Maria de Fátima Neves Paes da Silva

Sou uma pessoa que tem como lema de vida aprender sempre, não só aprender no sentido que nós tínhamos da cultura ou da alta cultura, mas aprender com o mundo, com as coisas, com as pessoas. Acho que fiz isso em toda a minha vida, agora mais conscientemente, mas antigamente, percebia de uma forma mais inconsciente. Fui muito influenciada, e cada vez noto mais isso, pela forma como os meus pais me educaram, principalmente o meu pai.
O meu pai me conduziu sempre a segui o caminho do aprender, nada ao caminho do ter. Claro que era um sonhador, não ligar nada ao caminho do ter é um cadinho perigoso e eu ja senti isso na pele, mas não estou arrependida. Sou eternamente grata a essa forma que meu pai me fez ver o mundo e as coisas, e afirmar-me como mulher, em um tempo em que muitas meninas ainda eram criadas pra fazerem o liceu e tirarem um cursinho de professora primária. O meu pai dizia, ‘anda pra frente!’. No dia que eu comecei o doutoramento e ele estava gravemente enfermo, eu disse: ‘ô pai eu vou desistir’. E ele, do alto dos seus 88 anos, quase sem voz, disse: ‘vais imediatamente para Aveiro’. Saí de casa pra vir, foi quase um ato de obediência.
Eu sou uma pessoa muito ansiosa, sofro de uma depressão desde os 15 anos. Consigo viver com essa depressão, mas tenho momentos em que vou pra baixo, mas também que tenho me levantar outra vez e isso tem sido sempre assim, toda a minha vida. Muita gente acha que eu sou uma pessoa muito forte, eu acho que reajo conforme os acontecimentos. Eu agora estou sozinha, não tenho família nenhuma e com muita mágoa, agora já menos. Eu estou a me levantar outra vez do facto de ter perdido a minha família toda, que era a ordem natural das coisas, eram pessoas de idade. Eu perdi os meus pais, eu perdi a minha tia, etc. Eu fui casada durante muito pouco tempo, não tive filhos, tive alguns namorados, mas nunca mais me passou pela cabeça casar. Enfim, a instituição do casamento me faz um bocadinho de confusão, pronto e assim foi passando a minha vida.
Viajei muito, numa altura em que nós ainda nos podíamos dar esse luxo, viajei muito, principalmente, pela Europa. É o fascínio pela Europa, aquela velha Europa da cultura. Eu gostei sempre de viajar sozinha, pedi e consegui todas as bolsas possíveis e imaginárias para passar temporadas na Alemanha e na Áustria, ia fazendo os cursos de formação como professora de línguas. O pouco que eu construí, profissionalmente para ter alguma coisa, não precisei muito dos meus pais.
Meu pai sempre foi muito querido por todos, mas eu sempre tive a sensação que ele era visto como uma pessoa fora do vulgar, porque elas diziam assim: ‘seu pai, uma pessoa maravilhosa, bocadinho despistado, mas uma pessoa maravilhosa. Realmente, sabia muito, passou a vida a ler. Eu posso dizer que a minha mãe teve papel secundário. Minha mãe, digamos, ela fez-me heroína desde pequenina. Minha mãe acordava-me todos os dias dizendo: ‘bom dia, vamos pra batalha’ e depois um abraço enorme, caloroso, um abraço incrível, abraço maravilhoso de mãe. Com febre, com dor de dentes, com dores de barriga, fosse o que fosse, dizia sempre: ‘vamos pra batalha’!
Nós vivemos na casa onde eu ainda vivo, foi construída pelo meu avo e ainda hoje estou perto do Porto. O meu pai teve uma historia de vida muito curiosa, ele foi o mais velho de nove irmãos. Nasceu ele e mais não sei quantas crianças. Aos quatro anos ele quis ir – eu nunca percebi bem esse querer ir aos quatro anos -, mas ele quis ir viver com uma tia. Aos 10 anos, essa tia e o marido foram pra Angola e o meu pai disse: ‘e então eu fico aqui sozinho?’ E lá foi pra Angola e viveu esse tempo com os tios, voltou aos 20 e tal, quando conheceu a minha mãe. Retornou muitas vezes lá, tinha uma paixão por Angola, uma coisa louca. Lá trabalhou, estudou, coisa que aqui não teria oportunidade de fazer, porque embora o pai dele fosse um lavrador rico, ele iria por os filhos todos a só trabalhar como lavradores. Meu pai queria desesperadamente estudar então chegou a Angola, trabalhou e estudou. Entretanto, quando ele veio, naquela altura, eu posso bem imaginar, como seria a terra que nós vivemos; Grijó era mesma uma aldeiazinha. Ele volta pra lá, pra essa comunidade, pra essa aldeia e onde encontra com a minha mãe. Eles não eram os chamados retornados, porque vieram durante a guerra colonial, o tio já reformado. Mas a tia do meu pai veio dois anos mais cedo, porque estava com uma doença cancerosa e foi tratada em Lisboa no hospital e acabou por falecer em nossa casa. Portanto, eles praticamente foram os pais dele. Funcionavam como os meus avós paternos.
