Anônimo (ACVR)

Muitas vezes nós dependemos do olhar externo, do olhar do outro para nos conhecermos. Mas no fundo quem se conhece melhor, somos nós próprios. Porém, são os outros que nos julgam.
Eu acho que sou uma rapariga comum, mas cheia de sonhos. Eu fui assim desde criança, como sou filha única. Eu acho que esse traço social e familiar marcou muito a minha personalidade. Porque, no fundo eu não sou uma filha única! Eu sempre chateei os meus pais em relação a isso, eu queria e pedia irmãos. Porque eu não me conseguia imaginar como uma pessoa só no mundo. Gosto muito de ser uma pessoa em comunidade e é um dado muito próximo da minha intimidade. Eu dou sempre muita importância aos meus amigos, aos meus familiares; eu gosto muito de me sentir integrada e fazer tudo o que for preciso para me expressar melhor, portanto, poder ser eu.
Partindo destes pressupostos e dadas essas circunstâncias de ser uma filha única, tive de me reconstruir, com base nesse pressuposto de ser uma filha única. Vivi muito tempo também com os meus amigos, com todas as atividades, com as brincadeiras, as saídas etc. Mas vivi muito também em comunhão só comigo, tive de lidar com isso. Eu acho que é isso eu sou uma rapariga, simples, cheia de sonhos. Fiz com que o centro desses sonhos fosse estar a fazer um doutoramento e seguir a via acadêmica, com tudo que isso possa me dizer, mas, não acadêmica no sentido da rigidez acadêmica,  de perseguir, de ter uma ambição de carreira e de chegar a determinados sítios ou querer determinados sítios, não.
Eu estou na via acadêmica mais por uma curiosidade que sempre me perseguiu desde pequena. Sempre gostei muito de conviver com os livros, de ir sempre as feiras do livro e até, em um momento alto da minha infância, sair com o meu pai e chegar à casa cheia de livros. Lia livros com textos mesmo, não eram somente aqueles livros que se desenhava. Lia muito, lia muito, lia muito. E isso fez e faz de mim, um bocado, uma pessoa idealista, como eu estava a dizer, onírica.
Muitas vezes tenho altas esperanças sobre as coisas, sobre a realidade; porque essa realidade, às vezes, é uma construção livresca, é uma construção dos livros, é um mundo quase da fantasia, dos príncipes e das princesas, da bondade extrema, das pessoas serem todas muito amigas umas das outras e às vezes, vamos desiludindo. Mas não posso dizer que sou uma pessoa pessimista e desiludida; eu consigo sempre surpreender-me e acho que isso é importante, é uma característica em mim, a procura constante de ser surpreendida, inclusiva, por mim mesma, me superar e também conseguir superar as expectativas dos outros em relação a mim. Portanto, acho também sou uma pessoa dada, apesar desta questão de ser filha única. Criou em mim uma série de barreiras e de muros que eu gostava de não ter e que ao longo da vida estou a tentar combatê-los e quebrá-los.
Apesar de ser uma pessoa muito dada e de gostar de estar com toda a gente, eu acho que sou uma pessoa um pouco reservada. Mais reservada do que aquilo que eu sou na intimidade, na verdade. Mas depois socialmente, acabo por ter aquele limite, que eu às vezes não consigo ultrapassar. Gostava de ser mais expansiva, no sentido de conseguir estar mais a vontade com os outros, mas há qualquer coisa em mim que vem de anos, de uma construção de anos em que, muitas vezes, tive que estar sozinha em determinados momentos em que gostava de não ter estado e que tive que construir um mundo só meu. Não sei, muitas vezes, priorizar esse mundo e não partilhar e não deixar que os outros entrem nesse mundo, por medo, de sei lá o que. Talvez que minhas referências, enquanto pessoa, possam se quebrar e partir.
