Anônimo (PFMJ)

Penso dizer quem sou, falando do que eu faço. Neste momento, estou a fazer uma tese de doutoramento sobre dramaturgia e estou a dar aulas. Tenho estado a dar aulas em dois sítios, num Instituto Politécnico em Mirandela e aqui no Porto, numa Escola Superior Artística. Neste momento não estou de férias, venho agora para uma entrevista, escrevo, mas, especificamente, faço teatro. Claro que isto, não sou eu, mas é uma parte do que eu sou no fundo.
Eu nasci em Leiria que é uma cidade média no centro de Portugal. Na altura, era uma cidade relativamente pequena, uma cidade industrial, típica do que era Portugal. Agora esta bastante diferente. Eu nasci lá e cresci lá, até os 18 anos. Aos 18 anos, vim estudar pra o Porto. Meu pai é militar, era agora está reformado e minha mãe é professora primaria. Eu tenho um irmão mais velho que também é militar.
O teatro aparece na minha vida muito tarde, aparece já na universidade, quando venho para o Porto estudar tradução, português/inglês e começo a ida ao teatro e tenho uma cadeira só de Shakespeare. Eu tive minha formação fundamental, primária, numa escola da zona rural, nos arredores de Leiria, onde minha mãe também dava aulas. Depois fui estudar para outra pequena aldeia, muito rural, mas que tinha uma fábrica ao lado, uma fabrica de loiças sanitárias. Quase todas as pessoas que viviam ali trabalhavam nessa fábrica. Eu estudei, eu entrei para escola um ano mais cedo, aos cinco anos, mas meus pais não queriam que eu continuasse a escola, sempre com um ano adiantado, então, repeti a 4ª classe. Depois fui continuar, na altura, o preparatório; agora se chama E.B. 2.3, que é 2º ciclo depois do 3º ciclo de ensino. Fiz o meu 2º ciclo numa escola já no centro de Leiria, tive um ano noutra escola e no 8º ano, fui para o Liceu. Portanto, estive até o 12º ano no Liceu. E depois, vim para o Porto.
Os meus pais não são de Leiria, são de uma aldeia do interior, da zona da Guarda, e a minha mãe foi a 1ª pessoa da família dela, a ter mais do que a 4ª classe; teve aquilo que chama de ter a escola de magistério, que era a escola que formava os professores primários. Ela fez essa formação e depois começou a dar aulas numa escola primária. Meus pais se conheceram na aldeia, agora foram viver os dois para mesma aldeia. Os dois estão reformados. O meu pai é de lá, reformado do exército, tem a 3ª classe; já tem alguma idade, nasceu em 1935. Ele saiu da aldeia, muito novo e foi para Lisboa trabalhar, ainda em adolescente, aos 13 anos. Depois entrou para o exercito e esteve na guerra colonial do ultramar em África, nas independências de Angola, de Moçambique e da Guiné. Os meus pais casaram-se no intervalo do meu pai estar, nos vários cenários da guerra. Inclusive, meu irmão nasceu ainda durante a guerra colonial, não nasceu quando meus pais estavam em África, mas foi quase. Eles tiveram algum tempo ainda na aldeia da Guarda, a certa altura, eles mudaram para Leiria, porque era um sitio aonde a minha mãe ia vários dias para dar aulas e o meu pai conseguiu arranjar colocação no exercito. Os meus pais, me lembrei deste fato, quando se casaram, imediatamente a seguir, vieram para o Porto e ficaram cá seis meses. Mas, no fundo, a mudança dos meus pais para Leiria, foi mesmo com objetivo profissional, não era muito fácil conseguir colocação; na zona da guarda que já estava despovoada na altura, no centro de Portugal, estava despovoado por causa da imigração em massa para França, Alemanha e Suíça. Portanto, ambas as famílias dos meus pais, quase toda a gente saiu de lá. Só tenho uma tia que mora numa cidade perto da aldeia, fora isto, todas as pessoas foram pra Lisboa, França… Os meus pais chegaram a viver na Guiné, mas foi por causa do meu pai está lá colocado, durante a guerra colonial. Mas o meu pai, na maior parte dos sítios por onde esteve, foi sozinho, mas na Guiné levou a minha mãe e o meu irmão com ele, eu ainda não tinha nascido na altura.
