Anônimo (AMMAK)

Simples, diria que sou uma pessoa de uma ilha.
Acho que me defino naquilo que é a constante procura do outro lugar do outro ser, não no sentido do isolamento, não enquanto um confinamento, mas enquanto uma abertura permanente ao outro, aos outros e não só aos seres como também os lugares. Ser em ilha, no sentido dessa disponibilidade, é o traço que eu encontro na pessoa que eu tenho construído, mas que está em permanente construção. Sou então uma pessoa natural de uma ilha, com quarenta e nove anos.
Sou mãe. Ser mãe é um grande acontecimento, é o meu melhor percurso de vida. Acho que ser mãe é o que mais completamente me aproxima e deve ser daquelas poucas certezas que eu tenho, porque à medida que nós envelhecemos, obviamente, vamos nós destituindo de certezas e vamos nós encontrando cada vez mais enquanto seres questionantes, vamos traçando curiosamente e só sabemos depois de lá chegar. Se calhar, levamos muitos anos da nossa vida a pensar que estamos a encontrar um chão, quando na realidade é ao contrário, nós estamos cada vez mais a perder chão e isso é fantástico. Essa sensação de que eu estou a perder chão é maravilhosa e esse é um traço da minha identidade \ personalidade que eu vou encontrando de forma mais amena e ocasional.
Sou mulher, mãe, com quarenta e nove anos e profundamente feliz. E essa é uma enunciação da qual eu sou capaz com grande graça, serenidade e de certeza. Sou feliz porque sou mãe, sou feliz por todas as outras rotas que segui na vida, aquelas que foram opcionais, aquelas que também não foram. Nós temos uma identidade civil, no nome, que nos caracteriza, uma data de nascimento e isso é sempre tão fácil de preencher e depois enunciarmos ao dizer eu; indicar objetivos, conteúdos, proporcionar uma semântica a enunciação do eu é realmente muito complexa e fora disso, não sei se eu conseguiria dizer mais.
Eu nasci na Madeira, na cidade do Funchal, em 1963. Vivi praticamente toda a minha vida aqui como morada permanente, embora tenha corrido um bocado do mundo, tenha vivido esporadicamente em outros sítios. No constante da ilha, da origem, creio que também vai se edificando a morte de ser, e de estar, nesse mesmo mundo. Obviamente, que a saída da ilha é uma grande abertura de horizontes, o contraste e vivência da ilha também. Mas regressar ao aconchego, isso lá, não deixa depois de proporcionar espaços e tempo de construção da minha identidade, enquanto o que sou.
A minha mãe casou com o meu pai em segundas núpcias dele, no caso, o meu pai era viúvo, tinha três filhos e teve muita dificuldade em conquistar a minha mãe. A minha mãe era já professora e o meu pai tinha um feito um curso acadêmico, tinha feito o seminário quase por completo e decidiu, a certa altura, que tinha uma vocação superior a vocação clerical. E a sua vocação superior era realmente a de constituir família. Casar-se e ser pai, ele queria muito ser pai, eu vi muitas vezes que, o percurso do seminário tinha sido justamente um modo que ele encontrou de justificar e de ter a certeza de quanto podia ser belo, ser pai. E na realidade foi um pai extraordinário, maravilhoso, educador, um modelador do mundo, uma pessoa muito doce. Estruturou muito, algumas das minhas opções e alguns dos meus gostos, porque eles nem sempre foram conscientes. Por exemplo, o meu pai gostava muito de política, conhecia a conjuntura internacional comum e eu me dei conta muito cedo, na minha vida, que sabia o nome dos primeiros ministros, porque ele me ensinava, reuníamos e líamos em conjunto revistas internacionais. O meu pai falava línguas e a minha mãe também, então líamos em conjunto revistas internacionais sobre política. E isso é um traço que permaneceu, na altura, não era consciente, era apenas um pormenor do gosto do meu pai. Quanto a  espiritualidade, o meu pai não ficou muito ligado a igreja, enquanto instituição, mas era uma pessoa profundamente espiritual. Digamos que o meu pai estrutura muito claramente traços meus, que eu agora reconheço.
