Anônimo MJCM

Eu sou moçambicano. Sou um rapaz velhinho porque eu já tenho um pouco mais de cinquenta anos. Eu nasci em 1961. Agora eu sou profissional da educação, sou professor, estou na carreira desde 1980.
Começo a trabalhar nos níveis mais elementares. Naquela altura, quando nós acabávamos de ficar independentes, todos os setores, incluindo a educação, as escolas ficaram sem técnicos, sem professores, sem trabalhadores, sem pessoas que pudessem continuar o processo de desenvolvimento do país. Porque os portugueses já tinham saído depois da independência, abandonaram vários setores de atividades. O país chamou-nos, nós os jovens na altura, para integrar-nos os diferentes setores de atividade. Eu fui chamado para a educação.
Eu faço a minha primeira formação como professor primário . A formação naquela altura era uma formação muito rápida de um ano. No ano seguinte, eu começo a trabalhar. Trabalho como professor e depois como diretor de escola de escola primária. Fui indo e daí tive um prêmio por ter sido considerado um dos melhores professores do distrito onde eu estava colocado. Tive um prêmio pra ir trabalhar na cidade onde havia condições pra continuar com os estudos. Ali começa a segunda fase da minha vida.
Regresso a Faial como um estudante, fui fazer os níveis, sucessivamente, até fazer a universidade; com algumas interrupções a meio, e eu faço a universidade. Deixei de ser professor no ensino primário e comecei a trabalhar como técnico da educação nos serviços de educação, que nós chamamos de direção de educação. Da cidade onde eu estava a trabalhar. Depois passo a trabalhar para outro nível maior que o de uma cidade, portanto, ao nível da província, como técnico de estatísticas educacionais. Fiz uma formação em Micro Planificação da Educação, em 87 \ 88. Foi um curso que foi organizado pela UNESCO e eu participo nesta formação.
Eu crio a Carta Escolar na província onde eu estava a trabalhar. Eu construí a Carta Escolar da província, a organização da cartografia das escolas na província. O objetivo era localizar onde é que estava a escola, onde é que deveria ser construída a escola no futuro, em função da densidade populacional e da projeção do desenvolvimento que se esperava, na altura. Como sabem, Moçambique, depois da independência, entrou em outra conjunção da guerra que durou dezesseis anos. Uma guerra que nós chamamos de guerra de desestabilização, porque era uma guerra da rejeição da independência. Era para desestabilizar o processo de governação. Essa guerra deu cabo de todas as infraestruturas e foi preciso começar do zero. Então foi um desafio muito grande! Eu penetrei nos lugares mais recônditos, inclusive, nos sítios onde havia guerra. Era preciso chegar lá e saber da população se precisava de escolas ou se era preciso de outras coisas. Então, eu fui fazendo isso.
Em 1997, eu vou para universidade fazer a licenciatura. Eu faço isso em tempo recorde, inclusive, eu trabalhei na universidade, onde eu estava a estudar. Depois eu fui convidado a trabalhar na universidade como professor. Por pouco, eu não estive no Brasil, porque a promessa que havia, na altura, era que dois anos depois, eu deveria ir para o Brasil fazer o doutoramento. Eu fiz a minha formação de forma tranquila e com algumas facilidades. Portanto, sou esta figura.
Eu nasci num sítio recôndito, entre aspas, mas foi numa localidade do distrito de Massinga, província de Lamane, numa localidade chamada Licunha. Os meus pais eram camponeses, não tinham escolarização. O meu pai trabalhou, no tempo colonial, com a administração portuguesa. O meu pai era da linhagem dos régonos, que eram indivíduos que trabalhavam ligados a administração pública portuguesa. Organizavam a população, organizavam o sistema administrativo na localidade e cobravam os impostos, zelavam pela organização da estrutura social da localidade. Então, o meu pai trabalhou nisso porque fazia o recenciamento da população. Eu estudei graças a isso! Porque as pessoas da minha geração, muitas pessoas da minha geração, não estudaram, naquela altura. Então, o meu pai tinha alguma visão.
