Joana Margarida Ferreira Ferraz da Cunha Ribeiro

Eu quando fiz o projeto para o doutoramento, eles me perguntaram quais as dificuldades que eu espera, respondi que a maior dificuldade seria eu própria. Porque sou mãe, sou mulher, sou amiga, sou dona de casa, sou proprietária de quatro gatos, sou muito pouco responsável pelo carro, muito pouco responsável pela casa, sou filha, sou irmã, sou vizinha e acima de tudo sou professora – adoro dar aulas- e sou naturista ocasional.
Eu gosto muito de passear sem destino, pegar no carro e ir. Adoro tirar fotografias – são coisas importantes que aprendi com a minha irmã. Coleciono pedras, conchinhas. Meu filho coleciona caracóis vivos, portanto, já estamos aí no mesmo caminho. Sou alguém que gosto muito de desafios, de experimentar tudo, mas por outro lado, desanimo muito, quando não concretizo projetos. E é por causa disto, se calhar, que me encontro nessa fase do doutoramento. Mas sou também daquelas pessoas que está constantemente a criar novas ideias, daquilo que poderia fazer ou poderia investigar… Tenho normalmente muitas ideias ou coisas pra investigar, ou trabalhos de artesanato para fazer, ou quadros pra pintar, ou fotos pra tirar… Ideias tenho muitas. Projetos começados, meia dúzia, projetos concluídos… Acho que eu sou uma eterna iniciadora de projetos.
A minha dúvida grande, neste momento, é: será que a Joana é aquela que conseguirá concluir o doutoramento? Ou se é aquela que vai também deixar o doutoramento ao meio? Acho que a Joana gosta de investir, gosta de ter pequenas conquistas e desanima quando se arrasta no doutoramento. Acho que é isso.
Nasci aqui no Porto e desde sempre morei em Gaia. Meus pais são Modesto e Eugênia. Seu Modesto começou a trabalhar muito cedo. Por mais de quarenta anos foi funcionário de uma empresa de vinho do Porto, daí a minha paixão pelo vinho do Porto. Está reformado agora e se inscreveu a cerca de dois anos pra tirar aulas de inglês, na Fundação Inatel, portanto, voltou a estudar e é esportista, ou melhor, foi esportista. Praticou muito futebol, ciclismo, e ainda hoje, faz de vez enquanto, cem quilômetros de bicicleta. Para alguém com sessenta e muitos anos… Paraquedista, gosta de viajar, gosta de relacionar coisas, se calhar, é daí que vem a minha tendência. Acho que é alguém que dá valor as pequenas coisas.
A Eugênia foi professora primária, está reformada a alguns anos. Sempre viveu para a escola, para a família e para a casa, e continua a fazê-lo. Portanto, não tem nenhuma ocupação na semana dela a não ser dedicar-se a casa e a família e que na realidade ocupa lhe o tempo todo. É uma pessoa muito exigente, mas também é muito brincalhona, muito ansiosa talvez.
Tenho uma irmã que é a Sara, que em termos fisionômicos e de personalidade, somos completamente diferentes. Ela é muito morena, cabelo loiro encaracolado e é mais alta. É professora também, de Educação Física. É uma pessoa muito despachada, muito dinâmica, começa e termina tudo, ao contrário de mim. E consegue manter a vida dela sempre de forma organizada de maneira a começar um projeto e concluir. Também vive cá na zona de Gaia e é casada.
As origens da família não são daqui do Porto são de Gestaçô que é uma aldeia do conselho de Baião. Gestaçô, tradicionalmente é a capital da bengala. Se São João da Madeira é a capital do chapéu, Gestaçô é a capital da bengala e as melhores bengalas do país continuam a ser feitas em Gestaçô. Mas não sabemos durante quanto tempo irão continuar, não compensa, porque acaba por serem bengalas muito caras, feitas a mão. É uma terra simples, de pessoas simples, dedicadas a terra e a cultura do vinho, essencialmente.
Ambos vieram para o Porto e conheceram-se no Porto e casaram. Portanto, meu pai, apesar de ser do Porto sempre quis ter um sítio pra se esconder, lá em Gestaçô. Os meus avós maternos viviam lá, e os meus avós paternos também, era só atravessar a ponte. Mas também só os via, essencialmente, duas, três vezes por ano. Natal, Páscoa, um encontro ou outro, sempre foi assim. Nunca mais os vi. Nunca visitei muito os meus avós, nem os maternos, nem os paternos.
