João Canha Pinto Hespanhol

Eu antes achava que a minha identidade era assim muito determinada e quase já dada, mas eu tenho aprendido com o tempo que a minha identidade está em construção. Posso dizer que o João é um homem que se apercebeu por várias coisas da vida. Sempre com capacidades múltiplas pra fazer muitas coisas desde a música, a escrita, a investigação… Que por vezes, até certo ponto, perdido, que não sabe muito bem se hoje há de escrever ou investigar, ou há de tocar música, ou há de fazer isto, mas que tem aprendido a respeitar essa pluralidade.
Quando era adolescente quase que tive para entrar na Escola Superior de Teatro, mas depois desisti. Eu gostava muito de artes, mas isto é só para dizer que eu acho que tenho várias capacidades, todas elas muito ligadas à questão da arte. Então ao pensar, eu vejo muito assim, amo a vida; sou um homem que ama a vida e que está sempre disponível para aprender e aprender, não só sobre o sentido da vida dele, mas também a procura de ajudar o outro a ser melhor, e a ajudar também as pessoas a atingir os seus objetivos. Então o João é isso: uma pessoa orientada para si mesmo no sentido em que quer conhecer a si mesmo e que se aceita como uma pessoa que tem várias capacidades no âmbito das artes e que ao mesmo tempo procura também estar muito atento a questão da caridade e ajudar o outro. É assim que me vejo.
Nasci numa família em que nos damos muito bem, não tenho grandes problemas na família. Os meus pais sempre me orientaram a ter estudos. Sempre cultivaram em mim o gosto de também de aprender e de crescer. Nasci em Gaia, aqui no Porto, na ordem Trindade. Mas já vivi em Aveiro, depois vivi muito tempo em Gaia, e continuo a viver lá. Meus pais e minha irmã moram em Gaia, também. Meu pai é juíz. Minha mãe, trabalhou muitos anos como secretária de uma empresa, mas depois dedicou-se mais a casa e a nós, quando nascemos.
Sempre fui um garoto muito preocupado em ler, em aprender coisas novas e acho que os meus pais nos passaram também um pouco disso. Meus pais sempre se preocuparam muito com a parte de nós lermos e termos mais conhecimento, etc. Eu, desde muito novo, me lembro de ler David Crockett e livros sobre índios e cowboys e muita coisa. Livros que eram do meu pai, quando ele era novo. E depois, sempre tive livros pra ler, sempre gostei de ler e sempre tive meu livrinho na carteira. E meus pais marcavam muito idas à Feira do Livro. Comprávamos praí muita banda desenhada, também tentávamos comprar outros tipos de livros para eu ler. Mas aos 5, aos 7, sempre li as aventuras. Portanto, sempre a minha relação com a leitura foi uma coisa natural e fácil.
A escrita, só comecei a despertar para escrita quando estava no 10º ano, portanto eu tava com 15 anos. Eu aí, depois disso me transformei em hippie. Eu ouvia os demos dos The Doors. E o Jim Morrison me afetava a cabeça. Então os meus pais tiveram que me aturar, pois eu tive que ter, me vestir a hippie e tal; deixei crescer o cabelo. Nesta fase eu comecei a escrever poesias. Portanto eu tive uma relação com a escrita e com a leitura de uma forma assim muito natural; com a escrita de uma forma muito intensa. Mais tarde, adulto, publiquei dois livros, dois romances, na editora Caixotim. Mas que já faliu. Quando publiquei o meu primeiro livro eu já estava empregado, já tava a trabalhar, já tinha acabado a faculdade. Depois o casamento aos 27, 28 anos, de certeza.
Na adolescência começou a entrar em mim, sobretudo, a poesia do Jim Morrison. Depois eu procurei outros poetas, procurei também ler mais coisas que eu não tinha em casa. Eu procurei outro tipo de leituras, de livros, de filosofia, por exemplo, já queria ler Nietzsche; já queria ler tudo por causa do Jim Morrison. Portanto, as leituras que o Jim Morrison tinha lido, eu também queria perceber e tal. E acabei por abrir mais a aquisição da poesia e da prosa e também da filosofia. Foi mais ou menos a partir daí, mas antes já lia, só que eram livros juvenis e tal. A literatura que eu procurei, eu mesmo, era a que não havia em casa, era para a adolescência.
Nós temos que ser independentes, mesmo que nossos pais não digam nada, tem sempre a história deles. Eu quando quis vir pra o teatro, eles sempre acompanharam, um bocado com receio porque não sabiam muito bem o que queria ser, e depois perceberam aquilo que eu queria fazer. Sempre fiz teatro desde que era miúdo tinha praí 10 ou 11 anos, comecei a fazer teatro e nunca mais parei.