Em Moçambique, naquela região, as pessoas tinham medo de ir para escola; tinham medo de muitas coisas, quer dizer, que as escola era só para os brancos, sobretudo, se fosse menina. Aí,  não era mesmo permitido ir pra escola. Mas na minha família, nós, eu e os meus irmãos estudamos, graças exatamente a esta visão que o meu pai tinha. Ele era “assimilado” e por isso já tinha alguma visão. Tinha contato com o branco, tinha contato com os portugueses, tinha contato com a civilização. Ele colocou-me na escola. Recordo-me que quando os portugueses saíram de Moçambique, em 75 e 76, um amigo do meu pai pediu que eu viesse com ele pra cá, para Portugal, para vir estudar – por sinal é a pessoa que me deu o nome de Martins.  O meu pai titubeou na altura e não aceitou que eu viesse naquelas condições, naquela incerteza de que se de fato viesse para cá, voltava ou não voltava. Não queria perder o filho e essas coisas todas.
O meu pai, infelizmente faleceu, no mês em que eu vim pra Portugal. Ele faleceu em setembro de 2010 e em outubro, dia 15, eu vim pra aqui. Somos uma família de seis irmãos, três rapazes e três meninas. Eu sou casado e tenho cinco filhos. Eu gosto muito dos meus filhos. Três estão na universidade: uma está agora a escrever a tese, outro está no segundo ano e o terceiro está no primeiro ano. No próximo ano vai entrar a outra e o mais novo ainda é rapazinho.
A minha mãe ainda trabalha em casa. É uma jovem ainda,  aguenta muito. Sempre trabalha na machamba, onde se cultiva – nós chamamos machamba, aqui chamam de campo. Nós chamamos a atenção para ela não fazer muita coisa, mas ela não aceita. Ela nunca foi a escola, mas felizmente, ela tem filhos que foram para escola. O meu pai não estudou muito, ele estudou a bíblia, mas na nossa língua Chitizia. Mas era um homem que tinha visão, porque ele foi criado por um tio que era metodista. O meu tio foi quem criou a metodista em Moçambique. Meu tio era chamado David e foi quem me deu o nome. Eu tenho dois nomes. Um é M, mas também sou chamado de David.
O meu pai era um indivíduo muito inteligente apesar de não ter estudado muito. Era muito inteligente porque era o único indivíduo na zona, que sabia ler, lia um pouco a escrita portuguesa, mas era mais a escrita local, a língua local. Então, ele acompanhava os nossos estudos. Eu me lembro que quando nós tínhamos a tabuada, então, ele ficava a ouvir e se preocupava se nós sabíamos contar, se sabíamos somar, se sabíamos somar e subtrair e multiplicar e essas coisas. As leituras, ele fazia questão de acompanhar. Mas era um indivíduo sem tempo porque andava muito na região. Ele, às vezes, não ficava em casa porque ele tinha que ir a outra localidade, fazer o recenseamento. Também era preciso ir pra administração, reunir-se com o administrador e essas coisas todas. Mas o tempo que se ele tivesse em casa, ele fazia questão de nos reunir ali e saber de tudo, conversava conosco e não apenas acerca da escola, mas sobre a vida. Porque a vida não se faz só com os livros, a vida faz-se com a realidade, com as vivências, com o contato diário com a humanidade local, com as pessoas que estão aí, com o mundo, com aquilo que está a nossa volta. Então, ele nos ensinou muitas histórias da vida. Ele colocou aquela maneira tradicional, aquela maneira com que nós crescemos e fizemos a nossa vida. Fomos entrando em contato com o mundo a partir desse mundo restrito da casa. Eu, pessoalmente, tenho muito apego por isso, porque hoje sou uma referência na zona, naquela região. Quando eu chego lá toda gente quer estar perto de mim, quer estar comigo, conversar e saber o que é a vida e o que são essas coisas todas.
Nós somos uma família tradicional, nós temos práticas de vivências que não tem nada haver com a academia. Nós começamos a viver a academia, quando começamos a estudar, sobretudo, quando saímos para o mundo, fora daquele mundo da casa. Por exemplo, hoje, eu tive férias a bocado, foi em 2011, eu fui para casa e fui fazer a missa tradicional do meu pai, aquela missa dos espíritos, evocação de espíritos. Eu cresci nisso, mas eu não pratico muito porque depois de eu ter estado com o meu pai, fui para a vida moderna. Mas há indivíduos que, até hoje, falam com os mortos. Eu fui agora gravar a voz do espírito do meu pai, agora, nas minhas últimas férias, em 2012.
