Daniel Ribas de Almeida

Sou alguém com muita vontade de investigar na área do cinema e ao mesmo tempo trabalhar criativamente nessa área. Eu sempre tive vontade de conhecer as coisas teoricamente, mas também tentar aplica-las criativamente. O meu projeto profissional é conseguir conciliar as duas coisas. Por isso, quero me ver como investigador na área de cinema que tenta também trabalhar criativamente.
Minha formação inicial foi uma formação genérica em audiovisual e cinema, mas especificamente, na escrita de argumentos e roteiros. Quando acabei a licenciatura eu decidi trabalhar profissionalmente, porque achei que precisava conhecer a dimensão profissional do cinema. A experiência não foi espetacular, porque as oportunidades eram complicadas, principalmente fora do centro que é Lisboa, mas sempre tive muita vontade de desenvolver o meu trabalho como roteirista, como argumentista.
Eu cresci aqui no Porto. Até sair da casa dos meus pais, eu vivi sempre em Maia, num local que eu acho que é o típico subúrbio de classe média, com vivendas, tem a fábrica de renda, casas com jardim etc. Por isso que na minha infância eu sempre vivi muito longe da cidade, embora numa parte tenha estudado perto de casa, mas também noutra parte estudei no centro do Porto. Tinha que vir todos os dias de comboio para estudar. E os meus pais ainda estão lá. Minha infância foi nesse tipo de ambiente… O meu pai é engenheiro mecânico. Alguém que ficava num grau de chefia num centro de formação profissional. Ele foi durante muito tempo diretor da qualidade, aliás ainda é atualmente, tem que lidar com organização e gestão de todos os centros de formação do país, mas não lidava diretamente com formação. Minha mãe foi desenhista, projetista, uma pessoa que trabalhava com arquitetos na construção de grandes edifícios. Tenho um irmão com uma distancia grande de 8 anos. Mas o meu irmão também é investigador, está doutoramento agora. Ele esteve recentemente em Boston a trabalhar num laboratório. É estudo doutoral de ciência pura e dura.
A minha casa sempre foi uma casa muito feliz, com biblioteca, por isso sempre houve um gosto muito grande por livros. Meu pai sempre comprou muitos e de certa maneira desafiava-nos, os filhos, à comprar livros. Por isso, a leitura ser quase obvia na minha vida, não e? Quando cheguei ao liceu, que nós aqui em Portugal chamamos de secundário; quando nós passamos do 9º para o 12º ano nós temos que fazer uma escolha e uma via, e no meu caso havia duas vias importantes, que era uma via de ciências ou de matemática, ou via de humanidades/ letras. Eu sempre fui muito bom aluno em matemática, acho que um aluno de fato brilhante. E no 9º ano, o meu pai, pôs-me a fazer varias consultas com uma psicóloga, testes de vocação – e eu já não sei se foi mítica essa história ou se foi mesmo assim. Meu pai conta que ela disse que se eu fosse filho dela me obrigava a ir pra matemática.
Eu fui pra letras porque a minha ideia sempre foi ser jornalista, eu queria ser jornalista como o meu avô. Quando eu estava no sétimo ano, ou sexto ano, houve um concurso literário na escola que era até mais de investigação do que propriamente criativo. Eu concorri e ganhei um premio. Então quando entrei no secundário onde a carga literária é muito forte, o português é muito mais desenvolvido, e nessa altura também entrei num contexto muito bom de um grupo de pessoas e amigos que tinham um interesse por ler, e houve ali uma maior aproximação da leitura e do cinema.
Eu me lembro de que foi nesses anos que li quase todas as obras do Vergílio Ferreira, que é um escritor português, mas muito existencialista, até quase duro de ler. Eu não sei por que comecei a ler e aquilo entrou de alguma maneira e li muito Vergílio Ferreira, mesmo sendo duro, diria muito carregado. Ele era uma das leituras obrigatórias possíveis de se fazer no currículo, mas eu li tudo dele, não li apenas o livro recomendado. Foi também a partir dessa altura que eu comecei a tentar escrever contos para a publicação. Havia uma pagina literária num diário português, o Diário de Noticias. Lá tinha uma página literária que se chamava DN Jovem e eu comecei a tentar escrever e tentar publicar lá. Eu publiquei algumas coisas, pouquinhas, mas publiquei. Se calhar estou a me perder nessas memórias. Meu acesso ao cinema começou a ser também muito mais fácil porque o cinema tem as sessões da tarde não é, e não só isso, havia um sitio aqui no Porto – nós caminhávamos muito a pé e eu estudava na Boa Vista na Escola Secundária Carolina Michaelis – havia na verdade dois cinemas de bairro – é algo que já acabou no porto, já não existe cinema de bairro, só existe cinema em shopping – havia dois cinemas: um deles que era a Casa de Artes, que por acaso acho que agora está em construção. A Casa das Artes tinha uma videoteca, nos podíamos ver filmes em VHS – na altura não tinha DVD era VHS – então era muito propicio ir lá pra ver filmes mesmo fora dos horários, quer dizer a tarde né. Teatro e a dança não, eu não via. Era mais difícil, era preciso ir a noite e eu morava fora do Porto; era muito difícil ir ao centro a noite, por que eu ia depois de comboio pra casa. Por isso eu tenho essa memoria de ter muito cinema e a literatura na minha vida, na adolescência. Eu era muito solitário também, acho eu, era muito solitário e a literatura fazia-me ocupar o tempo. Eu me lembro que amava cartas, escrever cartas. Ainda tenho algumas guardadas em casa. Gostava muito de escrever cartas.