As pessoas viam que eu era bom naquilo que eu fazia e tal e eu até gostava. Eu achei que devia ser ator. E depois houve uma altura que até comprei as tragédias gregas e tudo, que eu queria ler, que era para poder conhecer teatro e tal. Mas depois não deu em nada. Meus pais me acompanharam, fomos pra Lisboa, para o Conservatório. Depois uns atores, aqui do Porto, que conhecia, dividiam-me. Uns diziam que eu tinha que ir pra Conservatório e outros que eu devia voltar pra o 10º ano pra uma escola de teatro e só pra depois ir pra Conservatório; depois já não sabia o que ia de decidir.
O meu pai fez o curso de Direito e aí eu pensei, “eu vou lá pro Direito!” e vamos ver lá como isso corre. E aí não ouvi isso como uma direta, mas foi como uma indireta, porque foi como uma referência. Eu sabia que meu pai havia cursado direito. Se eu cursasse Direito eu teria mais apoio do meu pai. Como eu andava assim um bocado desnorteado, decidi-me. Em um ano estreei em Coimbra, na Portucalense, numa privada. Também não era por amor a camisola, fui para Portucalense, porque era mais perto de casa e pronto. Fiz um ano e correu muito mal. Foi a primeira vez que tomei um calmante, saí de um exame cheio de dores de cabeça; economia política, eu não gostava nada daquilo. Eu já tava um bocado… Queria era pensar! Então, foi só cursar um ano, decidi mudar, e mudei para filosofia. Porque para filosofia? Porque, além da relação com poesia, literatura, eu sempre tive um lado muito de pensar e refletir na vida.
Quando eu fui aí ter, é porque eu estava na procura do sentido de existência. Queria procurar em mim mesmo. Sentir essa tendência natural em mim, espiritualmente falando, é claro. E o que interessa é que eu creio nessa mudança, no sentido espiritual. Eu também sempre fui uma pessoa muito sensível; as coisas estavam sempre muito ligadas. Eu acho que eu fui para filosofia porque no secundário tive uns professores de filosofia muito bons, sobretudo no meu último ano de escola; eu nem precisava quase de estudar muito, era só mais tar atento as aulas, depois, eu tava a dar uma olhadela nos livros e aquilo fluía rapidamente, facilmente. Aquilo para mim era muito fácil porque eu gostava e aprendia facilmente. Sei que vim pra filosofia e no primeiro ano andei lá assim um bocadito e tal. Mas no segundo ano comecei a ver que ali era meu lugar e que tinha algum sentido de estar ali. E pronto, e eu gosto muito de filosofia. E eu acho fundamental para o ator estudar filosofia. Eu sinto uma proximidade muito grande do povo do teatro com a filosofia.
Minha licenciatura foi em filosofia. Mas depois, eu me especializei no ramo educacional para dar aulas; filosofia do ramo educacional. Aí depois mais tarde, passados 2 ou 3 anos eu fiz o mestrado em filosofia contemporânea, com uma tese sobre o filósofo Heidegger. Ele é um grande filósofo contemporâneo, quer dizer da contemporaneidade; em uma tentativa de ligar a filosofia à poesia e que ligações é que havia entre a literatura e também a filosofia. E, pronto, mas foi só o pretexto, porque, como eu tinha que falar muito do filósofo – e antes de chegar a parte da poesia que ele também aborda – eu tinha que falar muitas coisas; quando cheguei a parte da poesia não desenvolvi muito, fiz alguma coisa mas não desenvolvi; ficou como um projeto incompleto.
Como professor já ministrei filosofia, psicologia e o pensamento crítico. Eu ensinava crianças do 7º ao 9º ano, portanto entre os 10 aos 14. Penso que vai-se sensivelmente até os 14; a pensar e a argumentar e a tomar posição e a saber refutar posições contrárias… Ensinava-lhes a querer ser criativos e a saberem já, o que é crítica de arte, e também lhes ensinava a fazer crítica de arte. Também se pode chamar filosofia para crianças, é a mesma coisa. Eu adoro isso! É das coisas que mais prazer me dá, mais até do que dar a filosofia propriamente dita; do que ter que dar a filosofia do secundário, portanto, para crianças dos 15 até os 18 anos. De acordo com um manual, não posso ter liberdade e tal; quer dizer, tendo alguma, mas não muita. Enquanto que no pensamento crítico me dá muita liberdade pra eu poder fazer aquilo que gosto de maneira; dá-me liberdade pra eu escolher os temas, as temáticas. Mesmo quando eles ensinam a fazer crítica de arte sobre os pintores e os artistas, é muito importante depois na aula, colocar os assuntos que eles me pediram e pô-los a pensar sobre algo; não só a seguir a arte, mas também a argumentar, a formar pensamentos sobre a arte e isso é o mais importante. Pronto, é isso aí!
Eu nesse momento só estou a fazer o doutoramento, só investigo. A parte disso, componho música para mim, isto só pra já; é passar ali em casa a compor, escrevendo poesia ou prosa… E também tive agora, o segundo nível de reiki. Pronto, às vezes faço ginástica, convívios, saio, leio.