Quando eu vim em janeiro, eu fui obrigado a trazer o espírito do meu pai e gravar a voz dele. Ele a dar orientações sobre como é que nós devemos viver, como é que nós devemos estar em casa, como é que nós devemos nos relacionar entre nós irmãos, como é que nós devemos cuidar da nossa mãe, como é que nós devemos nos relacionar com o mundo, como é que nós devemos continuar a vida. Ele foi explicando esta vivência, foi transmitindo essa realidade dele, uma realidade obscura, e isso é engraçado. Eu por exemplo, fui obrigado em 2011, quando eu fui de férias a fazer uma missa de sacrifício de animais para evocar os espíritos dos nossos antepassados, do pai do meu pai. Eu fui enviado como o responsável da casa, mais precisamente, porque há pessoas mais velhas que não são os meus irmãos, são os primos etc. Para nós, a família não é aquela do pai, filho, mãe e não sei quantos, não! A família é aquela alargada, os primos, os tios, esses é que fazem parte dessa grande árvore de família. Então, eu fui patenteado como o responsável daquela família, nessa evocação de espíritos.
São sobre esses saberes, que de fato eu estou a ler e interpretar a obra de Mia Couto, um escritor moçambicano. A obra chama-se Terra Sonâmbula. Estas coisas todas estão naquela obra. Quando eu leio estou a ver a nossa realidade. Provadamente, são coisas fantásticas; são coisas com que não se imagina que existem, quando está fora daquele mundo; você não pensa que são verdades. Conta toda a história de Kindzu. Ele procura maneira de acabar com a guerra e tem um pai que morre chamado Teimo. O Teimo morre e a família faz lhe uma casa, uma palhota. O espírito dele é guardado lá. E os filhos à noite dão-lhe alimentos, dão-lhe de comer. Quando chegam de dia, o prato já não tem nada.
Eu fiz isso quando eu era criança. O nosso pai tem o pai dele, o espírito do pai dele numa palhota e até hoje existe essa palhota em minha casa. O pai do me pai que é o meu avô, está numa palhota. Então, nós íamos lá dar comida a noite. A gente tinha medo na altura. Aquilo, assusta! Assusta porque a pessoa morreu, mas ainda está lá. No dia seguinte, aquele prato já não tinha nada e a gente procurava saber o que, quem, come aquelas coisas, aquele alimento; quem é que tira aquele alimento. Não havia pegada nenhuma e tudo mais, no entanto, a coisa não está lá. Na noite a seguir, você tem que deixar de novo, o prato.
São situações como essas, que quando eu leio a obra de Mia Couto, estou a ver as coisas como elas funcionam. Como é que é a realidade natural. Funciona assim e é fantástico. Eu não sei interpretar até hoje, mas eu tenho medo daquelas coisas. Os meus irmãos já são um pouco mais relaxados e sentem um pouco mais a vontade. Mas eu, pessoalmente, tenho muito medo porque depois daquela verdade, eu fui vendo outras coisas diferentes. Vivi a religião. Ando com medo daquelas coisas, mas agora sou o mais velho, sou o responsável da família e tenho que voltar a praticar aquela realidade. Eu compreendo que aquela realidade existe enquanto nós acreditamos nela. Se não acreditamos nela, aí ela não existe.
