emprego numa bomba de gasolina, que foi a maior parte do tempo que ele passou lá. As quartas-feiras eram dias extremamente intelectualizados. Ele sempre nos levava a Paris. Eram dias que não havia aula e passeávamos em Paris, o que aumentou o grau do choque cultural no regresso. Porque esse cosmopolitismo faz parte da ideia de cidadania; de cidadão da república. Em que o imigrante é tratado da mesma forma em todos os municípios. É um cidadão que têm direitos. O que me chocou muito quando estive a viver em Lisboa, ao ver os imigrantes – ucranianos, brasileiros, indianos e outros – só eram cidadãos se fossem trabalhadores. Se não fossem trabalhadores eram invisíveis. Foi uma visão que foi desenvolvida com essa minha experiência, essa ideia de cidadão invisível. Ele só existe porque é trabalhador e depois não participam de uma série de funções sociais ou atividades sociais enquanto cidadão. Porque não se conversa com um imigrante, não se conhece os nossos imigrantes, não se conhece os sonhos dos imigrantes até 77. Eu não senti isso lá.
Nós éramos filhos da república, então, quando íamos a Paris, as quartas-feiras a tarde, comprar roupa ou não sei o que, íamos felizes. Depois comecei a ir a Paris por mim. A minha mãe nos vestia muito bem e o meu pai nos vestia muito bem, mas lá em Paris. As coisas eram mais em conta do que hoje, mas comprava-se também nas boutiques. E depois quando retornamos para Portugal, culturalmente, o processo foi tão rápido… Foi o medo de que as casas e os terrenos que eles tinham, fossem ocupados pelos retornados.
Os meus pais eram trabalhadores e tem a escolaridade mínima completa. O meu pai tem uma grande curiosidade intelectual, mas é desprovido de qualquer hábito de leitura e de qualquer familiaridade com o manejamento da escrita e do jornal. E nunca desenvolveu esse tipo de práticas. O meu irmão mais velho tem uma inteligência absolutamente prática, muito empírica. Se ele vê a fazer uma coisa aprende logo a fazer. Ele hoje tem um grande restaurante na Alemanha. Eu nunca tinha visto o meu irmão a fritar um ovo, e hoje, ele é chefe de cozinha. Agora faz o tiramissú, é uma coisa incrível. É um grande sucesso e faz cozinha gourmet; ele é absolutamente prático.
Eu era uma espécie de ave rara dentro da família. Sempre com um livrinho de baixo do braço; com uma voracidade, eu lia tudo. Realmente, a minha voracidade era muito grande e ainda criança fui colaborador da biblioteca porque eu tinha lido tudo que eles tinham para criança, para infância e para adolescência. Portanto, o meu mundo, era o mundo da relação do real com o conto de um livro. E com uma percepção para o processo de abstração. Eu tinha um interesse imenso por ciência política. Eu tinha um interesse imenso na antropologia. Para o exercício de cientificidade da abstração; para o processo crítico com relação ao real. Tudo isso tem haver com o tempo e o modo com que se viveu a realidade social e política da década de 70. Eu penso que sempre tive mais propensão para pensar do que para fazer algo extraordinário. Toda a gente diz que eu sou um artista falhado, um arquiteto, um artista plástico, porque sou das artes. Fiz tudo que havia de fazer no mundo das artes, menos fazer arte.
Quando chegou a Portugal, o meu pai montou uma loja e nós tivemos todos que ir trabalhar. Trabalhávamos das cinco da manhã até meia noite, e isso foi terrível pra nós. Trabalhar e estudar Não bastava estalar os dedos, porque nós tínhamos que trabalhar, porque não havia nada. Então, dividíamos as tarefas e no fim de trabalhar, tínhamos que ir pra escola. Era duro, porque depois da loja fechar, a fazer contas e tal. A loja ficava aberta até a meia noite, todos os dias, sete dias por semana.
O cosmopolitismo das escolas que eu frequentei aqui na zona alta do Porto é que me alimentava os interesses intelectuais. O programa curricular com os grandes escritores portugueses – Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e os grandes clássicos. Eu comprava todos. Mas esses escritores contemporâneos eu não conhecia e a escola me dá esse conhecimento.
