Anne de Souza Ventura

Sou uma lusobrasileira apaixonada pela palavra, que consegue refletir sobre si, sobre o mundo, sobre as coisas que são importantes pra mim. No caso, ser do Brasil, ser de Portugal, essas duas identidades se mistura na minha vida, através da literatura; da palavra literária, que foi encontrada, nesse doutoramento, no trabalho desses dois grandes mestres – Eduardo Lourenço e Antônio Cândido – uma cumplicidade muito grande.
Tenho múltiplas identidades: esposa, mãe, filha… Eu tive um filho fazendo doutoramento. Mal entrei e passado um ano eu engravidei. A minha família ficou dividida por gênero, pelo menos no momento é dividida por gênero. Os homens são portugueses e as mulheres são brasileiras. Muito engraçado isso não é? Meu pai é português, meu marido é português, meu filho é portugues e tenho mãe e irmã brasileira. Eu fui me apaixonar por um português e fui me envolver com a história portuguesa e com a língua portuguesa através do amor. De certa forma, a minha relação com o meu marido está atrelada com isso, pelo menos hoje em dia está.
No princípio talvez não tivesse, mas depois que eu vim pra morar, vim pra morar por amor, acabei fazendo o doutoramento. Eu me apaixonei, no princípio do namoro, também pela língua portuguesa, dita e sentida e expressa de outra maneira. Era muito lírico o nosso namoro. Porque eu me encantava com essas coisas todas, por isso, está diretamente envolvido com a minha pesquisa de doutoramento, de certa forma. Aconteceu tudo ao mesmo tempo! Eu vim, me apaixonei, comecei o doutoramento, engravidei, está tudo muito imbricado, por isso que eu digo: é muito biográfico também essa história da tese.
Meu pai é angolano e minha mãe é capixaba, brasileira, do Espírito Santo. Quando teve a guerra, a família do meu pai já tinha retornado pra Portugal, e aí meu pai resistia; ele era o único da família que tinha nascido em Angola. Resistiu e ficou em Angola, obviamente. Chegou a vir pra Portugal, mas voltou correndo, não se identificou com o clima e com as pessoas. Portugal era um país ainda muito fechado. Ele é pesquisador também, é de Agronomia. Ele consegue um voo pro Brasil, vai pro Brasil, e vai parar no Rio de Janeiro; fica lá uns seis meses. Depois vai pra Vitória, porque abre a ENCAPER, que é uma empresa estatal de pesquisa agrônoma. Ele vai aos correios pra mandar carta pra família e a minha mãe vende selo; É uma morena muito bonita; é daquelas de virar a cabeça de qualquer português. Muito bonita de corpo, a pele muito morena, os cabelos lisos e pretos; assim, parece uma índia. Ela vem de uma família de negros e portugueses, misturados com austríacos. Eu só fui descobrir que eu sou branca aqui em Portugal, porque no Brasil, eu nunca “dei chance”! Eu nasci dessa relação, da troca de culturas, das distâncias e saudades.
Eu nasci em Vitória, fui criada a vida inteira em Vitória. Meu pai é pesquisador e durante o mestrado e o doutorado nós mudamos de Vitória para Minas Gerais. Nós moramos lá e eu também tenho uma boa relação com Minas Gerais; gosto muito de Minas Gerais. Passei lá uma fase importante da minha infância. Mas sou completamente capixaba. Sou encantada com a minha cidade que é um arquepélago lindíssimo e só vou sair mesmo de Vitória quando eu decido passar esse tempo aqui em Portugal. Talvez pra buscar aquelas histórias, porque é engraçado que o meu pai nunca me contou sobre o passado dele. Sabe que as histórias eram muito duras. A história de África dele era muito dura. Então, a única coisa que eu escutava do meu pai eram histórias fantásticas, eram coisas e lendas fantásticas; os casos, da vida na fazenda, mas as histórias reais… Tanto é, que eu só fui descobrir que houve guerra em Angola, na escola. Meu pai nunca tinha me contado que existia guerra onde ele morava.