Eu nasci em 77, a guerra colonial acabou em 74. Houve, antes dos anos 60, uma série de movimentos independentistas nas colônias africanas portuguesas em Angola, Moçambique, na Guiné e Cabo Verde. Há uma resistência do regime salazarista, então, gera-se um conflito bélico entre as barrilhas e o exercito português que vai quebrar, creio que é 1963 até 1974. Em 74, dá-se o 25 de abril em que o regime é deposto. O outro regime chega a acordos com os vários movimentos independentistas, resultando na independência de Angola; dá a todas as colônias.
Eu tive sempre uma relação muito forte com leitura. Acho que também os meus pais nunca me patrocinaram a ler, mas eu sempre tive o exemplo da minha mãe que lia bastante. O meu irmão também. O meu pai tinha um grande fascínio por enciclopédias, sempre lia enciclopédia. Não havia internet nessa altura. E acho que dentro de casa, eu sempre tive muitos livros. E eu também, a partir de sempre, frequentei muitas bibliotecas das escolas onde eu estudava e depois a Biblioteca Municipal, então, sempre tive essa mania, sempre fui muito leitor, lia muito ao ponto que me chamavam ‘o menino que não falava’, porque estava sempre a ler. Viviam me dizendo: ‘vai brincar lá fora, menino! Eu não ia jogar a bola e nem essas outras coisas.
Quando estava no 7º ano, houve um concurso literário na escola, penso que era uma serie de alunos a concorrer. Eu concorri e ganhei um prêmio, mas aquilo era coisa que ia surgindo. Fiz o curso de Línguas e Literaturas modernas, variante, português/inglês e tradução. O meu irmão não tem estudos universitários, só tem o 12º ano. Ele fez a opção pela carreira militar como o nosso pai, apesar do meu pai, nunca nos incentivar a seguir a carreira militar. Claro que havia certo imaginário militar em casa, mas os meus pais sempre tiveram mais apreço pelo ensino superior.
Quando eu vim estudar no Porto, foi uma autonomia que se começou a construir. Eu vim pra cá e fiquei alojado na vila militar, numa espécie de pensão ou hotel para militares, onde estavam vários estudantes, filhos de militares, que também estavam deslocados pra cá. Estive aí alojado, estive na Faculdade de Letras. Para mim, foi um período também de percepções novas, portanto, a partir do zero. Das pessoas que conhecia no secundário, pouca gente veio pra cá, e as pessoas que vinham – um foi pra arquitetura, outro foi pra belas artes, ou seja, outras faculdades –, foram para áreas diferentes. Foi uma altura onde conheci novas pessoas; as amizades mais duradouras que eu tenho saíram da universidade, ganharam autonomia, algum ativismo politico e também começaram a ver teatro junto comigo – teatro é uma coisa que quase não existe em Leiria, por exemplo.
Aqui em Portugal está quase tudo concentrado em Lisboa e no Porto. Há algumas tentativas de espalhar por outras cidades do país, mas acabam por serem só companhias isoladas, vão numa cidade e tentam com o apoio da câmara. Em Évora está o curso de teatro da Universidade de Évoras, e chama Cendrev, que é uma companhia que esta sediada em Évora, dinamiza a sociedade no contexto teatral, embora o Cendrev seja mais conhecido pelo teatro de marionetas, os bonecos de Santo Aleixo. Eu já vi algumas peças e são peças muito engraçadas, costumam ir muito para uma ideia de Teatro Medieval.
Através de amigos, começo a conhecer pessoas que se interessam por teatro e são pessoas também que fazem teatro. Eu por acaso tive alguma sorte porque em finais dos anos 90 e inicio dos anos 2000, há precisamente cá no porto a preparação para ser a capital da cultura em 2001, então, houve um crescimento de atividades culturais que vão surgindo. Portanto, eu vim para o Porto em 95, até 2001 houve um crescimento patrocinado pelo estado, porque a cidade era preparada para ser a capital europeia da cultura; havia dinheiro. Começaram por aparecer várias escolas de teatro a formar ator, formarem-se várias companhias, muitos espaços que eram dinamizados. Em 2001 foi à explosão! Eram coisas acontecendo em todas as semanas.
Depois de 2001, há uma queda bruta, por várias razões. A principal é que há uma mudança em nível da câmara, o novo presidente da câmara é muito desconfiado em relação ao teatro e em relação a arte, que não seja comercial. Havia ali um teatro municipal em que vinham, tantos as companhias de teatro quanto as companhias internacionais, e ele vai entregar o teatro municipal a uma companhia que só faz musicais da Broadway.