A recordação que tenho da escola primária era que eu era a mais baixinha da turma e  me esticava pra escrever no quadro. Sei que tive um companheiro que era o Cesar, e de vez enquanto ainda o vejo, porque adorava os lápis de cera coloridos que ele tinha. Sei que quando a professora nos mandava fazer cópias para casa, eu perdia mais tempo a fazer o desenho e a ilustração, do que a própria cópia. E pouco mais me lembro da primária. No ensino secundário nunca fui uma pessoa que me rodeasse de gente. Às vezes tinha alguns colegas com quem me dava bem, mas nunca fui uma pessoa de seguir as tendências ou de me sentir muito influenciada pelo grupo líder da turma. Digamos assim, passei por uma fase de adolescência, uma fase de metaleira, e eu nada fazia.
Na adolescência comecei a ouvir havymetal e hoje em dia continua a ser a minha música preferida. Quando tenho uma aula muito complicada, em que vejo violência entre os alunos, tenho que ter uma música forte no carro para poder descomprimir. Gostei do secundário porque tive uma companheira de estudos que também gostava de desafios. Então quando algum professor nos lançava algum projeto de investigação, nós nos atirávamos de corpo e alma. Fizemos dois ou três trabalhos que é das poucas coisas que me orgulho na minha vida. Fizemos um estudo da obra de Soeiro Pereira Gomes que é um autor do neo-realismo português. A seguir, estudei sobre Rui Brandão, que foi bastante produtivo, e nós, na altura, fizemos aquilo com tanto gosto; passávamos dias inteiros na biblioteca do Porto. Por isso, quando víamos trabalhos de investigação adorávamos. Fui assim sempre.
Quando entrei na faculdade, entrei na Faculdade de Letras aqui do Porto. A do porto foi minha única opção, porque concorri para três cursos, todos, na Faculdade do Porto. Mas eu poderia ter concorrido para três cursos em dez universidades diferentes. Não gostei de estudar na Faculdade de Letras do Porto porque as turmas eram muito grandes e assim, ficava muito distanciada a relação professor e aluno. A turma tinha quase duzentas pessoas, era no anfiteatro e como eu chegava sempre atrasada sentava nas escadas, portanto, não havia lugar pra sentar. Não estávamos o dia todo com os mesmos colegas. Desanimei quando comecei a Faculdade de Letras, principalmente, literatura portuguesa. E eu que adorava literatura portuguesa e já tinha feito trabalhos de investigação, desanimei por completo e comecei a tirar notas muito, muito baixas, em literatura portuguesa, sem perceber o porquê. Ia mesmo consultar os testes pra tentar perceber porque a negativa e os professores auxiliares também não conseguiam justificar o porque da negativa. Mas por certo, toda aquela burocracia, confusão e distanciamento fez-me desanimar um pouco. Fiz a licenciatura porque tinha que fazer, mas não foi uma paixão pelo meu curso.
Eu sempre li muito. Desde a primária que a minha mãe me dava livros para ler, eu li quase todos da Any Blaiton, das gêmeas. Mas cá em Portugal, havia muitos de literatura infantil, mas já não me lembro. Eu sempre li muito mesmo durante o secundário. Interessante… Porque quando entrei na faculdade deixei de ler. Comecei a ler por obrigação, tinha que ler. Eu sabia que queria ser professora. Eu gostava de línguas, mas nunca fui uma aluna brilhante em inglês, exatamente por causa da memória, mas gostava de aprender. E gostava de ser professora porque queria falar com outras pessoas.
Para mim, estar a trabalhar num gabinete era demasiado confuso. Estar a trabalhar como secretária, ou outra coisa deste tipo, eu não gostaria. Realmente, estava agora a pensar nisso, que na faculdade perdi o gosto por ler. Comecei a ler muitos livros por obrigação e não tinha tempo se quer para se compreender os livros. Todos os dias havia vários livros para serem lidos. Houve uma altura que me fez gostar novamente de ler. Foi num dos exames finais em que era a despedida de metodologia do inglês. Eu tinha que desenvolver uma aula baseada no texto do Harry Potter, A Pedra Filosofal. Eu nunca tinha lido Harry Potter, não percebia nada da história, nunca tinha ouvido falar naquilo e entrei em pânico porque toda a gente parecia conhecer e eu não conhecia. E então fiz uma aula de gramática porque não sabia nada da história e fiquei com vontade, comprei o Harry Potter e li o livro em dois dias. E a partir daí comecei a comer como quem está a comer algo delicioso e não consegue parar, ou então, começa a comer cada vez mais devagarinho pra ver se aquilo dura mais tempo. E foi isso que me aconteceu com o Harry Potter. Adorei ler Harry Potter e quando os livros estavam a chegar ao fim eu obrigava a mim própria a ler só uma página por dia para poder saborear daquilo por mais algum tempo. Creio que desde que li Harry Potter já comecei a ler outras coisas, mas não com a mesma paixão. Por outro lado o fato de dar aulas a várias turmas, porque como eu trabalho em várias escolas e tenho várias turmas, não me dá tempo nenhum pra ler. Já devo estar pra aí há quatro anos, que não leio livro nenhum, a não ser artigos e papelada. Mas livro, por gosto, não leio. Sempre tive aquele diário com imagens, com palavras ou com cores. Mas não, pessoalmente, não sou ligada a escrita.
