Pedro Rui Rodrigues Carvalho de Jesus

Eu diria que sou uma pessoa muito ambivalente, ou seja, ao longo do meu perfil, tive várias facetas da minha vida. Quer dizer que até os meus trinta e dois anos fui profissional de futebol. Ao longo do meu percurso, desde meus dezesseis anos, eu fui criando a minha independência econômica relativamente aos meus pais, portanto, vivi do futebol.
A minha mãe tinha bacharelado de assistente social, o meu pai também tinha bacharelado, portanto, fizeram o percurso de vida profissional universitário. O meu pai tinha sempre na sua casa uma biblioteca. Eu ao longo do meu percurso profissional do futebol, fui lendo cultura, fui gostando de ver autores, como Almeida Garret e outros mais. Tudo em um circuito de estudos muito precário, porque tinha uma vida muito intensa nos meus treinos e isso não me permitia muito ir a aulas e tive graves dificuldades sempre ao longo da minha escolaridade. O meu pai tinha um culto também pela música. Ele tocava bandolim e violino. Um dos cultos que eu aprendi foi ouvir música clássica, com o meu pai.
É extraordinário essa aprendizagem. Porque quando eu vou fazer um curso em Teoria das Ideias, eu estava a explicar ao meu pai, em termos de ideias, o que ele me explicou em termos de música. Essa foi a primeira fase de aprendizagem sobre esses autores na musicalidade. Passados uns anos, eu ainda tinha o meu pai vivo, a explicar-me a teorização deles, aquele tempo da modernidade, porque são os metálicos; a explicar-me, a questão teológica da vida, da historicidade daquele tempo, do iluminismo. Ele me dava isso na música e isso tudo me permitiu fazer essa construção teórica. Foi meu pai quem fundou a Associação Acadêmica Universitária de Lourenço Marques e a Tuna. Ele foi um dos fundadores da Tuna da Universidade de Aveiro.
Se me quiser ver numa perspectiva de estabilidade social da família, ela não era muito estável, sobretudo, no aspecto profissional dos meus pais. Eu não posso dizer: os meus pais deram-me tudo! Principalmente, aquele apoio, que eu penso que é necessário, em determinadas fases da nossa vida. Aliás, profissionalmente, na minha atividade, penso que eu não dei um salto ainda maior porque me faltou ali um apoio, um suporte familiar ou alguém que desse mais orientação psicológica. Eu e meu irmão, somos muito diferentes. Eu sou mais extrovertido e o meu irmão é mais introvertido. Mas ele também fez o seu percurso de vida, tirou o bacharelado de eletrotecnia e trabalha no departamento de eletrônica da Universidade de Aveiro.
Nasci em Coimbra, os meus pais se conheceram em Coimbra, na Universidade de Coimbra. A minha  mãe é minhota da zona de Braga. O meu pai é daqui, portanto, é da zona de Aveiro. O meu pai foi o primeiro a partir pqra Moçambique, nós ainda tivemos algum tempo com a minha avó. Depois é a minha mãe que parte. Eu acho que ainda fico algum tempo com a minha avó e aos sete anos é que vou pra Moçambique. Minha vida de Moçambique é uma vida maravilhosa. É uma vida, repara, naquele processo colonial eu tive uma boa vivência, boa porque os meus pais ganhavam razoavelmente bem, como funcionários públicos. Eu conheci o parque zoológico, eu tive ao pé de leões. O leão da jaula do jardim zoológico não tem nada haver com aquele leão natural de lá, vê-se aquilo quatro vezes mais, se vocês forem ver os leões do jardim zoológico e depois vão ver o leão ao vivo; vão ver que é uma coisa completamente diferente, é um monstro. O campo desse tipo de geografia fluvial é por natureza forte, mais extraordinário. Portanto, eu posso dizer que isso também me deu muita vivência. Depois de 1964 voltamos aqui para Aveiro.
Aos trinta e dois anos, eu tinha o décimo ano de escolaridade e fiquei dezesseis anos sem estudar. Mas tenho a sorte de uma coisa: penso que minha educação escolar, cultural, foi muito forte, ou seja, independente de ficar tantos anos sem estudar, houve algumas bases que me permitiram voltar a investir no estudo. Terminei o décimo primeiro ano com média 16 (dezesseis), e pude entrar em Coimbra, porque a média de entrada mínima era 14,8 (quatorze vírgula oito), e eu entrei com 16 (dezesseis).  Quando eu entrei no curso, e entrei muito contente porque estava com alguma confiança por ter conseguido num espaço muito curto dar esse salto. Mais confiança me deu quando eu cheguei a universidade.
Depois de ter jogado futebol profissional, comecei a trabalhar com adolescentes e a dar aulas a adolescentes. E acho que tinha com toda a sinceridade das mensagens que me foram transmitidas. Ao longo do meu curso de licenciatura em história, tinha uma sensibilidade, atenção, porque a experiência de vida é muito importante. Porque tem muita gente que está a bater a porta; muitos jovens a bater a porta. Alguns eu ajudei, inclusive, em uma cadeira que era muito forte, que era a Teoria das Ideias. Requeria alguma maturidade pra se fazer essa cadeira, mas fui construindo o meu percurso para saber para onde é que eu iria: história econômica, história social, história política, história cultural. Até que apanhei um docente que me abriu, digamos, o espírito. Um professor chamado Fernando Cartroga, que me deu essa ideia: “para ires aos casos, convém trabalhar primeiro em desconstruir conceitos, conceitos como modernidade, pós-modernidade etc”.
Depois fui fazer um investimento de estudo em Paleografia Diplomática que é a transcrição do texto científico. É a transcrição de textos antigos, sejam em latim, sejam escrita carolina, seja escrita visigótica etc. Nós em determinados momentos, temos misturas na escrita ou na nossa escrita medieval. Temos várias misturas dentro dessas variáveis e tal, convém tentar perceber as transcrições para podermos depois ir em mais profundidade ao documento. Portanto, de uma forma objetiva, é importante ir buscar aquilo que estava oculto.
A minha ideia é problematizar! Eu adoro problematizar, me sinto crescer e a mocegar… Mocegar é aquilo que, com o avanço da idade, estou a tentar controlar, porque eu adoro é contrariar. Se surgir um tema a contrariar e se for de um bom autor, então aí é que eu estou mesmo no meu palácio, porque eu adoro desconstruir esses processos e atenção, e muitas das vezes tenho que analisar sempre a profundidade da argumentação e do suporte.  Depois pensei assim: história é pouco. Senti necessidade de trabalhar com a filosofia, sobretudo, filosofias da história. Autores como Kant, Hegel, Descartes. Era importante fazer esse percurso também e depois, então, virei-me pra outros cantos que eram fundamentais como a antropologia. Comecei a ler o circuito antropológico, desde o século XIX, e um pouco, os dados de etnografia, porque eu acho que são importantes nesse investimento que eu estou a fazer. E um pouco de sociologia.
Depois da licenciatura me surgiu a oportunidade de trabalhar num departamento da Universidade de Aveiro: a seção autônoma de ciências sociais e ciências políticas. Eu entrei como técnico de nível superior, ligado a apoio a gestão de cursos. Começo a trabalhar a partir de 2003. Fiz primeiro um contrato de experiência e correu-me tudo bem e desde lá estou a trabalhar no apoio a gestão de mestrados e doutoramentos no Departamento de Ciências Sociais e Ciências Políticas da Universidade de Aveiro.
Wlad Lima e Pedro Rui em entrevista na cidade de Fermentelos.
Wlad Lima e Pedro Rui em entrevista na cidade de Fermentelos.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.