Minha irmã fez jornalismo também. É engraçado isso, porque acabam as duas gostando muito de escrever, apesar de não ter exemplos na família de escrita, a não ser do meu pai, que é mesmo cientista. Ele trabalha com fitopatologia. Então ele está sempre embrenhado nos livros, mas ninguém entende aquilo que ele está lendo. É sobre cruzamento genético.
Eu gostava muito da escola quando eu era criança. Adorava. Eu era daquelas que ficava doente e chorava quando não ia pra escola. Mas também não era a melhor aluna. Nunca fui assim, tão estudiosa! Eu gostava de estudar e estar na escola. Acho que porque a escola era onde eu via tudo, eu era muito reflexiva. Eu não ia pras quadras jogar  handebol e vôlei. Eu ia pra biblioteca. Apesar de não ter ninguém na minha casa que lê muita literatura, eu sempre gostei muito de ler. Por isso eu gostava muito da escola. Depois, quando eu tinha por aí uns doze ou treze anos, eu pequei uma daquelas professoras que mudam a nossa vida. Peguei uma professora que era professora de língua portuguesa, que era encantada por literatura, que me mostrou que era possível viver embrenhada com a literatura.
Eu gostava muito de história, por conta do meu pai, apaixonada; porque o meu pai sempre contou muitas histórias fantásticas de África, de Angola. Eu acabei gostando muito de literatura por conta disso, tanto é que, com quinze anos, eu chego a publicar um livro, horroroso! Um livro independente, desses assim, que o pai fica orgulhoso do filho que escreve; e não sei o que, e publica. E depois acabo me envolvendo com muitas pessoas que escrevem. Oficinas literárias com a Deny Gomes, que é uma escritora capixaba, que eu considero a minha mestra. 
Acabei fazendo letras por um comodismo mesmo. Pensava… Como é que eu posso fazer pra estar mais perto daquilo que eu gosto? Mas não sou aquela pessoa que tem vocação para sala de aula. Eu fiz letras por conta de estar perto do objeto que me atraia, a literatura, o livro. E assim também foi com o mestrado. Mas depois acabei me envolvendo com pesquisa, que era outra forma que eu encontrei também de estar perto daquilo que eu gosto; ganhar a vida com isso. Fiz iniciação científica na Universidade Federal do Espírito Santo, com o professor Alexandre Moraes, que me acolheu e me fez descobrir que é possível ganhar dinheiro estudando; passar o dia inteiro lendo. Depois concorrir ao mestrado e acabei tendo a grande felicidade de ter uma bolsa do CNPq. E só depois, fui trabalhar um pouquinho.
Eu comecei a dar aula em algumas universidades. Dei aula na UFES primeiro; foi um intensivão que eu dava aula de literatura, de poesia literária mesmo. Mas era o tipo contrato temporário. Depois aquilo acabou e eu comecei a dar aula de língua portuguesa pra outras universidades. Logo depois, comecei a sentir falta da literatura, então, eu falei: agora eu tenho que parar porque eu quero sair um pouco do trabalho com língua portuguesa, o trabalho instrumental, português instrumental e coisa desse gênero. Juntei todo o dinheiro que eu tinha, FGTS, e não sei o que mais e fui me programando. Fiquei seis meses em Portugal. Vim para casa de uma tia, não pra estar passeando, porque eu nem passiei tanto assim pela Europa, porque nem tinha dinheiro pra ficar assim, só passeando. Tanto é que, na altura, eu aluguei um apartamento em Guimarães e fiquei aqui um mês, extremamente solitária. Isso foi muito importante na minha vida!
Eu encontrei o Rodrigo no início de 2008. A gente se conheceu assim. Quando eu vim pra Portugal pra passar esses seis meses, eu me inscrevi num clube chamado Tales Club, que era um clube de hospedagem, ou seja, de troca de cultura. Então imagina, as pessoas te recebem para mostrar a cidade, outros te recebem mesmo para te ajudar com a hospedagem e tal. Aí eu conheci o Rodrigo assim. Em Braga, foi a única pessoa com quem eu conversei para que ele me desse algumas dicas de viagem em Portugal. E depois quando eu vou a Braga, e ele morava em Braga na altura, eu conheço ele melhor. Eu achei ele um gato!