Eu fiz dois anos de estágio. Foi em 2001, 2002 e depois 2003 e 2004, foi mais ou menos por aí. E em 2004, tínhamos além do estágio, que apresentar um projeto na faculdade, mas era um trabalho de grupo escrito por três pessoas e apresentado pelas três pessoas e era baseado em aulas que dávamos, portanto, nunca tivemos que escrever muito. Estive na faculdade desde 95 até 2004, nove anos pra um curso de cinco. E por coincidência, na altura que entrei na faculdade, também voltei a encontrar o Miguel, que havia sido namorado da minha melhor amiga, e como haviam terminado, começamos a namorar.
Foi o meu tempo de rock, a música rock tem história. Eu gosto muito dos chutos e pontapés. Eu não sei se todos conhecem, mas é daqueles grupos portugueses que já estão aí a trinta anos e continuam os mesmos; já tem pra aí os seus sessenta e tantos anos, mas continuam. Éramos, ambos, muito novinhos e ele continuou a tirar o curso do secundário e eu já estava na faculdade. Portanto, ele começou a trabalhar – e ele foca, porque gosta muito de trabalhar em trabalhos práticos, ele adapta-se a qualquer tipo de trabalho – começou a trabalhar cedo. E ao meio do curso, nós optamos por casar. Grande parte da ajuda financeira vinha do lado dele, porque eu durante o curso não estava a trabalhar. Mas acima de tudo, Miguel sempre foi aquele amigo.
Foi engraçado porque eu terminei o contrato de estágio a 31 de agosto de 2004 e no mesmo dia comecei a trabalhar nas caves do vinho do Porto. Estive lá durante dois anos e meio, portanto, tive a sorte de nem se quer ir procurar emprego. Fiz um ou dois telefonemas, perguntei se precisavam, entreguei um curriculum e chamaram-me. Correu bem porque me chamaram no final do verão, ou seja, eu entrei na equipe de inverno das caves e significava que já tinha o verão seguinte com emprego, portanto, continuei. E depois, passado dois anos e meio, as caves tem que renovar os seus funcionários. Primeiro, trabalhei num restaurante e num shopping e depois trabalhei nas caves do vinho do Porto, mas o ordenado da caves do vinho do Porto não era suficiente. Trabalhávamos a recibos verdes e não podemos trabalhar muitos anos a recibos verdes. Legalmente, se eu trabalho num só local a recibos verdes é proibido. Significa que a empresa me tem que dar um contrato. Só que obviamente nós preferíamos trabalhar, a não tem trabalho nenhum. Chega a um ponto, para que a empresa não tenha nenhuma fiscalização, eles preferem trocar a equipe. Antes de me ir embora, cerca de quatro ou cinco meses, comecei a enviar currículos pra escolas, pra centros de formação, e no final de 2006, fui chamada pra trabalhar na Fundação Inatel para dar aulas de inglês para reformados. É muito interessante, estou lá de manhã, neste momento, todos os dias, desde 2007 até agora.
Meu trabalho continua a ser por recibos verdes, só recebo nove meses por ano, portanto, os meses em que há aulas. Em julho, agosto e setembro que não há aulas, não recebo, mas sei que se os alunos gostarem de mim, no próximo ano me inscrevem e eu tenho os turnos. Portanto, não é fixo, mas sei que se fizer um bom trabalho no ano a seguir estou lá. Durante a tarde vou preenchendo com outras escolas que são de formação, com auxílio da União Europeia. Na verdade, é disso que estamos a viver agora, desses cursos de formação.
Eu me casei em 2008. Já vai fazer cinco anos agora em dezembro, veio sem querer. Nós não tínhamos planeado, o objetivo era casar, um dia, quando eu já não trabalhasse mais a recibos verdes, e já tivesse com um contrato. Assim, poderia ter as regalias do apoio de saúde e da maternidade, mas pronto, engravidei. E eu acho que nada na minha vida é planeado, por mais que eu planeie as coisas.