Na dimensão da minha formação, com o meu pai, vem a música e vem o amor a natureza. Nós, todo final de semana, desde que estivéssemos aqui na Madeira, íamos para serra fazer piqueniques; o respeito pela natureza, o estar em plena natureza é um traço de personalidade e de identidade do meu pai, que eu guardo. O mar, mais as montanhas, sempre elas, as plantas, as árvores, os eucaliptos… Ficávamos lá, como se fossemos participar de um projeto genoma. Eu passava horas no colo do meu pai, ou sentadinha na escada, ouvindo música, sobretudo, música clássica. O meu pai dedicava horas do dia a ouvir música e estávamos ali diante do vira discos e depois íamos substituindo os discos, durava três horas. Eu ficava ali e gostava imenso das três horas a ouvir música, grandes orquestras. Lembro-me da orquestra de violinos que ouvíamos e todas as orquestras que surgiram na altura.
Quando morreu, tínhamos uma ordem particular para usar o disco e a música dele chamada ‘Canção para Ana’. O meu pai na realidade amava os seus filhos de uma maneira que eu não tenho como contar. Ele era um homem e não conheci mais ninguém como ele, que amasse tão profundamente a sua família e tão profundamente os seus filhos. Ele era, indubitavelmente, uma figura paterna, mas havia muito de maternidade nele. Foi uma pessoa linda. A minha mãe era um anjo na terra. Na realidade era um casal muito apaixonado. Ele tinha mais de dezessete anos do que a minha mãe, por isso demorou muito a conquistá-la. Não só era muito mais velho, como tinha três filhos. E isso, na altura, pesou muito na balança da minha mãe; por não querer substituir a mãe dos meus irmãos que tinha falecido. Não querer sobrepor-se a memória dolorosa para ele. A perspectiva, o amor e a dedicação dele, fizeram com que eles acabassem por se casar. E depois se amaram completamente.
A minha mãe chamava-se Maria Fernanda Cecília e o meu pai João Hemergildo Inácio. A minha mãe era professora, mas também gostava de tocar piano e tocava maravilhosamente. Isso também foi um traço que contribuiu ainda mais para apaixonar o meu pai. Eu tenho três irmãos que estão felizmente todos vivos do primeiro casamento do meu pai e do segundo casamento também somos três, infelizmente só estou eu viva. O primeiro irmão pequenino faleceu com três anos, com aneurisma cerebral e faleceu exatamente dois meses antes do meu pai. Então o meu pai, que não resistiu a morte do filho, adoeceu profundamente. Ele já tinha algumas complicações, mas que não seriam assim tão graves. O desgosto acelerou o processo, portanto, a minha vida é muito marcada por estes dois desaparecimentos muito próximos; eu tinha dezesseis anos quando, quer o meu irmão quer o meu pai, faleceram. Os outros três irmãos não viviam cá na Madeira e a certa altura, ficamos muito sós, minha mãe, eu e o outro irmão meu. Esse meu irmão foi uma pessoa etérea, que veio a este mundo com um corpo, mas que nunca deixou de ser um anjo, era daquelas pessoas a quem hoje em dia dizem que são especiais – porque são com muitas aspas. Ele tinha uma deficiência física profunda e uma deficiência orgânica muito profunda; os seus órgãos não estavam no lugar onde deviam estar. Ele cresceu muito pouco mentalmente, mas o corpo não. Espiritualmente era uma pessoa muito mais desenvolvida do que nós. Foi um ser de luz, que nos acompanhou até os quarenta e sete anos. Desde a data de nascimento tinham previsto um dia de vida, uma semana, um mês, duas semanas, três meses, até completar quarenta e sete anos. Para nós foi um choque profundo o falecimento do nosso irmão e do nosso pai. Quando o meu irmão nasceu com aquela deficiência, a minha mãe já sabia que ele nasceria com alguma deficiência, apesar de na altura, não haver registros magnéticos, ecografias, mas os médicos sabiam, claramente, que a minha mãe ia ter um filho deficiente. Ela já tinha sofrido um aborto, porque teve uma eclampsia, e sabia que este filho, estando muito próximo do outro, teria deficiência. Nessa altura, apesar de ser completamente ilegal, aqui em Portugal, aconselharam os meus pais de que a minha mãe deveria abortar, mas eles optaram por ter o filho. E foi uma decisão fantástica, na altura, era tudo muito difícil, porque haviam outras pessoas com filhos deficientes que nós nunca conhecemos, viviam fechados em casa. A minha mãe sendo professora tinha aquela responsabilidade institucional e pública e tiveram muitas pessoas a aconselhar o aborto, e depois, a não exibir o filho. Uma das imagens mais bonitas que eu guardo do meu pai é ele passear nas ruas do Funchal com o meu irmão pela mão, com tal orgulho, com tal ternura.