Eu tenho a minha casa, para além daquela casa que é nossa, eu tenho a minha casa. Eu tenho os meus filhos e saímos daquele mundo e estamos a viver em uma cidade agora. Os meus filhos nunca ouviram falar daquelas coisas, nós temos outra realidade, quer dizer, eu estou a viver em dois mundos diferentes; eu estou a viver num planeta e estou a viver numa estrela. Por isso, na minha casa não entra curandeiro. Na casa onde eu estou com os meus filhos, não entra, nunca entrou. Eu tenho a minha casa e tenho cinco filhos e os meus filhos não são, e nunca foram, vacinados com essas vacinas tradicionais, eles não conhecem aquela realidade. Nós temos uma vacina, que eu nem sei como é que se chama, eles pegam numa lâmina e cortam um bocado e depois criam uns remédios e não sei quanto. Aquilo ali, às vezes é muito…
Meu pai tinha uma vacina que deu a mim, porque nós temos uma cobra lá que se chama cobra manda. É a cobra mais perigosa da nossa terra. Se ela bate uma vez, você morre. Só se ela bater-te duas vezes, se ela bater a segunda vez, você pode ficar moribundo, depois você vai ressuscitar. A cobra bate quando quer te matar e depois foge. Quando acha que você não tem que morrer, volta e bate a segunda vez, e aí, você vai acordar. Então o meu pai tinha essa vacina. O meu pai salvava as pessoas que eram picadas pela cobra venenosa. Depois que te pica, você fica venenoso. Na zona onde haviam pessoas picadas de cobra eram levadas para minha casa, por causa do meu pai. O meu pai tratava a pessoa e tudo ficava bem. Não era preciso ir para o hospital. Então ele me deu essa vacina e eu não posso ficar muito zangado ao ponto de bater em alguém, não posso, porque se eu bato em alguém, ele morre. Eu não posso bater em alguém, se lhe dou uma tacada, tenho que lhe dar a segunda, porque se vai morrer.
Este mundo existe, na verdade, enquanto nós acreditamos que ele existe. Mas há indivíduos que acham que não existe esse mundo. Mas o engraçado é que as pessoas que apregoam a não existência desse mundo, praticam as escondidas. Há indivíduos que são grandes reis e grandes governantes, indivíduos que você nunca imaginou que pudesse praticar uma situação dessas, de magia. É praticamente magia, magia africana. Eles, as praticam. Vão para os sítios mais longínquos e vão consultar lá, o seu curandeiro. Isso existe, é uma realidade. Mas confesso, eu não tenho curandeiro e isso, é verdade. Mas nós praticamos, quando nós vamos a casa dos pais. Somos obrigados a praticar. Se não praticarmos lá, a nossa vida não vai correr bem, não vai correr nada bem.
Na casa da família existe a casa do pai do meu pai. E quem cuida de nós todos é o pai do meu pai, é este indivíduo. Esse é que é o grande Deus Nosso. Se há qualquer coisa, esse indivíduo é que convoca os outros todos. O nome é Lazifandi. E Lazifandi é o nome da minha filha mais velha. Esse nome é o nome da minha tia, da minha avó, da irmã do meu avô. Era a pessoa mais terrível, terrível no sentido de que era a pessoa mais temida pela família. É a pessoa que quando zanga em casa tudo se estraga, estraga-se tudo, toda a gente fica doente, tudo fica desorganizado. Quando este meu avô, segundo contava meu pai, quando este meu avô fica brincalhão, e passa o tempo, quem chamava a atenção é essa tia. Então, este indivíduo chamado Buzonda, que é o meu avô. É a pessoa mais responsável de nós todos, de toda a família, de todo mundo mágico da casa. Então, quando a gente tem problemas de infortúnios, tem baixa produção nos campos, de fome, dizemos à ele, ‘tu estás a nos deixar morrer aqui, o que está a acontecer’. Então, ele fala, ‘mas vocês também nunca me deram um cabrito, nunca me deram galinha’. Sabem que a galinha, na nossa terra, é muito importante para a evocação dos espíritos?
É por isso que na obra de Mia Couto, em Terra Sonâmbula, ele fala de galinha lá. Fala das galinhas, não só daquele ato que era, digamos, como que um esconderijo. Porque aquele garoto é levado pra ali porque suspeitava que ele fosse raptado pelos bandidos e morto, então, ele é transformado em galinha. Colocam-lhe as penas, e depois, ele é colocado num galinheiro. Mas para além daquele ato, quando o Kindzu vai de barco, lá dentro do barco, há uma ave lá, aquela ave é a galinha. Então é aquela ave que dá informações ao Kindzu sobre a vida, sobre o que ele vai encontrar, sobre as dificuldades, sobre como ele deve se salvar e essas coisas. A galinha é muito importante na nossa terra. Não se mata a galinha de qualquer maneira, não é qualquer galinha que se mata. Há galinhas que são preparadas para não serem mortas de qualquer maneira. Só se mata para dar aos espíritos. É como o cabrito, por exemplo, nós evocamos os nossos espíritos a partir da galinha, a partir do cabrito, da cabra, da ovelha; a ovelha é muito importante. Os reis são padronizados pela ovelha, pronto, são patenteados pela ovelha, são coisas da terra.