O meu pai era empresário, dono de uma fabrica de artigos de plástico e depois foi a falência e ele voltou outra vez nos anos 70 em Angola, aí sim, na altura dos retornados, mas não foi um retornado típico. Depois ficou como gerente da empresa de caminhonetas, de autocarros, que foi herdado do meu avô materno, entretanto nos anos 90 a empresa foi vendida e meu pai foi se dedicando as coisas que mais gostava, lia em casa, andou na universidade sênior.
A minha mãe era uma dona de casa, foi uma menina a quem foi recusado estudar, portanto, só podia fazer o ensino primário. Queria ser professora de historia, e ficou sempre entristecida porque meu avô entendia que estudar que não era para rapariga. O máximo que ela pôde aprender, foi aprender a costurar, a moldar, e a frequentar uma escola que, na altura, se chamava se não me engano ‘Obra das Mães’, em que as meninas aprendiam tudo o que era necessário pra ser uma boa dona de casa. Ela sempre ficou, um cadinho, inconformada com isto, embora sem formação nenhuma. Ao fim ao cabo, eu só nasci 8 anos depois de eles se casaram, quando já achavam que não iriam ter filhos.
Acho que minha mãe viu em mim uma das alunas que ela gostaria de ter sido, de modo que ela também me acompanhou sempre no meu percurso escolar. Aos três anos meu pai me matriculou num colégio alemão, porque entendia que o alemão era uma coisa essencial. A minha mãe ajudava-me em tudo, menos na parte do alemão. Eu fui pra escola primaria da aldeia onde fiz quatro anos do ensino primário, sempre com a minha mãe a ajudar-me na parte aritmética e acabei o ensino primário e fui os dois primeiros anos pra um colégio católico rigoroso e depois, fiz o resto do secundário no Liceu.
O meu pai foi sempre um bom leitor e nunca foi um bom escritor, porque estorvava, quase sempre por preguiça. A nossa casa esta ainda com a parede forrada de livros, antes, cada prateleira de livros tinha dois camadas, na frente estavam os livros que se podiam ler no Estado Novo, e por atrás estavam os livros proibidos. Eu fui avisada praí a partir dos 6 anos, que tudo estava a minha disposição; o meu pai só me disse: ‘tu pode ler tudo o que tu quiseres, só que a prateleira detrás tu não podes dizer a ninguém que leste, nem aos teus amiguinhos; podes dizer o que leste das prateleiras da frente, as detrás não podes’. Tinha Eça de Queirós, que eu lia sem perceber nada, mas achava que podia ler e que pronto! Havia um monte de coisas que não era suposto uma menina ler, e eu fui lendo aquilo tudo. Eu li os Lusíadas com oito anos, não percebi nada, mas o meu pai me presenteou com os clássicos da literatura explicados às crianças. Então, eu lá depois, comecei a perceber, um cadinho, do que tratava os Lusíadas, porque li a versão para criança. A biblioteca foi aumentando, aumentando, aumentando, até que agora nascem livros em todos os cantos.
Nós vivemos sempre como se dizia, antigamente, remediados, que era com o dinheirinho todo contado, aquelas coisas todas. Mas para livros, felizmente, nunca faltou dinheiro. Sou única filha, a única neta, a única sobrinha. Eu, com 15 anos, achava que já sabia algumas coisas em inglês e dava explicações, aulas particulares por um preço absolutamente irrisório, hoje 50 cêntimos, e juntava o dinheiro pra comprar livros.
O meu exercício de escrita era diário, uma faceta que agora eu não tenho. Eu escrevia a maior parte das vezes por interesses, e quase diariamente, escrevia bilhetinhos pra minha vó, eu escrevia ‘querida vovó eu precisava de uns bombons’ assinado e punha a data. Quando se aproximava o meu aniversario, dia 20 de maio, eu aparecia praí no dia 10 de maio, eu escrevia todos os dias um bilhete a todas as pessoas da casa lembrando que, por exemplo, ‘querida vovo, querida mama, faltam 10 dias pro meu aniversario preciso desse livro, desses e desses, muito obrigada’. Eu tenho montes e montes de bilhetinhos desses. Pronto, claro que depois na adolescencia eu queimei isso tudo por vergonha de ter escrito, nao eram poemas, mas assim, textos extremamente inflamados sobre o amor e os amores nao correspondidos, mas eu leio aquilo as vezes na sala e digo ‘meu deus do céu nunca ninguém vai-me ler isso que eu to com vergonha’ e foi tudo queimado para não restar nada. Mas eu gostei sempre, eu gostei sempre muito de escrever e de ler. Se eu pudesse eu nao fazia outra coisa senão a escrita. Quem me dera.