Eu quando tive para o doutoramento foi quase que uma fuga, não foi, digamos, vontade. Foi mais porque tinha feito mestrado e tal. Já se tinha passado 4 anos e minha esposa na altura estava a fazer doutoramento e eu também achei que devia, se calhar, fazer. Eu andava um bocado perdido; eu andava a procura de alguma coisa que me desse, assim, um pouco mais de sentido e tal, e achei que o doutoramento podia me dar isso, e pronto. Eu sempre gostei de investigar e pensar, e foi mais ou menos isso que aconteceu. Quer dizer, eu nunca fui para o doutoramento com grandes objetivos.
Quando me apareceu a questão do doutoramento, eu sabia que havia um espaço da minha vida que não estava completo e que eu procurava qualquer coisa. Eu não sabia muito bem em que sentido, se em termos políticos, podia ser em termos espirituais… Achei que podia ser em termos intelectuais e então, eu achei que podia ser que, se calhar, o doutoramento me fazia sentido. Minha esposa na altura também estava a fazer e eu acho também que seria uma boa forma de nós nos apoiarmos um ao outro, acompanhar. Fazia sentido porque vinha na sequencia também do mestrado e como eu não tinha chegado a desenvolver completamente aquilo que estive a pesquisar – a relação da filosofia com a literatura na tese de mestrado – achei que era oportuno fazê-lo no doutoramento. Mas eu acho que não era tanto no sentido de descobrir grandes verdades e tal, mas uma coisa mais real. Eu sentia falta de fazer alguma coisa, de algum sentido na minha vida e achei que o doutoramento me podia dar esse sentido.
Ao longo do tempo, o que eu vejo é que tem sido bom. O objetivo era eu obter novas abordagens, se calhar, os temas que eu conhecia chegarem de uma forma diferente. Tem me ajudado intelectualmente também e isso é por causa de uma perspectiva de realidade muito distinta apresentada no curso. E até em termos pessoais tem ajudado, porque eu acho que aquilo que eu estou a estudar, a forma, a abordagem que eu tenho, a crítica ao texto literário e a filosofia, tem me ajudado mesmo em termos pessoais a ver e a compreender certas coisas da minha vida. E uma das coisas que eu tenho como objetivo é tentar que a filosofia seja também para mim, não apenas um campo teórico, mas seja um campo bastante prático; não só de análise crítica, mas também em termos pessoais. Portanto, o grande objetivo no doutoramento é o do desenvolvimento pessoal e prosseguimento para pensar que depois pode tudo virar. Bom, não tenho assim grandes objetivos a não ser ajudar na minha vida, e se calhar, ajudar na forma como eu ensino; na perspectiva que eu tenho do mundo.
De resto, com o doutoramento, posso ter a hipótese de ir pra ali pra acolá, depois logo se vê. É isso. Daí, agora, eu retomar a temas filosóficos, no projeto no doutoramento, mas com uma lógica já muito diferente, já contrária ao Heidegger. Diferente da perspectiva que eu tinha do mestrado. E lá está, foi importante eu ter compreendido aquela perspectiva para depois optar por outra, por não considerar que aquela me satisfizesse totalmente. E essa é a minha abordagem, a ontologia. Gosto muito da visão de ser, do modo de ser, é muito natural em mim.
Agora eu trabalho também com Andrew Benjamin. Ele é um australiano e o descobri, assim, por mero acaso na internet. Eu estava a fazer umas pesquisas sobre literatura e filosofia. Pensei, ‘aonde que eu posso trabalhar um autor vivo que, na contemporaneidade, tenha também estudado Heidegger e o tenha ultrapassado e que esteja a fazer coisas importantes’, me perguntava. Eu queria uma coisa nova, fresca e encontrei o Andrew Benjamin exatamente nesses moldes. E ele tem um projeto ontológico, dele, parte do confronto à Heidegger. Há uma crítica dele, de afastamento à Heidegger, mas ao mesmo tempo, vai dizer coisas novas sobre ele. É muito criativo, muito original. Além disso, tem uma perspectiva muito pragmática da filosofia. Ler os textos dele é uma maravilha porque não estamos só a ler a teoria, estamos a ver a teoria com a prática. Temos a análise de textos, temos a análise de quadros. Dizemos que isso pode ser importante na análise de objetos de interpretação. E para mim isso tudo, o estudo, foi uma maravilha!
João Hespanhol em entrevista com Wlad Lima na cidade do Porto.
João Hespanhol em entrevista com Wlad Lima na cidade do Porto.

Um comentário em “João Canha Pinto Hespanhol”

  1. Gostei muito de te ler, João e tive saudades do safadinho do Auto das Barcas. Lembras-te?
    Na António Sérgio vamos ter uma Feira Medieval em 3,4 e 5 de Junho e lembrei-me de ti.
    Queres participar de forma teatral fazendo um Queimada à Galega?
    Diz qualquer coisa. Bjinhos,
    Marita

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.