Territórios das Atuações

Cartografar as atuações dos doutorandos é compreender até onde alcançam os braços do PDEC, nem só em terras portuguesas, mas também em outro hemisfério e dois continentes, principalmente, porque são as atuações exercidas pelos alunos-pesquisadores podem, como que, presentificar as práticas de intervenção do PDEC frente as discussões sobre políticas públicas para a cultura, financiamento de pesquisa, formas de vida potencializadas por novos modos de produção de subjetivações e tantas outras possibilidades interventivas que são praticadas via a problematização de novos objetos culturais de pesquisa, adensados criticamente pelos Cultural Studies.

Para conseguir mapear os territórios das atuações, meu critério de força frontal foi, menos a localização geografia das atuações e mais as suas zonas de intervenções.

A primeira zona de intervenção que li, pelos encontros, foi a do domínio da pesquisa institucionalizada em Portugal, aqui representadas pelas pesquisas financiadas pela FCT. Pela primeira vez na vida, ouvi a expressão “emprego científico”, referente ao fato de que muitos pesquisadores sobrevivem, por anos, apenas dos proventos de uma bolsa de investigação; realidade que diminui, sensivelmente a cada ano, em função das políticas para o desenvolvimento científico estarem, equivocadamente, racionadas no país.

Fazem parte dessa zona de intervenção da pesquisa acadêmica, os seguintes doutorandos-bolseiros da FCT: Anne Ventura (Vitória – ES \ BR), Sara Vidal (Murtosa – grande Aveiro \ PT), Jenny Campos (Espinho – grande Aveiro \ PT), Anônimo (ACVR) (Lisboa – PT), Simão da Silva (Lisboa – PT), João Hespanhol (Porto \ PT) e Anônimo (PFMJ) (Porto – PT). Incluo aqui nessa zona, a doutoranda-bolsista da CAPES – Brasil, Uiara Martins (Fortaleza – CE \ BR).

O Brasil, aparentemente, ano a ano, amplia os recursos para o desenvolvimento científico no país, porém, cabe destacar que, a maior porcentagem desses investimentos, aproximadamente 80%, são, rigorosamente, destinados para as áreas tecnológicas, provocando sobre as áreas da humanidade e das artes, lentas progressões, acentuadamente, nas artes.

Minha segunda marcação cartográfica recai sobre na intervenção que ressoa a partir daqueles que atuam na área da educação, seja no ensino primário, no secundário, no superior técnico (ou tecnológico) e no superior acadêmico.

Para o bloco dos educadores optei em subtrair alguns vetores. A intervenção no ensino superior técnico (tecnológico) é atuado pelos seguintes alunos-pesquisadores: Daniel Ribas atua no Instituto Politécnico de Bragança; Jenny Gil atua no Instituto Politécnico de Leiria; Manuel Gama no Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Percebo aqui, uma dilatação verificáveis do PDEC para o norte do país, um pouco mais acima que a localização da sede UMINHO, em Braga, chegando por essa rota até Viana do Castelo.

No superior acadêmico, entra em cena, além de Portugal, doutorandos que atuam em seus respectivos países. Na cidade de João Pessoa \ PR, atua Adriana Bambrilla frente a Universidade Federal da Paraíba; o Anônimo (MJCM) atua na Universidade Pedagógica de Maputo e Maxixe em Moçambique.

Em Portugal, os doutorandos que apresentam atuação no ensino superior acadêmico são: Timothy Oswald e Margaret Gomes, ambos na Universidade de Aveiro; Anônimo (AGF), atua na Universidade Aberta de Sabugal.

Atuam no ensino primário e\ou secundário os seguintes doutorandos: Dulce Martinho (Viseu),  Maria Goreti (Braga), Fátima Pais (grande Porto) e Anônimo (AMMAK) (uma das Ilhas de Portugal). Atuando ainda no campo da educação, temos dois casos de natureza diferentes. Pedro Corga, atua na educação infantil com o ensino da língua inglesa, mas sua atuação tem oscilações constantes porque não há nenhum vínculo empregatício. O mesmo caso, de não-vínculo empregatício, porém, diferente em relação a seguridade social, aparece o caso de Joana Ribeiro que atua sob as condições dos “empregos de cheque verde”; lugar de frágil segurança profissional.

Passo para uma terceira zona de intervenção: a administração pública. Nesta zona, os doutorandos que atuam são: Suzana Menezes, frente a chefia da Divisão de Cultura da Câmara Municipal de São João da Madeira; Manuel Costa, frente a direção da Biblioteca Municipal de Póvoa de Varzin; Margarida Moleiro, no departamento de editoração da Biblioteca Municipal de Torres Novas. Um pouco deslocado, mas ainda nessa zona, está a atuação de Pedro Rui como integrante da equipe técnica que sustenta a gestão educacional e apoio aos mestrados e doutorados da Universidade de Aveiro. Similarmente reaparece, Anônimo (MJCM) (Moçambique) – que em seu país atua nos bastidores políticos do campo da educação – atuando como Director Nacional Adjunto do STAE para a Formação e Educação Cívica

Creio que as inscrições no doutoramento em Estudos Culturais de pessoas ligadas à administração pública, em organismos de natureza concentrada na ação municipal em diferentes localidades, influenciou, em certo aspecto, os rumos do PDEC logo no ano seguinte a entrada dessa turma. A coordenação do curso propôs um congresso específico sobre Políticas Públicas para a Cultura, realizado em 2011. Esse fato é passível de reflexão a partir da leitura dos anais do II Congresso Internacional em Estudos Culturais: xxxxxxx, realização PDEC.