Estou me sentido perdida e é por isso, que nessa fase da minha vida, estou a tentar combater esse lado que é mais reservado e que, às vezes, me faz me sentir um pouco perdida, precisamente, porque quero saber da verdadeira Ana. Que penso ser uma Ana muito mais dada, muito mais expansiva, mais comunicativa, mas que é uma pessoa que já está habituada a estar sozinha e tem de saber lidar com esta situação. A educação tem uma marca imensa nas pessoas e eu tive pais que sempre me protegeram, de certo. Eu, até aos meus vinte anos, não podia sair com os meus amigos, portanto, a minha vida era escola e casa, exceto por uma amiga minha, que era muito importante para mim, que era vizinha e que nós brincávamos, lado a lado. As outras amizades eram construídas no tempo do recreio, no intervalo e isso faz com que as pessoas só pensem no lado mais profissional. E o que é profissional para criança é a escola, se calhar, não conseguia construir ou expressar essas relações, sem ser em um ambiente que eu conhecesse, que era esse da escola. Eu sinto mesmo que estou a construir, ou melhor, estou a procurar mostrar as pessoas quem realmente sou.
Eu nasci aqui em Lisboa. A formação do meu pai foi em Letras, em Estudos Portugueses e a minha também. A minha mãe embora não seja licenciada, não ter nenhuma graduação, só tem até o décimo primeiro ano, é uma pessoa que também gosta muito de letras. Portanto, as letras sempre tiveram presentes na nossa família. Sempre tivemos uma grande biblioteca. O meu pai gosta muito de história, nos nossos almoços eram o meu pai a falar de fatos históricos e a minha mãe sempre acompanhando, porque também é uma pessoa muito curiosa, ambos. Portanto, era um ambiente familiar muito bom, muito comunicativo, porque eles eram, os dois, muito faladores. O que não fez de mim, ser uma pessoa faladora, porque eu sempre tive a vida toda a ouvir. Coitada. Em vez de falar, não precisava não é, eu ouvia. Mas, era um ambiente de cultura, de curiosidade e também de grandes princípios. Meu pai era um pouco, e ainda é, moralista. Portanto, eu tinha sempre essa coisa mesmo de ser uma pessoa muito marcada pela questão do não poder, mas eu sempre fui rebelde. Eu fui uma miúda muito rebelde. Com os meus cinco anos fiz as malas para sair de casa, porque o meu pai não me deixou a ir uma festa de anos. Vê-se que eu já despontava. Minha casa foi sempre um ambiente familiar muito bom, exceto a questão da liberdade, que eu não tinha.
A minha mãe trabalhava fora de casa. Era técnica profissional de empresas, ela trabalhava no Instituto de Emprego e Formação Profissional. Era funcionária pública administrativa. O meu pai foi bibliotecário durante muito tempo. Ele foi estudante trabalhador, e tenho uma grande admiração por ele, porque ele é uma pessoa que partiu da extrema pobreza e conseguiu mudar completamente de expressão e ele teve que construir sozinho e se educar sozinho. Ele morava em uma aldeia lá no Norte e ia recolher os miúdos, os amigos, para irem para escola, porque havia uma dada altura depois da quarta classe, que só havia um curso profissional e ele ia chamar os miúdos e ia convencer eles e dava-lhes doces e não sei o que, para estudarem, Ele fazia isso porque ele queria estudar, então era preciso haver um quórum, um número suficiente de alunos para as aulas continuarem, e ele andava a obrigar os amigos a irem a escola porque ele queria estudar. Portanto, essa formação dele foi sempre resultado do esforço dele. Ele foi o único na família que estudou, portanto, dava muito valor a questão da educação. Para mim, essa questão da educação, da formação é fundamental, penso como ele. Meus pais não tinham muitas condições econômicas e acharam que mais valia dar uma educação generosa, como se costuma dizer aqui, uma educação generosa, ao invés de ter dois filhos e ter uma educação com menos condições. Então, preferiram que eu tivesse todas as condições. Mas eu, ao invés de eu ter mais livros e mais condições, queria ter tido um irmão. Eu dizia isso para eles!
Por acaso não tinham esse lado de seguridade na escola; às vezes, eu tirava más notas, outras, tirava ótimas notas. Mas nunca me castigaram, nunca teve um castigo para me obrigar a ter boas notas. Não me bateram porque eu fiquei com uma má nota. Era uma questão natural. Achavam que eu tinha sempre ter boas notas, mas não me obrigavam a isso. Não foram severos, neste aspecto. Deixaram alguma liberdade de brincar e eu estudava com naturalidade. Não fugia aos deveres da escola. Porém, extra escola, eu não podia fazer nada. Eu não podia sair de casa, nem pra comprar um pão! Eu era superprotegida mesmo e isso causou problemas na minha personalidade. Problemas, que ainda hoje tenho. Eu concordo com a psicanálise do Freud: a infância constrói a pessoa, completamente. Portanto, eu não podia fazer, absolutamente, nada, em ir ao cinema, nem ir tomar café, nem nada com os meus amigos. O que eu tinha, eram outras atividades extras, mas dentro da escola, como grupo de teatro, balé, desportos. Eu aproveitava todos os cursos paralelos que existia; eu ia. A minha mãe era religiosa, mas não ia com regularidade a igreja. Tive uma educação laica. Eu segui Humanidades e depois fui para Estudos Portugueses.