É uma das imagens mais lindas que tenho e eu quero levar essa imagem sempre comigo. Era muito bonito, os meus pais nunca fizeram muita diferença na nossa educação, a não ser, alguns cuidados especiais com ele. De resto, nós fomos educados como se não houvesse essa diferença e isso também é um traço que marca bem, os meus pais. Eles foram realmente pessoas muito generosas no amor.
O meu pai era técnico laboratorial de vinhos, especialista em vinho da Madeira, e a minha mãe professora. O meu pai era um anti-salazarista e exprimia, publicamente, o seu anti-salazarismo. Em vésperas de 25 de abril, as coisas complicaram-se um bocado, nos marcou a todos. O meu pai tinha passaporte para fugir pra o Brasil, porque na realidade estava a ser muito pressionado aqui. Curiosamente, dia 24 de abril, o meu tio lá em Lisboa consegue enviar uma mensagem em código para o meu pai, que não viajou dia 25 – estava previsto ele sair da Madeira a seis da manhã, e ele já não viajou. Ele conseguiu decifrar a tal mensagem codificada e foi uma maravilha, ele já não ter saído, porque estávamos todos muito preocupados, claro, porque nunca tínhamos nos separado do nosso pai e isso, pra nós, era assustador. Felizmente o 25 de abril chegou e nós pudemos continuar com a nossa família reunida, mas não por muito tempo, porque na realidade, alguns poucos anos depois, o meu pai viria a falecer.
Entretanto, ficamos os três, isso marcou as decisões na minha vida, porque na realidade eu queria perseguir o curso de direito e na altura, não havia universidade aqui na Madeira, aliás, a não haver o curso de direito cá, embora houvesse sim, a universidade. Então, a certa altura, mudamos pra Lisboa para eu estudar direito, mas foi muito difícil saber que a minha mãe e o meu irmão estavam cá, forçosos, eu até adoeci. Comecei a não corresponder ao curso, fiz uma espécie, vamos colocar entre aspas, um esgotamento nervoso e regressei. E não consegui terminar o curso de direito, fiquei um tempo sem estudar.
Foi então que abriu, aqui na Madeira, uma associação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e eu me inscrevi imediatamente. Fiz a licenciatura pela Universidade de Lisboa, em Línguas e Literaturas modernas, variando francês e inglês, completando o curso superior, porém mais próximo, na ilha. Porque você vai fazer somente aquilo que, emocionalmente, o teu corpo manda.
Conclui a minha licenciatura e fui para o ensino. No ano que eu estava a concluir o meu estágio, conheci o meu marido, ficamos noivos e muito rapidamente casamos. Ele é finlandês e também tem uma filha comigo. Divorciamos dois ou três anos depois, foi um divórcio muito pacífico e muito sereno, na realidade foi muito sereno. Eu não conheço aqueles divórcios em que as pessoas brigam. Eu não tenho nenhuma história dramática do meu divórcio pra contar. Aquilo foi muito doce, eu não tenho a reclamar e continuei e fui sempre, profundamente, ligada a família finlandesa dele. Na realidade, eu estava completamente apaixonada pelos meus sogros e eles também estavam muito apaixonados por mim; a família toda. Continuamos com os mesmos laços, até hoje. Não houve qualquer diferença de estado, na realidade, eu só me divorciei daquela pessoa e não da família.
