Territórios dos Nascimentos

A política de pesquisa, escolhida por mim, de habitar um território existencial, onde objeto e método fossem processuais, implicou   potencializar-me com uma política de narratividade, tornando minha investigação, agregada e agregadora de novos conteúdos. Ser uma narratividade webcartográfica proporcionou escrever meu texto de forma experimental, com múltiplas pegadas, em uma tentativa de auto-livramento do raciocínio dedutivo. Procurei escrever pelo comum; comunistas; escrever com algo e não sobre algo.

No caso dos territórios dos nascimentos, gostaria de começar a adentrar no corpo subjétil de minha pesquisa (sujeito+objeto=subjétil) pelos nascidos fora de Portugal, porque segundo meu olhar, há algo nesses contextos dos doutorandos que cheira a imigração, que se desdobraria em colonialismo, pós-colonialismo e sem dúvida, no caso, lusofonia.

Os Estudos Culturais em Portugal, nessa primeira turma, receberam  da América do Sul, dos países que emergiram, cinco aventurosos. Nacionalizados do Brasil, vieram, Adriana Brambilla, nascida em São Paulo – SP; Anne Ventura, nascida em Vitória – ES; e Uiara Martins, nascida em Fortaleza – CE. Da Venezuela, Jenny Campos e Jenny Gil.

Com a intenção de despertar novos estudos, gostaria de destacar que a doutoranda brasileira-capixaba é filha de pai português, criado em Angola, descendente de portugueses imigrantes, posteriormente, retornados à Portugal. O retorno desse filho-futuro-pai, naquele momento mais angolano que português, não se deu para Portugal e sim, para o Brasil.

Será que eu entendi bem, as duas venezuelanas se chamam Jenny? Pura coincidência? Jenny é um nome lusófono? Quem sabe, estudar o contexto cultural da época de nascimento dessas duas mulheres não nos revelaria algo sobre a adoção dos nomes próprios, por parte dos imigrantes portugueses, na Venezuela daquele período. Um estudo dessa natureza poderia nos orientar sobre os contágios e o neocolonialismo na língua mãe.

Do continente africano, por nascimento e especificamente dos países lusófonos – Angola, Moçambique e Cabo Verde – vieram, e permanecem até agora, dois doutorandos (dois, entre os entrevistados, mas tenho conhecimento que há outros dois). De Angola, Suzana Menezes, nascida em Luanda. De Moçambique, Anônimo MM, nascido em Massinga.

A revelação da nacionalidade de Suzana Menezes como angolana me tomou de surpresa. Com ela, volto a ouvir falar dos “retornados”. Percebo que essa questão política sobre os “retornados”, ainda não se encontra esgotada em Portugal, academicamente falando. Problematizar os “retornados” pode ser objeto passível dos Estudos Culturais por sua amplitude política e densidade crítica.

Da União Europeia, além de Portugal, emergiram dos encontros, como territórios dos nascimentos dessa primeira turma de doutores dos Estudos Culturais, mais dois países: a França e a Inglaterra. Da França, Anônimo (AGF), nascida aos arredores de Paris. Da Inglaterra, Timothy Oswald e Margaret Gomes, nascidos em Londres e seus arredores. Algo em comum existe também nas histórias de vida desses três doutorandos, deve admitir o leitor: a imigração. Anônima (AGF) é filha de imigrantes português, assim como Margaret Gomes. As duas fizeram seus retornos à Portugal, justamente, para as regiões de origem de seus pais. No caso de Timothy Oswald, filho de imigrante inglês em África, passou a infância e adolescência na imigração. Insisto, que na leitura que ora construo, questões ligadas a imigração, como os trânsitos coloniais e as estratégias pós-colonialistas, ganham múltiplas dimensões de estudo.

Vindos de alguns sítios de Portugal, mais geograficamente falando, do centro do país em direção ao norte, o PDEC recebeu uma boa quantidade de alunos-investigadores. O forte desse bloco são os nascidos entre as duas sedes do PDEC – Universidade de Aveiro e Universidade do Minho (Braga), especificamente da cidade do Porto e zona do grande Porto (cidades nos arredores). De lá, vieram Daniel Ribas, João Hespanhol, Maria Goreti, Manuel Gama, Fátima Pais e Joana Ribeiro. De Braga, alí nascidos, não foi localizado nenhum entre os entrevistados, pelo menos não os publicados. Diferentemente, de Aveiro e da zona da grande Aveiro. Do local sede da turma daquele ano, 2010, chegaram Pedro Corga, Sara Vidal e Dulce Martinho.

Como Saramago, o viajante, precisamos descer em direção a capital do país. De Coimbra, chegou Pedro Rui. De Leiria, Anônimo (PFMJ). De Viseu, Dulce Martinho. De Torres Novas, Margarida Moleiro. E de Lisboa, chegaram Anônimo (ACVR), Simão da Silva e Pedro Lapa. Para finalizar, atravessando parte do Oceano Atlântico, veio o Anônimo (AMMAK), de uma das Ilhas de Portugal.

Penso que essas rotas dos territórios dos nascimentos de nossos aventurosos enriquece a leitura cartográfica sobre os primeiros doutorandos do PDEC,  principalmente, no que tange as suas “raízes culturais”, já visivelmente contaminadas, por diferentes hibridizações interculturais em suas mobilidades contemporâneas.

Me permita sugerir, após o seu compartilhamento dos territórios dos nascimentos, percorrer comigo os territórios das vivências, onde o mapeamento dos sítios onde vivem os nossos heróis atualmente, está construído.

Territórios das Vivências.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.