Mia Couto escreve um livro que tem onze capítulos, onze cadernos, atenção, onze capítulos, onze cadernos. Eu falei daquela vacina, aquela vacina só fazem duas vezes. Escreve assim: um e outro um. O onze. Onze é mítico na nossa terra. O onze é um número mítico. Mas eu estou a falar isto da vida tradicional, da vida básica, não é toda a gente que pratica. Tanto que eu, como disse, vou praticar lá onde eu nasci, mas, em minha casa, não pratico. Na minha casa nós matamos a galinha como se mata qualquer animal. Mas quando nós vamos para o mundo tradicional – não é que lá não se mate galinha, quando você chega mata-se galinha e come-se galinha –  as galinhas são preparadas, exatamente, para esse efeito tradicional. Se a galinha está preparada para esse efeito, se aparece um ladrão e rouba aquela galinha, está mal este ladrão, pode morrer. Então a galinha é importante nisso, porque julgamos que é a coisa que nessa altura foi convencionada para servir de produto de alimentação para oferecer os espíritos.
Eu acredito que hoje há pessoas que fazem, que vivem assim. Nós já não. A nossa mãe não tem força pra nos mandar fazer isso, mas é importante a galinha, exatamente porque é o produto de oferta e sacrifício. É difícil matar um boi porque ele é grande, mas é mais fácil matar a galinha porque é a coisa que se encontra. Agora as coisas começaram a ficar mais caras. O boi é muito caro, o cabrito é muito caro, então a coisa mais acessível, mais fácil de criar, mais fácil de comprar é a galinha, então, usa-se mais a galinha. Então é preciso fazer esses rituais, é preciso utilizar essas tradições que as pessoas melhoram e vivem muito tempo; vivem mais tempo do que nós que apanhamos injeções e medicamentos.
Em Moçambique, por exemplo, está legislado, está decretado, tem uma organização lá de curandeiros que se chama METRAME, médicos tradicionais. Portanto, tem a sigla METRAME e trabalham em paralelo com o hospital. Eles trabalham conjuntamente com o hospital, mas no entanto, quando é uma doença que eles acham que só o hospital é que trata, eles aconselham o doente a ir ao hospital. Mas há coisas que é só eles é que tratam. Eu penso que está a chegar a uma fase, em que de fato se valoriza a vida tradicional, porque se não é útil do ponto de vista do tratamento biológico, pelo menos, é útil do ponto de vista do tratamento psicológico.
O meu objeto de pesquisa, não tem nada haver com essas coisas que eu falei. Eu estou a pensar fazer um livro sobre essas coisas que eu estou aqui a falar. Eu estou a pensar a fazer um livro sobre isto, mas neste momento estou a priorizar a minha tese. Quando eu fui fazer a missa do meu pai, eu gravei muitas coisas que dão pra escrever um livro. Eu gravei a voz dos mortos e gravei a voz dos curandeiros que estiveram lá me casa. A voz de muitas pessoas da família e eu acho que o material que eu tenho gravado dá pra fazer um livro.
Em 1978, o presidente Samora Machel, que foi a pessoa que proclamou a independência de Moçambique, ele achou que era necessário interromper os estudos de muitos jovens, na altura, para começarem a trabalhar, a serem colocados nos setores chaves de desenvolvimento do país. Um dos setores preponderantes foi a educação. Então aqueles que tinham idade, em 1978, foram chamados pra aquilo que nós chamamos hoje de Geração do 8 de março, de 1978. Samora Machel realizou uma grande reunião na capital do país em que chamou muitos jovens. Ele falou da necessidade dos jovens assumirem a direção do país porque era preciso máquina para trabalhar para o país poder avançar. Porque quando nós ficamos independentes em 1975, eram os portugueses que estavam nos setores chaves. Quase todos vieram pra Portugal, alguns foram pra África do Sul e o país ficou sem quadros. Era preciso que país criasse condições pra produzir os seus próprios quadros e aqueles que em 1978, tivesse algum nível pra começar a trabalhar, foram colocados a trabalhar.