Um caso, sem similar, entre os alunos da turma de 2010 desse  programa doutoral é o de Pedro Lapa, que por motivos pessoais, se encontra desempregado, atuando nos serviços domésticos e na criação de sua jovem prole (três filhas).

Para concluir, destaco as atuações de alguns bolseiros de Portugal, frente as chamadas associações de Empreendedorismo Social. São os casos de Sara Vidal e Jenny Campos no IRENNE – Associação de Investigação, Prevenção e Combate à Violência e Exclusão, e Simão da Silva, atuando frente a Sociedade Bíblica Portuguesa, em Lisboa.

Se me fosse possível recomendar, proponha mais atenção à duas formas de atuação que já estão, implícitas e explicitas, nas ações do PDEC:  primeiro, que os bolseiros\bolsistas sejam, extremamente incentivados a ampliar suas experiências frente ao empreendedorismo social e o empreendedorismo artístico-cultural, como fonte de enriquecimento de sua cultura e de seu aporte acadêmico curricular.

Do meu ponto de vista, frentes de trabalho aos moldes do IRENNE, irão se tornar os grandes laboratórios para as intervenções dos Estudos Culturais em Portugal; e em segundo lugar, sugeri que todos os alunos-doutorandos, sem exceção, se empenhem em uma maior integração ao CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade – centro de estudo de excelência, que poderá proporcionar melhores integrações entre as pesquisas e alcance transdisciplinar, bem como, relações internacionais de grande alcance e potência propositiva para o futuro, como é o caso da implementação da COLLUM – Rede Internacional de Formação Doutoral em Estudos Pós-Coloniais, envolvendo dois hemisférios e três continentes.

Para além dos espaços-laboratórios organizados nas proximidades do PDEC, há que se encontrar espaços para o desenvolvimentos do empreendedorismo social, inclusive alguns exemplo, entre instituições tradicionais do contexto cultural da sociedade portuguesa. Para uma melhor compreensão da questão, encerro essa página com o depoimento do doutorando Simão da Silva, frente as ações da Sociedade Bíblica de Lisboa:

Eu trabalhei numa associação sem fins lucrativos, ainda estou ligado a ela, não agora tanto. Ela se chama Sociedade Bíblica, cujo objetivo é apenas evitar, traduzir, colocar na linguagem contemporânea, as sagradas escrituras. Esse o nosso objetivo, não tem qualquer objetivo no sentido de como a igreja tem de fazer catequese ou qualquer outro tipo de ação. O que nós fazemos é traduzir o texto dos originais para uma linguagem, o português, mas num português contemporâneo, que é para o leitor poder ler o que está público, expresso. Nós entendemos que é este o nosso referencial, a partir dos dois mil e quinhentos vocábulos mais usados pelos jornais diários; que qualquer pessoa tenha essa capacidade de ler. O meu trabalho dentro dessa instituição, começa quando eu fui convidado por um professor meu, da licenciatura que eu fiz em teologia. Ele era diretor da instituição e convidou-me pra ir dirigir esse projeto. Foi uma nova mudança na visão e no corpo da própria instituição, que até aquela data era uma espécie de livraria e de editora. Pediam para nos disponibilizámos, dentro da nossa língua, essa matriz. Por pessoas que tem fé, mas por uma questão de cultura, eram impedidas de ler a Bíblia como um livro histórico. Compreender a nossa matriz cultural, aquilo que é a cultura ocidental, não pode ser, sem a compreensão da sua matriz judaico cristã. Fui exatamente trabalhar num departamento que visava não só levarmos a bíblia, as pessoas que não a tem, mas trazer as pessoas, a bíblia. Então, chamava-se departamento de animação bíblica e cultural. Nós procurávamos era fazer exatamente projetos de animação, onde as pessoas voltavam ao contato com o contexto bíblico e não numa perspectiva exatamente de fé, mas lúdica, só para voltar a perceber: ‘ora isto, é a nossa matriz cultural, não vamos esquecer isto’. Então um dos projetos que eu liderei e onde conheci a minha mulher foi exatamente, onde fizemos a bíblia manuscrita. Nós queríamos dizer é que a bíblia é um o patrimônio da humanidade, ponto final (Simão da Silva).

Convido a todos a pularem para outra rota de navegação. Mas, aconselho a estarem preparados preparados para novas provocações do pensamento!

Rota das Subjetivações.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.