Eu começo a escrever por essa altura, até por volta de 2001, portanto começo a escrever primeiro, antes de fazer teatro e algumas peças minhas começam a ser montadas ou premiadas. E depois disso começo a fazer colaborações, uma vez para professores de teatro e companhias de teatro. Portanto, as oportunidades vão surgindo aos poucos e vou me aproximando cada vez mais do teatro; começo a trabalhar mais a sério talvez pela altura de 2007 e 2008. Também acaba por ser muito periclitante, que me obriga sempre a ir fazendo outras coisas, não consigo sobreviver só de teatro. Fiz um curso de administração e quando acabei, trabalhei com editoras, na parte editorial de televisão. Só mais recentemente comecei a dar aulas, em 2001. Eu creio que a profissão de artista e professor tem uma coisa muito parecida. Pesquisador, talvez nem tanto. Mas quase todas as pessoas que eu conheço têm atividades continuadas, dadas a algum tipo de formação. Também com uma lógica de sustento e de complementaridade, é muito raro ver artistas que possam viver só do palco. Normalmente, já são artistas consagrados.
Eu comecei a trabalhar num emprego ainda antes de acabar o curso, nunca tive vontade de voltar pra Leiria, acho que nunca me senti muito bem na cidade de Leiria. Sempre gostei muito mais do Porto e de Lisboa, são cidades mais cidades, sítios onde tinham mais a ver com coisas que eu queria para mim. Por isso, nunca tive propriamente a ideia de voltar para Leiria, voltar para viver em casa dos meus pais. Vou lá e tal, muitas vezes, mas não tenho propriamente a ideia de voltar a viver com eles e nem eles tem a ideia de que eu vou voltar a viver com eles.
Eu fiz o mestrado em terminologia e tradução, fiz uma tese em linguística do texto. Porque para mim, preciso estar sempre próximo do texto. Eu comecei a fazer o mestrado absolutamente novo, isso aconteceu na altura em que eu acabei a licenciatura e comecei logo a trabalhar. E na altura eu tinha um trabalho que eu não gostava nada. Então eu saí pra fazer o mestrado para ter uma justificação para não continuar a fazer o meu trabalho, então eu entrei para esse mestrado. Comecei a fazê-lo, depois de um ano só com o mestrado, comecei a trabalhar noutro emprego, numa editora e não foi possível conciliar as duas coisas. Só depois eu consegui ter tempo para me dedicar a escrita da tese, e depois também estava já a começar a produzir algumas revistas e a escrever para alguns grupos, estamos a falar de 2003, 2004. Acabei por entregar a tese em 2006, ou melhor, eu entreguei em 2005 e a defesa foi em 2006, houve seis meses de intervalo entre a entrega e a defesa por questões burocráticas.
Eu fui a 1ª pessoa da minha família a tirar uma licenciatura, o 1º a fazer o mestrado, talvez seja o primeiro com doutorado. Lá está eu tenho muitos primos que estão a fazer ensino superior, mas pelo facto de ser mais velho acabo por ser o 1º a chegar nas titulações. Por exemplo, eu tenho uma prima minha que está a acabar de fazer o curso superior, pensar a ir para o mestrado e tenho outra prima que ainda esta agora a começar o ensino superior.
Acabei o mestrado e achava que precisava de alguns anos para trabalhar noutras coisas para amadurecer; não queria entrar imediatamente para o doutoramento, mas aconteceu uma coisa: em 2009 comecei a trabalhar como freelance, eu estava a trabalhar com o teatro, a dirigir. E nesse mesmo ano, fui apresentar em um congresso, uma comunicação, ou seja, foi uma altura em que senti que comecei a ter um interesse de que já estava na altura de começar um doutoramento. Então eu comecei a ver as propostas de doutoramento, o que havia, se é que havia, até que em 2010 vi o doutoramento em Estudos Culturais e pareceu-me que era apropriado dentro da área que eu queria. Queria uma coisa fosse mais abrangente, que pudesse unir uma ideia de cultura, uma ideia do teatro e também a ideia do texto.
Wlad Lima e Anônimo (PFMJ) em entrevista na cidade do Porto.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.