O cosmopolitismo das próprias classes sociais, eu frequentava, porque ia levar compras a casa de uma professora de música, conhecedora de música. Eu não sabia muito, mas tinha essa comunicação. Também ia levar compras a casa da família do cônsul da Suíça do Porto e fiquei muito amigo dele, amigo da família. Como tenho grande propensão para aprender línguas, eu aprendi a falar italiano porque a filha da senhora falava italiano com uma amiga ao telefone e eu traduzia para ela. Só de pagar o telefone, eu aprendi a falar italiano. Mais tarde vou aprender a falar espanhol sem sotaque só a ver filmes. Depois também vivo um bocado em Espanha e tal. Então, foi com essa gente da alta burguesia que eu aprendi coisas. Mas que no fundo tem haver com um imaginário que eu já conhecia, mas que eu ainda não tinha encontrado. Só depois vai sendo ativado, faz parte das nossas opções de vida, dos nossos gostos e dos nossos conceitos culturais. Sou muito marcado por isso e pela minha carreira na área da função pública.
É a fase das músicas rock em português, é a fase das discotecas, é a fase do pop britânico, é a fase de democratização do falar. Quando chego a Portugal o modo de falar é muito codificado e depois mais tarde percebo, vendo programas de televisão antigos, que é uma réplica do modo de comunicar, na igreja, na televisão, nos políticos da época da ditadura. O modo de transmissão é introduzindo pequenos tics: ‘não sei o que, pá’, que é uma espécie de tradução dos imigrantes que regressam da África do Sul. Dizem que o ié, iá, o iá vem da Alemanha, são apropriações de vocábulos. Depois cria um jargão que é um modo de código de resistência, que vai se desvanecer com a explosão da televisão a cores, com as rádios locais, os jornais, o jornalismo no cotidiano, da opinião pública. Depois desvanece e entra todo esse processo de democratização com o qual eu passo a minha adolescência e o início da minha fase adulta.  Já lá, estou muito engajado nesses movimentos associativos.
Quando começa um movimento associativo cultural aqui na Póvoa, na criação do movimento associativo de caráter regional já na região metropolitana, o movimento da juventude, dos anos 80, esse engajamento, foi todo o meu conhecimento de cinema e da arte e da literatura, foi tudo isso, a cultura do Sul, minha formação cultural no fundo. E essa relação entre a alta cultura e a cultura extrema é que me vai amadurecendo e me vai fazendo de uma forma autodidata, descobrir coisas interessantes e de fazer coisas, pensar e a trocar informações.
O primeiro estudo sobre a realidade da biblioteca nacional foi feito por mim. Mas era sempre para cumprir uma função, não tenho tempo. Eu me senti sempre desprovido de capacidades literárias, nem se quer tentei escrever algo que não fosse um discurso técnico. Até porque estava mais próximo do meu registro no rigor, não é. Se o processo de amadurecimento intelectual vem da leitura, da compreensão do texto e da intertextualidade e das noções objetivas e subjetivas do estudo do texto, quer ensaio, quer literatura, a escrita tinha que ser aqui uma escrita que corresponde. Portanto, eu passo a ser extremamente exigente e conflituoso com o meu processo de escrita. Para mim, o conceito é que é substantivo, todo o resto é adjetivo; a construção frásica é um processo de cimentamento até a estruturação. Escrever algo que não fosse a minha função, pra mim seria muito difícil. Eu produzi e produzi muito cedo, até de uma forma extremamente precoce, nas instituições onde me envolvi.
Inicialmente, minha formação foi em Direito, em Coimbra, porque trabalhei numa fábrica e o meu chefe dizia: ‘se fizeres o curso de Direito virás a trabalhar para o departamento jurídico desta fábrica; falas várias línguas…’ Mas foi um dilema para mim, depois deixei o direito. Entrei em 97, tinha vinte e três anos, já tinha experiência aqui na biblioteca. Eu já, também tinha uma experiência aqui no museu. depois de dois anos, faço o meu curso de licenciatura em educação. faço um curso de guia em visitas em língua estrangeira e outro de tecnológicas em informática. Quando entro para o primeiro curso acaba por ser uma escolha – que é uma dentre outras, em detrimento de outras e muito próximo daquilo que era, na altura, a contornalidade mental entre, o que sobrou do que eu gostava e o que me seria mais útil. Então, no primeiro momento, era pra ser animação cultural; era um curso livre. Porque era pra trabalhar na animação cultural dentro das associações com o município: museu, biblioteca e todos os eventos culturais. Em um âmbito mais alargado era, pontualmente, aquilo que culturalmente vi em França, onde um animador cultural era um profissional extremamente respeitado. Depois vou pra Espanha fazer o meu curso de bibliotecas e quando regresso, regresso muito influenciado por um surgimento dos cursos de relações internacionais e administração pública internacional, que reunia direito, economia e ciência política; que englobava depois a área da cultura e literatura e tal. É esse curso que depois eu acabo por fazer , de relações internacionais. Vou para o mundo, atrás do mundo!