Fiz mestrado quando estava nas caves de vinho do Porto. Durante o primeiro ano as caves foram interessantes, mas depois cheguei a um ponto que já não havia mais nada pra aprender, porque eu já havia lido todos os livros que havia da área, já conhecia todo o processo. Já tinha ido várias vezes ao Douro, por iniciativa própria, ajudar a fazer a vindima e ajudar a fazer o vinho. Então, estagnou. Aí precisei de algo que me alimentasse. Foi quando procurei na internet por mestrados. Vi no Porto, vi em Vila Real, vi em Aveiro. Escolhi o de Aveiro, por eu já ter estado no do Porto. O ensino era o mesmo e ficava até mais barato o de Aveiro. E fui olhar as disciplinas do mestrado; e os professores do mestrado e eram exatamente os mesmos que eu já tinha tido na licenciatura. Achei estranho: se eles eram da licenciatura como é que agora eram do mestrado?
Eu optei por Aveiro e adorei. Era o mestrado em Estudos Ingleses e adorei a turma, adorei o primeiro ano, o ano curricular, foi fantástico, criamos uma excelente ligação. Porque havia muitos trabalhos de investigação. Nós nos aplicávamos todos ao máximo e gastamos muitas dezenas de horas em contas telefônicas, porque passávamos quatro ou cinco horas a falar ao telefone, uns com os outros, pra trocar impressões. Agora com alguma meia dúzia de pessoas, ainda mantemos contato por e-mail, nos aniversários, nos casamentos ou batizados. Adorei! Mas a parte ingrata do mestrado é, exatamente, a parte da escrita.
Nunca tive apoios, não. Porque minha área é da literatura e da linguística. Eu era formadora, portanto, não havia algo no meu curriculum que incentivasse uma FCT a financiar o mestrado. Além disso, me disseram que quem recebe bolsa da FCT tem que abdicar do trabalho e isso eu não queria. Mas, por acaso, eu concorri para FCT uma vez. A minha orientadora, a Gillian, aconselhou-me. Elaboramos um projecto, concorremos, só que, na realidade, não encaixava nem na literatura, nem na linguística, nem na sociologia, então foi reprovado. Nem sei com quantos aspectos negativos, uns vinte ou trinta. Nós já sabíamos, a partida, que ele não iria encaixar naquilo, mas tentamos. Porque, já na altura, o meu mestrado ou aquilo que eu estava a estudar já era mais pros Estudos Culturais. Só que, na altura, não se falava em Estudos Culturais.
Eu me inscrevi no doutoramento para tentar concluir o projeto que iniciei. Apesar de não ter terminado o mestrado optei por arriscar. Comecei o doutoramento, não com a nota da faculdade, porque a minha nota foi muito baixa. Eu terminei o curso com uma média de doze. Mas foi pela minha média do mestrado, a minha média era bastante alta. E fui a última pessoa da lista de seleção a entrar, mas não faz mal, eu não me importei nada. Fiquei muito contente de ter entrado e aquele primeiro ano de aulas do doutoramento, também me deu muito gozo. Eu adoro estudar e adoro aprender coisas novas. Foi o que eu disse logo no início, eu tenho sempre ideias pra projetos. E normalmente quando falo, parece que sou uma pessoa muito organizada com as coisas, mas na realidade, eu quando sento ao computador para começar, não consigo. A falar tenho várias ideias e até sei o que quero fazer, mas depois quando precisa escrever, não consigo aplicar na escrita.
Eu não fazia a mínima ideia do que era os Estudos Culturais, mas sabia que aquilo que eu estava a analisar não era nem literatura, nem linguística e nem sociologia. Simplesmente, eu estava a analisar uma coisa que eu achava piada, que me dava gozo em analisar – porque eu nunca iria estudar um assunto que não me sentisse ligada afetivamente a esse assunto. “Anedotas de mulher” foi o que eu achei piada. Eu gosto de estudos sobre estereótipos. E não tenho o objetivo de terminar com o estereótipo, ou mesmo, tentar anular os estereótipos ou acabar com os estereótipos, ou lutar contra eles. Simplesmente, assumo que eles existem. E por mais que nós tentemos, eles vão continuar sempre a existir. Podemos tentar modificar ligeiramente, mas não tentar controlar.
Wlad Lima e Joana Ribeiro em entrevista na cidade de Gaia.
Wlad Lima e Joana Ribeiro em entrevista na cidade de Gaia.

2 comentários em “Joana Margarida Ferreira Ferraz da Cunha Ribeiro”

  1. Joana parabéns. Foi deveras interessante tudo o que li. Continuo a achar que é uma pessoa muito interessante. Como mulher e mãe. Obrigada pela sua publicação. Com muito carinho. Glória

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.