Maria Dulce Tavares Martinho

Eu não consigo dizer quem é Dulce Martinho sem passar pela profissão. Ser professora de fato é já um traço da minha personalidade; a minha vida passa muito por aí; a minha personalidade e identidade passa muito por ai, portanto, esse é o primeiro traço identificador.
Eu sou professora desde os 19 anos. Agora tenho 51, eu comecei a ser professora um pouco novinha, o que foi estranho, mas a altura que isso aconteceu, era muito invulgar. A seguir o 25 de abril em Portugal deu-se o processo de massificação do ensino, mais crianças iam à escola e havia falta de professores, ao contrario do que aquilo que acontece hoje.  Portanto, eu mal tendo iniciado os estudos universitários, depois de ter feito o primeiro ano do meu curso decidi começar a trabalhar, porque nasci numa família muito numerosa. Eu tenho seis (6) irmãos, comigo sete (7), e na altura éramos oito (8), o mais novinho faleceu, com um problema de saúde grave. Eu tenho a minha vida pessoal, tenho família, não tenho marido, não tenho filhos, tenho uma família muito grande com muitos irmãos, muitos sobrinhos, com pai e mãe.
A minha licenciatura de base é inglês e literaturas modernas, português e francês. Comecei como professora de francês. Obviamente sou mulher, está em mim, está inclusive no trabalho que estou a fazer. Sou uma pessoa simples, que gosto desde muito cedo de coisas simples, e vivi desde muito cedo uma vida cheia profissionalmente, mas muito simples, portanto comecei a trabalhar, continuei os estudos, levei a licenciatura até o fim. Por um lado a minha relação com os alunos, os miúdos, como eu digo, por outro lado muito família, aquele clã, uma coisa muito grande, pessoas, então aquilo que eu sou, passa muito por isso, meus estudos, meu lado de estudar e a família, e as duas coisas convergem.
Passei por uma série de vicissitudes, depois comecei a sentir que faltava qualquer coisa, então decidi de voltar a estudar, mas voltar a estudar de forma sistemática, porque de fato, nunca deixei de estudar, fiz muitos cursos de línguas. Depois de me estabilizar na minha carreira, estudar aquilo que me apetecia, ler aquilo que me apetecia, pensei, ‘não preciso de alguma coisa que me obrigue a sistematizar mais as coisas’. Então fui fazer outra licenciatura, em comunicação social, não que eu quisesse ser jornalista, mas achei que tinha que me atualizar rapidamente, porque tinha a sensação que aquelas coisas que aprendi na faculdade, os linguistas que eu já tinha estudado, por exemplo, estavam desatualizados. Ao chegar lá, as pessoas perguntavam-me, ‘porque está aqui’. Porque me apetece fazer coisas, e muita gente me perguntava. ‘então porque não vai antes fazer o mestrado?’ Em Aveiro, entrei no mestrado de estudos franceses.
Os meus pais ainda estão vivos, tem mais de 80 anos os dois, meu pai foi professor a vida toda e minha mãe nunca teve profissão, cuidou dos filhos. Nasci numa aldeia que fica entre o litoral e o interior, portanto já tem características de interior e características de litoral. Família grande, desde muito cedo fomos incentivados a estudar, a gostar de aprender. Minha pré-primaria foi andar lá na aldeia, era brincar na rua, era brincar em casa, portanto, foi uma infância muito feliz, com a vida preenchida não só com as brincadeiras com os irmãos, mas também com um sentido muito próximo da aldeia, das pessoas, que é uma vida com muitas revelações. Na aldeia as pessoas são todas tios e tias, e embora meus pais não sejam agricultores – meu pai era professor, mas era filho de agricultor – a verdade é que essa visão do campo era sempre muito próxima, e a verdade é que já não moro lá, tenho a minha própria casa 2 ou 3 km, mas continuo a pensar ainda naquela casa da infância como minha casa.
Há muitos professores na família, as raparigas curiosamente são todas professoras dos diferentes graus de ensino, embora a mais nova seja engenheira agrônoma, portanto, está ligada a agricultura e a agronomia, mas depois acabou por fazer outro curso e agora já é professora. Os homens são mais ligados aos serviços, um trabalha nos serviços secretários nas finanças, o outro trabalha numa empresa de telecomunicações, o outro trabalha lá nos serviços municipalizados, portanto, lá na câmara municipal. As mulheres tão mais ligadas a educação, os rapazes parecem ter outros comportamentos.
Meu pai teve uma longa carreira de professor, começou a ser professor do ensino primário, portanto dos meninos pequeninos, mas foi sempre um homem muito a vontade por formar, fez varios cursos também. Estudou francês, o que a 50 anos atrás, não era uma coisa muito vulgar. Depois começou uma licenciatura em historia, depois interrompeu. Foi um homem sempre ligado a educação, aquela formação clássica antiga, como nós dizemos de base, muito assente nas humanidades, nas línguas clássicas, na literatura, essas coisas de que eu também gosto. Aliás há quem diga que eu sou parecida com meu pai, quer fisicamente, quer na maneira de ser, nos gostos, etc.
Desde muito novinhos que somos incentivados a ler, a querer saber. Alias, eu me lembro sempre que as primeiras palavras de francês, que eu aprendi, foram com meu pai à mesa, porque meu pai estudava francês. A minha mãe que só tem o ensino primário, há expressões em francês que ela percebe. Eu me lembro de ser miúda e não gostava muito das coisas sobre os fenômenos da natureza e agora eu gosto, mas na altura… Essas coisas de, porque que chove? porque que troveja? Eu dizia: ‘ah pai não quero saber, não me interessa’ e ele dizia ‘não pode ser, isto é falta de curiosidade científica, é importante querer saber estas coisas, porque a natureza explica tudo, percebermos o que está a correr, como é que a vida funciona.
Às vezes, fico apavorada porque estou a fazer um trabalho que tento cruzar literatura e filosofia, mas há muitas vezes que eu estou a estudar, eu estou a ler e digo’ tu não percebes nada disso tu tens que ir pra um curso de filosofia’, porque me irrita muito não saber, eu detesto não perceber alguma coisa e muitas vezes não percebo, e às vezes, acho que sinto falta de sustentação, juro às vezes me apeteceria fechar tudo, começar de baixo e me inscrever numa licenciatura de filosofia e estudar…
Eu estou numa fase do doutoramento que eu precisava de tempo, mas não posso porque tenho que trabalhar, eu vivo do meu trabalho. Eu sempre fui, aqui em Portugal, o que se chama estudante-trabalhador, sempre trabalhei e estudei ao mesmo tempo. Enfim, gostava de ter tempo pra me dedicar de fato ao doutoramento. Mas meu principal orgulho é pensar que 10 anos atrás eu não sabia 90% destas coisas, isso é o mais fascinante. Aliás, a minha medida hoje é  ir a uma livraria boa e olhar pra aqueles autores e pensar que muitos deles me são familiares. Eu sei que aquele autor é da sociologia, da psicologia, da filosofia, escreveu isto e escreveu aquilo. Há 20 anos, se eu entrasse na mesma livraria, os autores todos eram pra mim desconhecidos.
O mais fascinante de estudar, de andar na universidade, continuar a estudar, é isso, é nós aprendermos coisas e cruzarmos coisas, estar a ler um livro e encontrar uma referencia e pensar. Os meus livros tão todos cheios de sinais e de anotações. De repente se cruza tudo, um autor responde com o outro, e é isso o que eu acho fascinante.
Wlad Lima e Dulce Martinho em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Dulce Martinho em entrevista na cidade de Aveiro.

