Pedro Luís da Cruz Corga de Ramos

Sou uma pessoa organizada, sou casado e tenho um filho. Em termos profissionais, ainda não conseguir encontrar um caminho, que nunca conheci muito certo.
Todos pretendem ir mais além, ainda mais quando têm-se outros encargos e outras atividades. Sempre pensei que para mim, passava pela minha profissionalização acadêmica. Porque hoje em dia as coisas estão complicadas. Estão complicadas com a valorização acadêmica, sem a valorização acadêmica ou algum estudo, imagine. Eu acho que sem essas possibilidades, as coisas tornam-se ainda mais difíceis e pretendo ser doutor um dia. É difícil essa parte, é um bocado complicado e é por isso, que nessa parte é a que vou mais investir neste momento, e espero poder resolvê-la em breve, o mais rápido possível.
Tenho um irmão. Sou filho de dois professores – uma professora do primeiro ciclo e um professor do ensino secundário. Nasci aqui em Aveiro e a minha vida passei aqui, exceto quando fiz um ano de Erasmus em Inglaterra, onde estava a estudar. O meu pai era professor, agora já está reformado, professor de Introdução ao Direito. O meu pai tirou o curso de Direito e depois optou por lecionar. E a minha mãe é professora do primeiro ciclo, durante um período e meio. O meu pai fez uma pós graduação, a muito tempo, mas foi a única coisa de pesquisa que ele teve no âmbito dessa pós graduação. Ele também seguiu funções de presidente de escola, do conselho diretivo, mas em termos de investigação não. No final da carreira, era essa a ocupação dele: gestor de uma escola secundária.
A Aveiro da minha infância é um pouco diferente do que é hoje, embora não tanto, porque Aveiro não é uma cidade muito grande. Mas era um pouquinho mais calmo também. Nos anos oitenta, as coisas já estavam mais ou menos estáveis em termos sociais e econômicos. Com a nossa entrada na União Europeia, o ambiente era relativamente calmo e não havia o stresse de hoje em dia, da crise. Portugal sempre viveu em crise, mas agora é uma crise que envolve as pessoas. Portanto, na minha infância, daquilo que eu me lembro, foi uma infância calma, tranquila.
Porque hoje é complicado. Por exemplo: eu tirei o meu curso em português e inglês e depois eu tirei um curso para ser professor, tal como os meus pais. Mas na minha altura, eu já sabia que teria alguma dificuldade em ser professor, mas não tanto. Só depois que eu saí para a vida ativa é que vi que não havia muitas oportunidades, em termos de ensino. Então, eu continuei a fazer o mestrado e agora estou a fazer o doutoramento para ver.
Eu tive acesso a música. Eu estudei durante muitos anos música. Agora, neste momento, estou um bocadinho parado, mas continuo sempre. O meu irmão é mais ligado a área do desporto, pratica alguns esportes, natação. A área do desporto é a dele. A minha, foi mais a relação com a música.
Meu pai sempre leu muito e tem uma biblioteca razoável. Sempre tive muitos livros a minha volta, portanto, eu cresci no meio dos livros, por assim dizer. E eu também lia bastante, a seguir, o exemplo dos meus pais. Sempre estive habituado a ler textos e tudo. Eu sempre tive aquelas coisas normais, de escritos pessoais. Sempre gostei de escrever.
Na universidade, eu não tive assim muitos grandes percalços, correu tudo normal. Eu cursei a licenciatura na Universidade de Aveiro, em ensino de português e inglês. E não fiz o deslocamento para outra cidade, o que poderia ser vantagem em termos pessoais, lidar com a independência. No caso, eu não tive essa parte, porque sempre estive aqui em casa dos meus pais. O meu mestrado foi cursado também aqui, pela falta de oportunidades.
Quando eu terminei o meu curso, como não tinha outra ocupação, eu saí e terminei o meu estágio em ensino e me escrevi logo no mestrado em Estudos Portugueses e Literatura. Na altura aqui, começou-se dar inglês no primeiro ciclo pras crianças; ensinar inglês pra o primeiro ciclo. Então, eu aproveitei essa oportunidade e acabei numa associação educativa e comecei a dar aulas pras crianças. Aulas de inglês às crianças, era um trabalho um bocado precário, de poucas horas, mas eu consegui criar com o meu mestrado. E ainda hoje eu quero estudar mais e valorizar-me, academicamente, para poder encontrar um terreno mais seguro.
Depois, eu mal terminei o mestrado, na altura, fiquei um pouco a espera, porque sabia que não havia, e que não iam abrir nenhum doutoramento. Portanto, eu já tinha desistido da ideia e então, pensei em ir procurar um doutoramento fora daqui, na Inglaterra, Como eu já lá tinha ido estudar para lá, eu ia tentar procurar um doutoramento lá fora. Entretanto, soube deste programa doutoral em Estudos Culturais e resolvi tentar. Porque a questão principal é sempre a mesma: é tentar encontrar e ter em vista uma estabilidade profissional. Embora eu saiba que, neste momento, é um bocado complicado. Mesmo com doutoramento a competição é muito feroz e é tudo muito complicado; as oportunidades se escasseiam. Mas só iniciei porque eu não consegui encontrar emprego na minha área, como professor, então, fui sempre tentando valorizar-me academicamente, para tentar outras coisas.
Dá-me sempre um sentimento de que eu estou a estudar isto para que me leve a um melhor futuro financeiramente e mais estável e outro uma vontade de criar e de fazer coisas diferentes que não tenham propriamente haver com o estudo acadêmico, com investigação. Embora, também eu tenha sentido que um caminho de investigação também me pode ajudar Não sei de que forma, mas também poderá preparar-me para outras atividades que tenham mais para o lado criativo. E os Estudos Culturais, um pouco do espírito dos Estudos Culturais é esse, segundo o que eu entendi, porque eu antes nem sequer sabia que existia essa área.
A minha formação em literatura e depois o caminho que eu escolhi, acho que não vai ajudar muito nisso. Por exemplo, se fossem implicações que existem e se envolvessem mais o campo, mais a vida real, das indústrias criativas ou em termos políticos ou em termos socioculturais. O caminho que eu escolhi pro meu doutoramento é um pouco como me agarrar por baixo da literatura, embora, eu saiba que com os Estudos Culturais, eu posso fazer uma coisa diferente. Eu posso pegar numa literatura e analisá-la de uma forma distinta. Porém, os esclarecimentos nunca são muitos e eu tenho uma impressão que somos um pouco virgens nessa questão toda. Portanto, deve ser um bocado mais complicado. Essa é uma das coisas que eu vejo neste programa doutoral.
A escrita da tese é uma escrita muito exigente, mas muito recompensadora, sim. Aliás, eu já na minha tese de mestrado, tentei fazer a mesma coisa. Eu acho que eu não conseguiria pensar a investigação sem este espírito tal qual dos Estudos Culturais. Eu não consigo pensar a investigação como uma coisa que não pense em par. As investigações literárias ficam um bocado desprovidas de alma, de sentimento, e acho que isto tem de se achar na escrita. O investigador tem que por lá a sua alma. E às vezes nessas teses são um pouco de combinações de estudos assim, muito frios, questões técnicas, questões relacionadas com a linguística, coisas que na minha perspectiva, enquanto investigador, não me chamou tanto a atenção. Os Estudos Culturais, acho que dá essa liberdade.
Wlad Lima e Pedro Corga em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Pedro Corga em entrevista na cidade de Aveiro.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.