TECENDO NÓS TEÓRICOS

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Gilles Deleuze                                                                                                                                       Félix Guattari

Me diz com quem andas, que te direi quem és!

Confesso ter desejado encontrar outra abordagem conceitual para este meu novo objeto de pesquisa, nova fase de formação que implicou um estágio de pós-doutoramento junto ao departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro. Insistir com o pensamento rizomático – Deleuze e Guattari e seu sistema conceitual – me parecia incongruente nesta terra. Por que atravessar oceanos carregando tantas “bagagens” nas costas?

Desejei que a empiria de minha investigação falasse outras línguas, me vestisse com novas roupas, gestos novos, novos olhares; tudo novo, tão novo! Porém, me foi impossível retira a pele conceitual, impregnada e ativa, que eu já vestia. Mas não apenas isso. Com essas lentes, tão confortáveis e tão minhas, eu conseguia ler, apalpar, pisar esse novo campo; eu conseguia chegar, abordar, abraçar, saborear novos corpos, novos sujeitos. Penso que o que desejei que fosse o novo, era na verdade, o de-novo, a diferença na repetição.

Mas, no que isso implica, basicamente?

Primeiro, ao me encontrar com esse país chamado Portugal, com essa outra língua lusófona – mãe, matriz, da minha própria língua, o português à brasileira – com muitos territórios, geográficos e históricos, que compuseram os cenários de meus encontros com os sujeitos do saber, os primeiros alunos da turma de 2010 do programa doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho; tudo isso muito bem misturado, conectado, percebi que não havia uma única raiz, um único tronco que sustentasse tudo. A dinâmica não era arborescente, simplesmente. Eu pude sim, avistar uma ou outra árvore, uma fixação hierárquica que tentavam conduzir as coisas, mas o horizonte foi sempre muito rizomático. Um pensamento que se fez múltiplo.

Para Deleuze e Guattari, “o rizoma tem muitas formas diversificadas que vão desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubérculos”. (2000; 15). O conceito de rizoma continuou pertinente a essa investigação porque onde há movimento de criação – defendo piamente que o ato de pensar o pensamento, i.e., o ato de pesquisar, exige, tanto quanto a arte e suas práticas, um processo criativo, inventivo – há conexões entre elementos heterogêneos, há sempre possibilidades de linhas de fuga, vir a ser algo ou alguma coisa que não sabe de antemão, que desconhece.

Penso que foi isso que vi nesse lugar, nesse jovem programa doutoral, onde tudo está por vir, onde há uma grande força de se manter em DEVIR, não querendo chegar a nenhum porto seguro, fixo, estabelecido, mas sim, mantendo sua inventividade constante.

Nesse sentido, repito o que havia dito antes, em pesquisa anterior (LIMA, 2004), porque, o que me foi narrado pelos sujeitos e o que me foi possível analisar durante a pesquisa, encontra ecos no pensamento destes criadores.

Um conceito nunca vem sozinho, ele arrasta consigo uma série, um cardume. Esse é o caso do conceito de rizoma. Só ele comporta um coletivo; ao seu lado, revelamos heterogêneses, conexões, redes, a-rupturas significantes, multiplicidades, cartografias, não-decalques, fabulações, perceptos, afectos, planos de imanências, linhas de fuga, dobras, territórios existenciais, processos inventivos, rostidades, corpo sem órgãos, sensações e devires.

Para maior aprofundamento do leitor, em meu exercício de vivenciar o mundo acompanhada desses conceitos, sugiro a leitura de outros dois trabalhos acadêmicos que construir: a dissertação de mestrado intitulada Dramaturgia Pessoal do Ator e a tese de doutoramento intitulada O Teatro ao Alcance do Tato, disponíveis nos link acoplados.

Eu não tenho chão; o que me sustenta, são noções flutuantes com que abraço o mundo, formando uma espécie de rede teórica esticada  me mantendo suspensa no ar.

Considero que disponho de dispositivos e conceitos suficientes para dialogar com as subjetivações dos criadores deste objeto inventado, no desenvolvimento das páginas dessa webcartografia.

Neste percurso, faz-se necessário a exposição do referencial teórico-metodológico que acompanhou este sistema conceitual e o porquê desta escolha, no estudo proposto.

TECENDO OS RASTROS METODOLÓGICOS

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.