A primeira viagem foi obviamente de reencontro com as origens, com o meu país de coração, a França. Depois, mais tarde, vou a Londres, a Barcelona, a grande viagem na Espanha, Bélgica… Acabo por tentar uma grande viagem pela Europa central do Leste, mas não foi possível, acabei por ficar pela Itália, Suíça, França, Alemanha, outra vez a Bélgica, sempre circulando pela Europa.
Fiz em uma Universidade do Porto, numa universidade privada, o curso de licenciatura de Relações Internacionais, com um belíssimo corpo docente que me marcou profundamente e que fez com que eu orientasse o meu curso para aquilo que eram os meus interesses: sociologia, antropologia, filosofia. Os estudos da cultura, acabam por prevalecer. Mas também tendo tido um grande sucesso ao nível das disciplinas técnicas: o direito, direito internacional, direito civil, constitucional, economia, gestão financeira e ciência política. Mas vou estudar, sobretudo, a dimensão cultural.
Como eu gostava das questões da multiculturalidade e da cidadania; sempre as pessoas em primeiro lugar. Via sempre a sociedade e cultura. Eu acabo por, ainda como aluno, ir ao grande congresso europeu de cultura europeia. Um grande congresso internacional europeu onde vou apresentar uma comunicação sobre a Europa entre a etnicidade e a cidadania. É a primeira comunicação num congresso internacional que eu faço ainda como aluno. Depois no ano a seguir, quase a terminar, eu sou convidado pela universidade de Toledo, de fazer uma coisa parecida. Depois, meio ano depois, um professor Húngaro que está lá, e que também estava em Toledo, convida-me pra ir a grande universidade de Budapeste para fazer uma comunicação num congresso sobre as nacionalidades na Europa. Eu fui lá falar precisamente sobre esta questão da etnicidade e da cidadania na Europa central, porque estavam lá os sérvios. Havia muita gente nesse congresso e foi muito interessante porque aquilo estava escrito em inglês. Naquela época nem percebia inglês, tive que ler em inglês mentalmente e traduzir e dizer em francês e responder em espanhol para os que vinham da América do Sul. Foi uma coisa muito mix, e por outro lado muito engraçada, porque os desafiei, no fim do meu trabalho, à fazerem uma coisa sobre línguas e culturas e códigos culturais. Então, obviamente, o meu trabalho final de curso é sobre Cultura Europeia, Construção Europeia, Cidadania e Multiculturalismo; em torno disso.
Nesse período eu já trabalho na biblioteca, já dou aulas no Instituto Profissional de Formação Técnica, já dou aulas numa universidade particular que tinha aberto no Porto, na área da animação cultural. Faço muita coisa e continuo com o trabalho de direção do associativismo local. Vou fazendo milhões de cursos. Faço, inclusive, um curso de sociologia urbana. Esse curso tem haver com a antropologia, com a sociologia, com a filosofia da cultura, com a literatura, com a semiótica e tudo isso, numa ótica transversal. Mas atenção, tudo isso é feito ao mesmo tempo! Entretanto, vou a universidade de Bruxelas fazer um curso em Estudos Europeus e sou convidado pra trabalhar em Bruxelas. Sou convidado para uma carreira pára-diplomática. Porque na altura toda a gente dizia que o curso tinha sido feito com uma boa imagem, portanto, que eu deveria entrar para uma carreira internacional. Como eu queria continuar a viajar e continuar a conhecer o mundo, aquilo parecia muito demasiado enraizado.
Nesta experiência nova, correu muito bem, fiz várias coisas, participei e gostei muito da assessoria técnica. É quando eu faço um relatório sobre o modo como as intervenções urbanísticas da cidade, tinham reconsiderado a cidade, em uma lógica de geografia cultural, de assegurar os equipamentos, de sociabilidades etc. Mandam-me ir para fazer um relatório sintético e eu transformo aquilo num mega relatório com vídeos, com imagens e com tudo que se tinha feito. Para tanto, trabalho com engenheiros, com urbanistas, durante meio ano – júniors e sêniors – desenvolvemos juntos um relatório. O presidente da câmara enviou e que acaba por ser um sucesso enorme. Por isso, fui convidado pela senhora que recebeu o relatório, que era perita no ministério do planeamento em Bruxelas, para ir trabalhar com ela na presidência portuguesa da União Europeia, que iria abrir logo em 2000. Isso foi uma coisa inusitada. Acabei por participar e convenci o presidente a deixar-me ir, porque ia só por seis meses.