Eu entro nesse sistema, nesse processo também, e começo a trabalhar em 1980. Na minha localidade, naquela altura, só eu  que tinha estudado. Muitos não estudaram, eu é que tinha estudado. É claro, ao nível do distrito, porque a localidade é um distrito. Havia outros jovens que também foram chamados – um deles está em Braga e está a fazer o doutoramento. Esteve comigo nessa formação inicial e viemos juntos para fazer o doutoramento. Começamos a organizar os alunos e os professores, a organizar a população porque é numa zona onde a população ainda não estava escolarizada. Então era preciso capacitar as pessoas a compreender a vida moderna, a compreender a razão da independência, a compreender que o moçambicano tem que trabalhar para vencer a pobreza.
Eu quero dizer uma coisa: eu quando estava na quarta classe, em 1975, quando nós entramos pra independência em 1975, eu estava a fazer a quarta classe, eu mesmo a dar aulas na alfabetização e formação de adultos. Portanto, eu saía da escola e antes de ir pra casa, eu passava numa escola que era construída para o povo, para os adultos. Eu começo a dar aulas. Nos chamávamos de educador, alfabetizador de adultos. Eu começo a entrar em contato com o quadro, com o giz, com o aluno, em 1975, como educador de adultos.
Era preciso falar da história de Moçambique. Na altura, era preciso começar a ensinar o A,B,C, ensinar o povo a contar, a falar português. Eu começo exatamente em 1975, como alfabetizador. Depois disso, eu vou para a escola secundária e continuo como alfabetizador. Eu lembro-me que saí da sala de aula, e ia para uma padaria, uma panificadora e ia dar aulas aos trabalhadores da panificadora. Portanto, antes de eu ter formação como professor, ia dar aulas aqueles trabalhadores que faziam pão, faziam bolos. Eles tinham um intervalo de quarenta e cinco minutos e tinham aulas comigo. Eu trabalhei assim e em 1980, quando vou dar aulas na escola formal. Muitos, como eu, foram chamados à Pátria. Nós dizíamos, ‘a Pátria chama por nós’. Havia um reclame que era, ‘a Pátria chama por vós jovens’. Nós tínhamos que ir trabalhar e tínhamos que responder a esse chamamento da Pátria. Era necessário construir, naquela altura, inventar a vida, porque foi um momento de invenção, porque ninguém sabia o que se estava a fazer.
Em 1982, eu começo a dirigir a escola. Fui identificado pelos administradores da educação, a nível mais alto. Identificaram que eu era capaz de orientar os outros e assim eu fui trabalhando nisso. A partir dali, dava aulas e dirigia. Em 83, é quando eu tenho esse prêmio de sair daquela localidade para a cidade, para capital da província de Inhambane. Então, eu vou a esse local pra continuar com os estudos. Eu chego lá e continuo com o trabalho de docência. No mesmo ano de 83, eu entro de férias. Nós tínhamos o ano escolar organizado por semestres e o primeiro semestre começava em fevereiro até o meio. Depois de julho, para o fim, fazíamos os exames. Então, quando eu entro de férias semestrais, saio da cidade e volta pra casa dos meus pais – não é de férias. Quando eu volto, chego lá na cidade, na escola onde eu estava, encontro lá uma carta de transferência. A direção da educação da cidade, tinha me identificado ali, como melhor professor dali daquela zona. Transferiram-me pra trabalhar na direção de educação, para organizar o sistema de educação a nível da cidade.