Depois do divórcio eu fiquei cá com a minha filha  e voltei a viver com a minha mãe e o meu irmão. Alguns anos depois a minha mãe adoece com Alzheimer, e isso é outro acontecimento na minha vida que define a minha rota em direção a maturidade. Eu tive uma decisão muito difícil pra tomar e isso porque a minha mãe não era mãe dos outros meus irmãos mais velhos, nenhum deles vivia aqui e continuam a não viver, ela era madrasta deles, mas eles não tinham uma responsabilidade direta com a minha mãe. Então tomo a decisão, nessa altura, de ficar com a minha mãe e o meu irmão e a minha filha.
A minha família passa a ser uma família completamente diferente de todas as outras, porque é formada por mim, pela minha filha criança, com o meu irmão com aquelas questões de saúde e pela minha mãe com Alzheimer. Esta foi novamente uma família linda, maravilhosa que me proporcionou momentos de amor infinitos. Mas tinha momentos de angústia tenho que admitir. Eu muitas vezes, terminava o meu dia a pedir a Deus que não me levasse antes deles e mais uma vez esse novo acontecimento na minha vida me marca muito as decisões, muitas opções, muitos modos de ser e de estar, diferente daquilo que poderia eventualmente ter sido. Claro, que esta família também vai determinar a pessoa que a minha filha é, ela não teve “aquela família” entre aspas, tradicional \ normal. A família dela na realidade era a mãe, a avó e o tio e o tio com estas especificidades e avó com aquela doença que a negligenciava. Assistir ao processo de ausência da minha mãe foi, simultaneamente, muito doloroso e muito gratificante para a edificação da minha personalidade; constrói este paradoxo.
Eu sou cada vez menos, eu tenho cada vez menos certezas, eu tenho cada vez menos chão, e é uma libertação. Isto tudo é muito fragmentado, claro, mas eu sou parte destes fragmentos e a certa altura, eu hei de edificar com essa série de fragmentos. Com uns dez anos eu perdi a minha avó materna, esse foi o primeiro confronto com a morte, e ela era uma espécie de mãe também, uma pessoa maravilhosa e dedicada aos outros e com ela também viajei muito. Eu começo a viajar ainda na barriga da mãe e pelo mundo afora.
Esta perda da minha avó foi reencontrada, porque eu encontrei uma avó com a bisavó da minha filha, a mãe da minha sogra. Olha, tu perdeste a sua avó aos dez anos, mas agora tu vais ganhar uma avó aos vinte e seis. Foi o ano em que eu casei e ganhei essa avó e foi de imediato, uma tal empatia, que era mesmo como se já nos conhecêssemos de muito. Eu muitas vezes nela encontrei a minha avó. Curiosamente, no meu sogro reencontrei muitos traços de personalidade do meu pai e foi como se de repente houvesse assim uma bênção divina a dizer, tu perdeste o teu pai, mas agora está aqui outro.
Perdi a minha mãe a dois anos. E a minha sogra estava a me servir de mãe. E era uma mãe que eu nunca, talvez, tivesse escolhido e pensado, mas ela foi muito mais. E a minha sogra faleceu há pouco tempo, tem um pouco mais de um mês. Eu pela primeira vez na vida, eu sinto uma grande orfandade. Eu tenho ainda o meu sogro com quem eu continuo a desenvolver os laços familiares, porque o meu sogro é também um pai, mas ele é mais retraído do que o meu pai, embora, seja muito carinhoso também comigo. Mas tenho que admitir que o amor pela minha sogra instituíu o estado de orfandade a mim, que eu ainda estou a tentar perceber. Mas é muito doloroso e simultaneamente, eu sinto muita gratidão por ter ao longo da vida, sido aconchegada, por tantas figuras espetaculares, carinhosas, que tenham dado tanto amor pra mim.