Fui pra Lisboa pra ficar seis meses e acabei por ficar quatro anos. Foi outra revolução na minha vida, porque eu trabalhava diretamente com o senso comunitário e fiquei um bocado congelado com as políticas públicas europeias para o primeiro ministério que me recruta de cunho socialista, coisa que eu nunca fui, socialista em planeamento urbano. Depois sou recrutado pra o ministério de obras públicas e sociais. Portanto, tudo que era para restruturação do país: planeamento, infra estruturação. Mais tarde, para fazer os negócios estrangeiros, para fazer diplomacia com Bruxelas, para fazer o conselho de ministro de educação e cultura. Então, já participo do Ministério da Educação junto com os vários ministros da educação, com quem eu trabalhei; fazendo parte do Conselho dos Ministros de Educação e Cultura.
Mais tarde, vou ajudar a criar, a montar profissionalmente, o relatório de cultura para as relações internacionais, com uma infraestrutura, verba do ministério da educação e fazer o Conselho de Cultura e de Educação. Isso era muito interessante, porque me obrigava há estar muito tempo em Bruxelas, como perito, trabalhando com grandes especialistas e ouvindo grandes guris. Dando palestras para equipes governamentais e de estado, em todas as áreas. Visitando muitos países e serviços públicos. Visitando os aeroportos e estações portuárias, bibliotecas, grandes centros culturais e centro de artes. Tudo isto foi uma aprendizagem muito grande.
Eu não tinha noção, quando fui pra Lisboa, que eu iria fazer tantas coisas. Só quando cheguei a Lisboa descobri que iria fazer parte do quadro de ministros, com outras pessoas. Vivia em Caiscais, porque os ministros diziam que um membro tinha que viver em Caiscais, na zona chic de lá. Trabalhava no centro de Lisboa, entrava às 9h, mas gostava de passear quando voltava a meia noite. Era a hora, por exemplo, que os brasileiros estavam nas cabines telefônicas a falar pra o Brasil e era a hora que começavam a comprar coisas no supermercados e tal. Então, chegava a casa, tirava o terno e gravata, vestia uns calções e chinelos e andava pela cidade atrás deles, porque queria descobrir aonde essa gente morava, ou seja, os encontrava no supermercado, na rua, mas eu queria saber como é que essa gente vive. Queria saber das dificuldades das pessoas, andava atrás dos indianos e descobria aonde eles moravam. Eles entravam numa rua e já começava a cheirar a açafrão, a comida indiana. Com os brasileiros era o samba, bandeirinhas na parede, na janela e essas coisas. Depois se descobre que isso tem haver com dificuldades territoriais de quem vive em prédios muito antigos. Descobre-se toda uma realidade. E andava atrás dos magrebinos. Eu cresci com magrebinos quando vivi em França. Morava perto de alguns e até comecei a aprender a falar árabe, coisas muito desconexas que eu nem sabia qual era o sentido. E sempre fazia o percurso que os magrebinos faziam. Vinham os homens mais velhos e depois os jovens pequeninos e só depois mais tarde é que vinham as mulheres. Já num processo de reagrupamentos e, quando territorialmente as complexidades estão ativadas,  eles vão todos viver para uma aldeia que há ali junto ao mar. É uma espécie de zona muito confusa que há ali. Eles andam pela cidade e depois vão lá ter e vão morar nesses locais onde os filhos e netos das pessoas da pescaria, que viviam e ficaram vagas. Alugam progressivamente a essa gente, que vivia ali e se esconde e sobrevive. Portanto, em Lisboa fazia muito isso e conhecia um pouco a realidade. Naturalmente, sempre que tinha tempo, fazia tudo que podia. Foi em Lisboa que eu fiz a famosa pós-graduação em Estudos Editoriais e em Planejamento Territorial e Urbano.
Depois fiz muitos cursos com financiamento da Gulbenkian, através do ministério, como Educação e Arte para Infância, Marketing da Cultura e Economia da cultura e Comunicação Pública. Tinha essas coisas todas, que eles davam a oportunidade e eu ia fazendo. Quando precisei de um aparato mais dentro de pesquisar e de fazer – quando sou nomeado responsável do planejamento de Portugal em termos territorial, para as associações da chamada estratégia de Lisboa – eu voltei à Universidade de Coimbra para fazer uma pós-graduação em Direito, em Direito Social, portanto, para estudar as questões do social com o econômico.
Wlad Lima e Manuel Costa em entrevista na cidade de Varzim.
Wlad Lima e Manuel Costa em entrevista na cidade de Varzim.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.