Eu ali respondo pelas estatísticas educacionais, de planificação da educação, estatísticas ao nível do macro estrutural da cidade, não ao nível da escola. Enquanto isso, eu estava estudando, e em 87, eu termino o secundário.  Minto! Em 86 termino e em 87, sou transferido da cidade para o nível de província, na direção provinciana de educação. Nós temos as coisas organizadas assim: temos a escola, temos o distrito, temos a província, temos a Nação. Eu trabalho na direção provinciana. Faço lá dez anos, como planificador da educação, sobretudo, nessa área da Carta Escolar, e aí, é quando eu faço a formação em Micro Planificação da Educação. Enquanto isso, já tinha feito o secundário. Mas eu tinha que fazer o nível médio, o secundário médio. É quando eu faço a décima primeira e décima segunda classe. Depois desses níveis, eu vou para universidade; dez anos depois.
Vou pra universidade, faço a licenciatura em Maputo, capital do país. Então eu saio da província e vou para a capital do país. É onde eu faço a minha formação superior até o nível de licenciatura. A minha esposa é bióloga e também agora, é diretora de uma escola secundária. Quando eu volto da universidade – porque depois de concluir a universidade, a universidade queria que eu ficasse ali como quadro universitário, mas a província da onde eu tinha saído, não aceitou – quando volto, já fico diretor de uma escola secundária. Uma escola muito grande, escola pré-universitária. Eu dirigi essa escola durante sete anos. Dirijo essa escola e dou aulas e também fui co-fundador de uma universidade católica. Porque é da igreja, agora, é uma universidade pedagógica. Fui co-fundador e fui diretor pedagógico de uma universidade de contabilidade, chama-se Moçambic. Eu fui professor de língua portuguesa e de comunicação na escola superior de hotelaria e turismo de Inhambane. Eu dei aulas pelo menos em três universidades. Fui diretor pedagógico de uma universidade, com aquela complexidade que todos já devem estar a imaginar. Além disso, quando não estamos na província, onde há carência de quadros formados, nós fazemos tudo. Fazemos política, assessoramos ao governo. Assessorei muita coisa lá, eu estava metido em um mundo de trabalho.
Eu trabalhava a sessenta quilômetros da minha casa. Nós estamos numa veia que é o mar que entra na terra. Daquele lado está a capital da província, deste lado está a cidade onde eu vivo. Por isso, eu tinha que fazer uma volta para ir trabalhar lá, todos os dias, durante sete anos. Eu fazia sessenta, mais que  sessenta, eu fazia cento e vinte quilômetros todos os dias. Tudo isso, durante sete anos. Eu saía de manhã e voltava a noite. Durante estes sete anos, eu não vivia a minha cidade, só vinha dormir. Nessa altura, a minha esposa estava a fazer a licenciatura, eu precisava estar com os miúdos, com os filhos. Quando eu chegava ao serviço, eu tinha que coordenar muita coisa.
Às vezes eu era assessor do governo. Significa muita coisa que eu não quero me lembrar. Quando chego à conclusão que a minha vida estava a parar – porque parou a minha vida durante sete anos, sobretudo, a vida acadêmica – eu cheguei a conclusão que não, que eu deveria continuar, porque o meu interesse mesmo era continuar com os estudos. O meu interesse era fazer academia. O meu interesse era que eu fosse o exemplo da família, para as pessoas seguirem o meu caminho. Os meus filhos, todas aquelas pessoas que tem inspiração em mim. Por tudo isso, eu não podia parar. Eu consegui uma porta de entrada para esta universidade.
Para eu vir para Portugal, foi muito difícil, porque eu estava ligado a muitas coisas. Quando eu disse que queria sair do país para cursar o doutorado, houve muita resistência de muitos setores, mas eu justifiquei, ‘olha, quando eu voltar eu vou me conectar de novo’. Mas por causa destas ligações, sobretudo, ligações políticas – eu não vou esconder, sou político; eu sou acadêmico, mas sou político – e porque em 2008, que foi um ano de eleições, eu não consegui sair. Nem 2008 e nem 2009. Se eu tivesse saído durante esses dois anos, não sei se teria ficado bem. Então, eu preferi não sair nestes dois anos e só em 2010, depois do ciclo eleitoral, é que eu vim para cá, mas foi muito difícil.
Agora, eu vim para a Universidade de Aveiro, motivado exatamente pela apetência de fazer a academia. Mas eu confesso quando eu cheguei aqui tive muita dificuldade de integração, de voltar a ser o acadêmico que eu era.
 

 

Foto retirada a pedido do doutorando

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.