Eu nasci e cresci rodeada por livros. Às vezes, quando tenho a oportunidade de receber alguém desconhecido, relativamente, ao meu mundo, chegam na minha casa e dizem: ‘mas afinal o que que tu fazes na vida?’ Eu continuo a ter muitas estantes cheias de livros, mesas cheias de livros, eu vou pondo livros dentro de qualquer sítio e devo muito a influência em mim, do meu pai; o meu pai lia imenso. A minha mãe como professora, é claro que os livros eram tão importantes pra nós, como estar na mesa, era esse o grau de importância. Discutirmos os livros que líamos, quer livros, digamos daquela linha da literatura tradicional, poetas e grandes políticos do estado como Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, o Pessoa, para citarmos apenas os portugueses, sobretudo, literatura sobre política, sobre natureza. Nós tínhamos tudo quanto se publicava sobre o mundo, livros ilustrados, o mundo marinho, plantas exóticas. O meu pai tinha um orgulho tal de investir naqueles livros, na altura não havia internet. O meu pai derretia-se em emoção a trazer um livro novo pra casa. E a emoção do livro é também uma memória dos meus pais que eu guardo. Eu creio que a minha geração é fã do livro ainda. A internet é a geração da minha filha. Devo dizer que a televisão, as emissões televisivas chegaram aqui a Madeira quando eu era criança, portanto, não é um dado adquirido desde o início da minha vida. Quando nós viajávamos, claro, sabíamos o que era a televisão, mas ter um aparelho de televisão em casa foi algo que só aconteceu, eu já era criança. O acesso ao mundo mediado por essa forma eu já perdi, portanto, eu sou a geração pura do livro. E nós recebíamos muitas revistas especializadas, de maneira que a cultura, o tanto mais saber para cada vez mais se relativizar, faz parte da minha vida.
Eu na verdade fiz a licenciatura completamente deslumbrada, nas letras. Porque foi engraçado, eu vim encontrar durante a licenciatura, obras que eu já tinha lido, mas sobre as quais não tinha refletido de forma científica e epistemológica; fazer e ter um pensamento reflexivo sobre a literatura foi algo que me fascinou por completo. Ao fim da minha licenciatura eu tenho o convite pra fazer o mestrado, na altura, eu fiquei extremamente sensibilizada, mas depois declinei, porque eu queria ser mãe, eu queria constituir família, queria ter filhos e foi essa opção. Não foi digamos assim muito bem compreendida pela pessoa que tinha feito esse convite, que muitos anos depois me reencontra, e diz: ‘foi absolutamente imperdoável a sua opção’. Mas na realidade, eu queria muito, eu tinha nascido em uma família tão bonita. Eu acho que foi natural eu querer constituir família e queria muito ser mãe e, se calhar, transportar aquela experiência que eu via na minha mãe.
A licenciatura em línguas, literaturas e culturas foram quatro anos, e depois se seguiram dois anos de especialização em didática e pedagogia. Então só ao fim de seis anos que estávamos licenciados e eu muito naturalmente fui fazer o meu estágio e fiquei professora do ensino secundário.
A certa altura a minha filha era pequenina quando me divorciei, a minha mãe ainda estava saudável e o que eu mais gostava de fazer na vida era de estudar. Então achei que tinha uma base sustentável para continuar e concorri à Universidade da Madeira como suplente em francês e passei. No ano seguinte eu já estava a fazer, já estava a preparar as minhas provas de ação, científicas e acadêmicas. Por circunstâncias várias, anos depois, eu saio da universidade e volto ao secundário; isto tem haver com a procura de uma estabilidade financeira e de uma estabilidade também profissional, que na altura, a universidade da Madeira não podia proporcionar. Na medida em que eu tinha uma responsabilidade familiar muito grande, fiz esta opção, eu não me arrependo foi positiva. Entretanto, surge um conselho para desenvolver um projeto inovador aqui na Madeira, resultante de um estudo completamente pessoal, sem ligação aos meios acadêmicos que eu tinha feito. Integro os quadros da Secretaria Regional de Educação, no sentido, de desenvolver esse projeto que funcionava com a aprendizagem direcionada para as línguas estrangeiras. Anos depois, eu também entro para Secretaria de Educação em 2002.