2 comentários em “Maria Dulce Tavares Martinho”

  1. Foi estimulante, hoje, ao fim da tarde, rever a Dulce Martinho!
    Fomos colegas, mais ou menos intensamente, mas sempre próximos ou até colaborando com outros colegas em projectos comuns.
    Como sou professor, também, e no mesmo Agrupamento, pese embora esteja dedicado a outros trabalhos temporariamente, e talvez porque sou de Filosofia, mantínhamos uma bastante forte troca de opiniões em que o saber, cada vez mais transversal da Dulce sobressaía em diversas abordagens.
    Além do mais, somos também amigos daqueles que podem estar tempos sem se verem mas, no fundo, estão ligados e de vez em quando, ocasionalmente encontram-se.
    O seu Doutoramento está a ocupar-lhe boa parte do seu tempo, como não podia deixar de ser, mas é incapaz de deixar uma “dobra” no conhecimento… tudo tem que ficar “explicado”, “desdobrado” no seu entendimento, mesmo que para isso seja necessário explorar algumas áreas laterais às suas formações académicas de base, ou posteriores.
    Não posso esquecer que me honrou com o pedido de apresentação pública do livro da sua Tese de Mestrado, tarefa que, não sendo fácil, mesmo assim me encheu do orgulho por me “permitir” entrar em conhecimentos complementares de alguma complexidade e profundidade, ou não estivéssemos a falar de Eduardo Lourenço…
    É, no entanto, uma pessoa simples… encantadoramente simples e calorosa, muito afável e respeitadora irrepreensível do Outro nas suas várias manifestações!
    Só vou revelar um segredo, por vezes demasiadamente bem guardado: cozinha divinamente!
    Que a tese de doutoramento não consuma todos os tempos!

  2. Professora Dulce, muito obrigada por tudo o que me ensinou em “Técnicas de Tradução de Francês”, na Escola C+S de Oliveira de Frades, ainda hoje, passados tantos anos, 24 ou 25, me lembro das suas palavras amigas e suas dicas. Muito obrigada! Beijinhos

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.