Eu tirei a licenciatura em Braga, pois vivi dez anos em Braga, com a família é claro! O meu pai não gostou de Lisboa. Então sempre quis mudar pra o Norte, onde ele nasceu; ele é de lá. Portanto, ele sempre teve esse sonho, sempre ele fez tentativas de nos mudarmos para lá. Quando foi a altura de eu entrar na universidade, aproveitou e convenceu-me. Achou que era bom ,e eu já conhecia. Nós fazíamos sempre férias juntos, com os primos e colegas. Felizmente tive primos e não foi uma infância infeliz.
Fiz quatro anos de curso. O último ano era para dar aulas, era a parte curricular, era estágio e havia um ordenado. Aí sim, foi a primeira vez que eu saí de casa! E foi bom, apesar de ser duro, porque a experiência de estágio, na altura, foi muito dura. Porque eu nunca tinha trabalhado na vida e deram-me turmas de miúdos. Foi mesmo um impacto grande. Foram o sétimo, o oitavo e o décimo anos. E depois, foi o preparatório e o secundário, também. Foi um choque grande, mas eu gostei. Bom, as turmas também eram indisciplinadas; nós temos cá esse problema, é muita indisciplina. Eu era uma miúda completamente despreparada. Ficamos dez anos naquela região, porque tive a oportunidade de trabalhar lá na universidade, a dar aulas de português para estrangeiros. Convidaram-me lá, na Universidade do Minho, e depois fui ficando. Mas eu sempre tive o sonho de voltar cá para Lisboa, porque eu gosto muito de Lisboa. Tanto que em 2010, disse, ‘acabou, por melhor que seja o trabalho aqui, está na hora de ir embora.
Nesse período de Braga, volto a estudar, faço o mestrado. Vou estudar Literatura Portuguesa Contemporânea. É o que eu gosto, eu sempre fui para os estudos portugueses por causa da literatura, mais do que a vertente da língua ou do ensino. Eu gosto de ensinar, mas o que eu gosto, sobretudo, é de estudar a literatura. Então eu fui fazer o mestrado. Inicialmente, eu tentei fazer biblioteconomia. Mas não foi para copiar o meu pai, mas porque, eu respiro aquilo; fazia parte de mim da minha educação; tenho paixão. Mas, percebi que não ia gostar de trabalhar em bibliotecas. Então, fui fazer um mestrado sobre literatura, que é a área que eu mais gosto. Foram cinco anos da licenciatura, depois são mais um ano em que eu tive a fazer estas aulas de formação em biblioteconomia que depois desisti e depois tive mais dois anos para fazer o mestrado. Entretanto, fui trabalhando, fui ficando, fui sempre tentando e buscando estabilidade para ficar a viver em Braga, mas não consegui. Lisboa me chamou, foi mais forte, foi o encanto da sereia.
Eu digo que a terra chama as pessoas, que há um chamamento. Então vim, mas não sei o que me chamou para Lisboa. Penso que ela faz parte de mim. Os meus pais não vieram, ficaram lá, e isso é importante! Por mais que eu goste deles, era importante, quando sai de lá, eu deixar de viver com eles. Precisava ter uma vida autônoma e independente, porque eu sempre fui muito dependente desde pequena. Não tinha sentido eu continuar a viver com os meus pais. Não era normal pra mim. Como eu vim para cá para trabalhar, dar aulas como professora substituta e depois houve um convite para eu trabalhar aqui na faculdade, na área em que estou a fazer agora o doutoramento, fui ficando aqui. E eu já tinha aqui o meu namorado e achei que era a hora de ficar. Hoje ele é o meu marido. Começamos a namorar no primeiro dia em que nos vimos. Estamos a viver juntos, quase desde o início.
 
Wlad Lima e Anônimo (ACVR) em entrevista na cidade de Lisboa.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.