Em 2005, que concorro ao mestrado em educação e inovação pedagógica. A minha tese aí já começa a direcionar-se naquilo que caracterizava o doutoramento, portanto, eu comecei a refletir na minha tese de mestrado sobre as implicações da decisão transnacional nas comunidades locais, ou seja, de que modo uma região “pode ou não escapar”, digamos assim, aquilo que são imposições da decisão europeia. Que não tem ou não consegue ter preocupações regionais. Digamos que começo aí a refletir sobre processos de mesmificação, as tantas clonagens culturais – não é uma designação completamente inovadora, ela fundamenta-se numa expressão de Baudrillard, que não a comunica, exatamente no contexto transnacional -, mas que eu construo uma semântica nova de interpretação da decisão transnacional, sobretudo, no domínio da educação.
A minha tese de mestrado foi feita numa altura ainda de deslumbramento com a Europa. Só mais tarde é que direciono, rigorosamente, para este domínio as minhas preocupações, as minhas críticas no doutoramento. A Europa no sentido aqui eu vou voltar, que eu sempre falo de Europa no sentido da União Europeia, da institucionalização destes países. A certa altura, há um claro deslumbramento, porque e a visão de Portugal também mostra isso, há os fundos regionais. Porque a Madeira, a ilha de onde eu sou natural, aderiu tanto que recenciou, para aquilo que se chamam os fundos estruturais.
O dinheiro europeu provocou uma onda de adesão imediata a essa utopia, que não era só uma utopia no sentido político de assegurar a paz no continente. A Europa foi marcada por guerras de conquista de espaço, conquista de poder que era também territorial, a história da Europa é feita disso. Dois marcos na história da Europa são a primeira e a segunda guerras. A segunda guerra, da qual resulta claramente a vontade de pacificação e de união, gera essa instituição que é a União Europeia. Mas por trás a história da Europa, o que temos é uma história de permanentes conflitos territoriais, políticas, de sobreposição e demarcação de poder e religioso também. A história da Europa constrói-se nessa constante dialética conflitual que não é só a primeira e a segunda guerra mundial – estas foram grandes guerras que se alastram, digamos assim, nos outros continentes, nomeadamente, ao continente americano. Os Estados Unidos tem um papel definidor, digamos assim, na segunda guerra mundial, mas não é o primeiro grande evento conflitual na Europa. Portanto, essa procura a construção de uma Europa institucionalizada, onde há uma grande adesão dos povos, pouco e pouco, acrescentando em número, os países que compõem o mosaico da União Europeia. Mas não deixa de ser, simultaneamente, um deslumbramento financeiro.
Para voltar ao contexto da minha primeira reflexão acadêmica sobre a instituição Europa, no mestrado, o estabelecimento de um discurso crítico, na altura, foi muito mal definido. Muito mal recebido por todos os pares que eu procurei no sentido de darem contributos, quer mais científicos ou mais políticos ou mais ideológicos em face de meu ensejo de refletir sobre a Europa, enquanto instituição transnacional ou supranacional. E eu dei-me conta, na altura, que realmente mesmo do ponto de vista acadêmico, realmente, a crise mundial veio recolocar completamente os discursos, quer acadêmico, quer político, e quando digo político, congrego aqui uma dimensão ideológica, uma dimensão também econômica, financeira etc. De repente o meu questionamento inicial passou a encontrar um fundamento, mas isso também complexificou muito a minha pesquisa para o doutoramento, ou seja, desde o início da definição do meu projeto até a maturação do projeto, o mundo a volta mudou de tal maneira. Portugal, neste momento, não é uma nação soberana, no sentido em que a soberania estava definida, apesar de todas as perdas no tratado de Lisboa. Além disso, temos a agenda 2020 que já projeta a União Europeia pra 2020, que coloca tudo em questão. Neste momento, o edifício não é rigorosamente o mesmo, embora eu continue a ter como meta, a análise o Tratado de Lisboa.
Os discursos sobre a União Europeia, os atores que estão implicados na construção permanente deste instituto, mudaram radicalmente. E essa é uma interpelação que eu sofro, não só, a complexificar aquilo que era o meu próprio projeto, mas também a constantemente recolocá-lo no contexto, que é tão fugidio como o tempo.
Wlad Lima e Anônimo (AMMAK) em entrevista numa das Ilhas de Portugal (registro fotográfico retirado)

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.