Aí volto pro Brasil em 2009. Eu termino o livro que vim escrever e depois continuo apaixonada pelo Rodrigo e ele também por mim.  E começa aquela coisa de skype! Aquela coisa de adolescente, de ficarmos horas no skype e no telefone. Aquilo que a gente achou que fosse abrandar, não abrandou, pelo contrário, começou a ficar uma coisa sofrida até, e então, ele vai para o Brasil em fevereiro de 2009, para me encontrar. E aí, ele fez o convite pra gente morar junto; é quando eu começo a agilizar a história do doutoramento; eu começo a pensar no que eu poderia fazer aqui de novo, esticar a ida, não é. Então eu decidi: eu vou fazer um doutoramento em Portugal!
Acabo encontrando o doutoramento em cultura, na altura, e é claro que eu quis fazer. Decidi: vou fazer esse doutoramento, já que eu posso migrar para uma área que vai me dar esse gozo. Já que eu já vinha na busca do gozo, desse prazer, dessas coisas com as quais eu me identificava mais, eu decidi fazer o doutorado na área dos Estudos Culturais. E aí, venho pra cá de vez para morar em Braga. Moro um ano em Braga, logo depois eu engravido, e então, viemos pra Guimarães. 
Eu acho que quem acaba no Doutoramento de Estudos Culturais, vem com essa vontade de pôr crítica e política na investigação.  Pelo menos eu vinha com essa vontade. Eu vinha do Curso de Letras, fiz graduação em Letras e mestrado em Literatura Literária porque adoro Literatura; eu escrevo, sou escritora, mas eu sentia uma necessidade de me envolver por questões mais atuais, com metodologia mais atual, e mais híbrida e apegada a uma questão um pouco mais política também. Eu acho que quem se envolve, e se envolve com vontade de dar consistência a uma reflexão, quer mais trazê-la para uma coisa mais prática – apesar de minha pesquisa ser muito teórica; é só teoria!
Comecei a ler muita coisa aqui, que eu não conhecia. Eduardo Lourenço eu não conhecia antes de vir para Portugal em 2008. E ele escreve muito bem sobre as questões lusobrasileiras, de uma forma não elogiosa, lusotropicalismo. Eu nunca me identifiquei com essas coisas e quando eu li pela primeira vez, Eduardo Lourenço, eu comecei a ver alguém que via com olhos críticos, a relação entre Brasil e Portugal; de fontes verdadeiras, sem medo de encarar os problemas que resistem, mas também não encarando os problemas comuns, não alimentando os problemas de uma forma gratuita, mas fazendo uma reflexão crítica dessas relações de Brasil e Portugal. E isso me fez lembrar muito do Antônio Cândido, que é alguém que sempre fez parte da minha vida acadêmica.
O Antônio Cândido é um mestre incontactável, por mais que eu possa ter alguma discordância com relação aos métodos dele… Mais quando ele fala da sociologia, a crítica com relação a isso tudo. O Eduardo Lourenço também é assim. É o incontornável para quem quer pensar, não só essa relação de Brasil e Portugal, mas da relação de Portugal com ele mesmo. É alguém que sempre teve fora, durante muito tempo, e pensou a identidade cultural portuguesa de uma forma muito livre, assim como o Cândido. Ainda não existia os Estudos Culturais, que só aconteceram depois do trabalho dos teóricos da Inglaterra. Eles começaram a fazer uma coisa muito parecida com os Estudos Culturais, os dois, Eduardo Lourenço e Antônio Cândido. 
Wlad Lima e Anne Ventura em entrevista na cidade de Guimarães.
Wlad Lima e Anne Ventura em entrevista na cidade de Guimarães.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.