Eu fiz faculdade de Letras, o que se chamava antigamente, curso de germânica, que era inglês e alemão. O meu primeiro ano correspondeu a línguas e literaturas modernas, depois escolhi inglês e alemão. Sempre, desde criança eu disse ‘eu quero ser professora’. Antes eu queria ser, aos três anos, eu queria ser empregada doméstica; entre os quatro ou cinco eu queria ser carpinteira, igual ao Robin Hood. A partir dos seis anos, eu decidi que queria ser professora e sempre, sempre, sempre, a ideia foi, “eu quero ser professora”. Pronto e agora sou uma professora triste.
Saí da licenciatura sem quaisquer ferramentas de didática, ou o quer que fosse. E depois tive que fazer, o meu estágio profissional, foi uma novidade digamos assim. Eu tive que voltar a universidade, nesse caso, a Escola Superior de Educação e fiz o estágio na escola, onde eu estava a dar aulas. Duas vezes por semana tinha que vir a Escola Superior de Educação frequentar cadeiras como psicologia, análise do currículo, sociologia da educação e a metodologia das línguas. Foram dois anos terríveis porque a escola onde eu estava era particular e eu quis fazer o estágio lá porque era necessário fazer o estagio, mas eu lembro que a direção disse a mim e a uma colega: vocês fazem o estagio, mas o serviço a prestar a escola tem que ser o mesmo’, portanto, eu fiz o estagio quase de noite, mas aprendi muito também. Aprendi muito porque tive sorte tive muito bons orientadores, e muito jovens, eu só tive que dizer bem de todos os meus professores, exceto os de educação física. Eu tenho horror a ginastica e ao desporto, detesto mesmo, não gosto mesmo.
Depois eu resolvi sair do ensino particular no secundário e tive um convite pra ingressar numa universidade que estava a nascer no Porto, a Universidade Fernando Pessoa. Na altura em que eu fui convidada era ainda o Instituto Erasmus. Estive lá três anos, gostei da experiência, realmente, gostei talvez mais até pelo nível cultural dos colegas. O reitor da universidade, não sei como, mas provavelmente com o dinheiro da União Europeia resolveu que todas as pessoas que lá estavam, tinham que fazer doutoramento na Universidade de Santiago de Compostela. Eu lá fui como toda a gente, sem a mínima noção, digo com toda a franqueza. Os dois primeiros anos foram anos curriculares, tínhamos que fazer trinta e duas cadeiras, lá fiz. Entretanto, digamos que foi prometido que tudo era pago pela universidade, que eu sempre presumi que foi dinheiro da União Europeia, pois o reitor, com certeza, não teria a hipótese pra pagar doutoramento pra toda a gente, para pagar propinas e etc. Correu tudo bem no 1º ano, mas no 2º ano deixaram de pagar. No 3º ano a mesma coisa, entretanto eu já tinha escolhido o meu tema de tese, já tinha inclusive um orientador e uma orientadora, porque eu queria fazer a tese em tradução literária, em inglês, só que a universidade deixou de pagar. Eu não ganhava, nem de perto e nem de longe pra sustentar aquilo. O que acontece? Desisti. Portanto, tenho a parte curricular toda feita.
Concorri pela 1ª vez ao ensino secundário público e comecei a trabalhar em 95, com muita pena de mim, porque depois de vim da universidade, três anos a ir quase todas as semanas em Santiago de Compostela, acabar numa escola pública, foi um bocado difícil; eu nunca me manifestei, mas pronto, as pessoas são como são, mas custou-me bastante. No entanto, em termos humanos, foi muito gratificante, gostei muito. E as coisas correram bem até meados os anos 2000. A partir daí começaram a vir os grandes cortes, as grandes mudanças. Acho que os professores a não serem devidamente valorizados. E eu comecei a ficar cada vez mais desiludida.
Eu queria fazer um doutoramento na área dos estudos alemães e em 2009, eu cheguei inclusive a contatar a Universidade do Minho e a Faculdade do Porto, mas não havia doutoramento em estudos alemães, quando por mero acaso e eu já não sei como é que descobri, os Estudos Culturais em Aveiro, e pensei: ‘a minha ideia deve ter cabimento aqui’.
O que me interessa no doutoramento é este caminho, é o caminho que se faz, porque ao fim ao cabo na minha idade o doutoramento em assuntos profissionais não vai servir de nada. Mas é todo este caminho que eu pretendo percorrer, e sempre com o meu lema que eu até pomposamente escrevo em latim ‘aprender sempre’.
A vida é um delírio!
Wlad Lima e Fátima Paes em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Fátima Paes em entrevista na cidade de Aveiro.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.