Minha opção na universidade foi por audiovisual com imagem. Aqui não se chama cinema. Na universidade, eles semearam em mim, um bocadinho mais de caos criativo e eu comecei a ver coisas que eu não conhecia. Foi mais um choque! Por um lado me senti um pouco perdido, mas depois cair dentro desse mundo. Um exemplo foi a experiência de um amigo meu. Ele me pediu ajuda; pegou em 2 projetores de slides e ao invés de projetar no papel uma história simples queria andar com slides pela sala. Eu ajudei nisso e pra mim, foi uma experiência radical, uma experiência performática. O professor pediu pra tirar uma fotografia e contar um historia. E eu fiz isso e pronto, e ele não. Eu me lembro dessa história porque, claro, me marcou e pronto.
Comecei a entrar, a ver muita coisa em nível de cinema, em nível da arte. A minha licenciatura terminou com a escrita de uma longa metragem. Eu escrevi, pronto, mas depois ficou na gaveta, nunca mais peguei nisso. Na vida profissional, o meu primeiro trabalho foi muito mal pago e com muito pouco acompanhamento. Foi a escrita de adaptações, guiãos, roteiros, de uma serie infantil, escrita por uns brasileiros. Havia um brasileiro, cá em Portugal, que queria produzir uma série infantil e ele foi contratado para fazer a adaptação para o português de Portugal da serie infantil. Os guiãos estavam pouco desenvolvidos, por isso não foi só adaptação que tive que desenvolver, mas sim o argumento. Portanto eu fiz isso, ainda cheguei a escrever um episódio piloto.
Depois eu fui contratado a ser um fixo por outra empresa. Fui aconselhado, no trabalho anterior, a ir pra outra empresa que estava a pensar fazer séries de televisão e eu entrei, precisamente, pra trabalhar em pilotos, série de televisão, trabalhei em vários pilotos, mas nunca, nenhuma dessas séries foi desenvolvida. Então eu passei, nessa produtora de televisão, a fazer mais trabalhos relacionados com produção – típica né, a parte chata de qualquer coisa é a produção executiva e a assistência de realização, publicidade, anúncios institucionais etc.
Mais tarde nós tivemos a oportunidade de fazer um projeto para uma televisão corporativa do centro comercial. Eles tem umas televisões espalhadas e nós tínhamos que produzir conteúdos pra estas televisões. Pronto, eu estive a coordenar esse projeto, levou-me também a fazer escrita, uma escrita muito mais direcionada como escrever horóscopos, escrever notícias. Mas havia muito choque de gostos, e então senti que não tinha muita liberdade, o que foi cultivando em mim a vontade de fazer outras coisas.
Penso que uma das grandes razões para o meu doutorado foi que a minha licenciatura teve um componente teórico muito forte. Nós tínhamos quase 10 cadeiras por semestre, era mesmo muito forte, e sempre uma componente prática acompanhada de componentes teóricos culturais muito fortes. Foi em uma universidade católica, e nós até tínhamos cadeiras de simbólica cristã, mas eu interpretei sempre isso num contexto cultural mais amplo e nós sempre fizemos leituras culturais amplas. Eduardo Lourenço, por exemplo, entrou no programa e outras coisas mais. Sei lá, muitos clássicos da filosofia contemporânea.
No 3º ano houve um projeto na universidade, que nem era ligado ao curso, eles tinham um site, já começava a haver sites nessa altura; era inicio dos sites e havia um site de estreias de cinema e sobre as salas de cinema, a mostrar os horários de cinema e tudo mais. Nessa altura houve um desafio para fazer alguma coisa nesse site. E eu e uns colegas meus, decidimos fazer um site de crítica de cinema. Para nós, na nossa ingenuidade dos 20 anos, nós iríamos escrever criticas para depois fazermos cinema. Esse site obrigou-nos a escrever muito sobre cinema, quase a um nível semanal. Eu comecei a entrevistar realizadores, foi a partir daí que eu comecei a ter a minha relação – é engraçado como os pontos que ligam a nível profissional – foi ai que comecei a ter a minha ligação com o festival de cinema que se realiza, até hoje, em Vilar do Conde. É um festival de curtas metragens. Nós em 99, começamos a fazer a abertura do festival e 10 anos depois, eu trabalho nesse mesmo festival como a pessoa que escreve sobre cinema. E um festival vai pro catalogo! Pronto. Aconteceu algo que reforçou mui o  meu desejo de ser investigador: ainda na licenciatura, no 4º ano, eu começo a ter aulas com aquela que seria  a minha co-orientadora do doutoramento, que é a Carolin Overhoff Ferreira. Ela agora está no Brasil, é professora em São Paulo. Naquela altura, ela já começa a me introduzir, de maneira mais séria, na leitura de certos autores contemporâneos.
Foi no 4º ano que eu li, por exemplo, Michel Foucault e que me impressionou muito fazer esta articulação entre a teoria pura e dura e o cinema. Antes  eu só lia teoria do cinema; como é que a teoria do cinema nos ajuda a analisar um filme. No trabalho científico, já era fazer a relação entre o cinema e a literatura sociológica, filosófica etc. Eu comecei a ter essa ideia de investigar mais, para contextualizar mais.
Foi nessa altura também que tive um fascínio, um bocado anormal, por cinema português. Eu fiz uma grande coleção de VHS’s com esses filmes gravados da televisão. A Carolin viu muitos desses filmes que eu tinha gravado e desenvolveu uma cadeira, uma disciplina baseada nesses filmes.
Foi nessa altura que eu escrevi meu primeiro artigo sobre o cinema português. Uma certa ascendência do cinema português dos anos 90 – acho que era mais ou menos assim o título. Foi a minha primeira relação com Eduardo Lourenço, minha primeira produção científica.
Daniel Ribas e Wlad Lima em entrevista na cidade do Porto.
Wlad Lima e Daniel Ribas em entrevista na cidade do Porto.
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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.