Margaret Costa Seabra Gomes

Eu gostaria de pensar que sou uma mistura de muitas “Mags”! Eu acho! Eu acho que as pessoas, muitas vezes, principalmente, em Portugal, as mulheres portuguesas, não querendo generalizar, definem-se muito como esposas ou como mães. Eu acho que eu sou esposa, sim, e sou mãe, mas também, sou profissional, sou amante de música, sou bem disposta, sou uma pessoa otimista, sou uma pessoa que encara o futuro da melhor forma possível, de forma muito positiva. Não gosto de guardar rancor a ninguém. Há problemas, todos nós temos problemas, temos que os relativizar. Acabo por ser um híbrido dessas personalidades todas.
Eu sou filha única. Os meus pais são portugueses. São de uma pequena aldeia que fica a 5km de uma cidade que se chama Mealhada, cerca de 30km daqui de Aveiro. O meu pai imigrou em 1966 para Inglaterra. Ele trabalhava na indústria hoteleira em Lisboa. Quando ele era bastante novo foi trabalhar para um hotel, de um tio, em Coimbra. De Coimbra foi para Lisboa e lá, arranjou emprego em um hotel. Disseram-lhe que ele teria alguma ajuda, ou melhores possibilidades para ser recepcionista do hotel, se ele soubesse línguas, principalmente o Inglês. Ele namorava com a minha mãe, na altura, e foi aprender inglês durante 6 (seis) meses para Inglaterra. A minha mãe era uma pessoa que trabalhava muito. Tanto um como outro, são de origens humildes e tem ambos, só a escola primária. Tudo que eles têm foi por esforço próprio. Eles namoravam e a minha mãe em 1967 foi para Londres ter com meu pai. Depois de casaram e eu nasci em 1969. Ah, sou filha única.
Os meus pais como pessoas que nunca tiveram a hipótese de estudar, queriam dar a filha, as hipóteses que nunca tiveram! Eu tive a felicidade de ter uns pais que queriam um pouco mais para mim e que disseram que iriam me dar suporte, enquanto eu pudesse e quisesse estudar. Portanto, fizeram, os possíveis e os impossíveis, para me dar educação na Inglaterra. Vivi na Inglaterra, um pouco à margem de qualquer sociedade. Por que quando nós somos filhos de imigrantes, vivemos a vida do país onde estamos, onde vivemos, durante o dia, na escola, e depois, vivemos à cultura de nossos pais em casa. Portanto, eu nunca me senti 100% portuguesa, por que tinha aquela costela inglesa, mas, também, nunca me sentia 100% inglesa, por que tinha aquela costela portuguesa dos meus pais. Acho que hoje, tenho e sinto isso como uma mais valia! Mas, na altura, não sentia que pertencia a 100%! Mas, tive uma infância feliz e com muitos amigos. Ah, e com muitos desafios!
Tenho uma mãe que é uma força da natureza! Tenho uma mãe que tem a 4ªclasse, quando foi para a Inglaterra, mal sabia ler e escrever, pronto! Quando vínhamos cá de férias, comprava livros e fazia ditados e me ensinava o pouco que sabia. Quando comecei na escola portuguesa, já sabia ler e escrever em português – escola que o próprio governo português oferecia na Inglaterra para os filhos de imigrantes. Ao fim de duas semanas, a minha mãe foi lá chamada, por que eu não devia estar na 1ª classe, devia estar na 3ª classe! Portanto, os meus pais, não tendo esse estímulo aqui, lá conseguiram dar-me esse estímulo e conseguiram levar-me sempre a bibliotecas. Eu ia todos os fins de semana buscar livros na biblioteca. E sempre tive esse ambiente de estímulo, de amor pelo estudo e da importância do estudo.
Eu vim para Portugal em 1992 e pouco tempo depois, os meus pais se divorciaram. Meu pai continua lá em Inglaterra, a trabalhar. Tem 70 anos e supostamente, já devia estar reformado, mas gosta muito de trabalhar e continua a trabalhar. A minha mãe, há três anos veio para Portugal e está a conseguir tirar proveito do trabalho que teve como imigrante na Inglaterra.
Eu sempre cresci querendo ser médica. Portanto, eu fiz especialização na área das ciências. Entretanto, tive alguns professores, que, por estranho que pareça, chamavam lá a minha mãe e a dizer, ‘acho que a “Mag” dever ter jeito para o ensino e acho que ela deveria ir para o ensino’. E eu pensava, ‘nem pensar, Deus me livre! Ensinar nunca! Ser professora nunca!’ Pronto! Eu não tinha notas altas para entrar em Medicina. Acabei por entrar em um curso que tem uma designação um bocado esquisita, que se chama Biologia Humana. O mais equivalente aqui em Portugal seriam as Ciências Biomédicas. Eu acabei recebendo a equivalência em Ciências Biomédicas. Entretanto, optei, não sei muito bem por que, fazer uma Pós-Graduação em Ensino de Biologia e Química. Algo me chamou para o ensino. Decidi que já não queria fazer o ensino e que já queria fazer uma pós-graduação e fiz! Ao fim desta pós-graduação tinha estágio incorporado. Estava a lecionar aulas de Biologia e Química numa escola, numa área um bocado complicada em Londres. Então, fiz um curso para dar aulas de Inglês como língua estrangeira. Depois disso tudo, eu optei em novembro de 1992 de vir pra cá durante uns meses, pra ver como é que as coisas seriam aqui em Portugal. E comecei a namorar o meu marido e pensei, ‘Ah! Vamos dar mais 6 meses e vamos ver o quê que isto dá’. E já lá vão 21 anos! Acabei no ensino, assim, muito esquisito.
Cheguei a Portugal ao fim de novembro de 1992, e pra aí, a 3 de janeiro, eu comecei a trabalhar no ensino. Por que apesar de falar português, o português não é a minha língua-mãe! Não é a língua em que eu penso, não é a língua que eu me exprimo melhor. Optei por começar a dar aulas de Inglês. Comecei a entregar currículos nas escolas de línguas em Coimbra, em Aveiro. Fui chamada quase em imediato em escolas particulares. Eu trabalhei durante 6 (seis) anos, em tempo inteiro, com um padrão em Inglês, porque o lugar que eu trabalhei era uma escola inglesa, com pessoas inglesas.
Muito complicado viver em Portugal. Pensei que seria fácil. Falava a língua mais ou menos, tinha cá família, tinha cá os meus avós maternos. Os avós paternos já tinham falecido. Eu não sou inglesa a 100%, mas, também, não sou portuguesa a 100%! E se tivesse que escolher ali na balança, sou capaz de ter mais influência do Anglo-saxônico, do que do Português. Por que foi a cultura toda em que estava inserida. Eu vim pra cá e realmente, eu tenho uma maneira muito diferente de ser, de estar e de lidar com as pessoas, e que é uma coisa muito diferente que a cultura daqui. E eu pensava que conseguia me ambientar com muita facilidade. Realmente, a cultura é uma coisa muito estranha! Por que mesmo sendo filha de portugueses, eu vi que havia uma distância muito grande entre a minha maneira de ser e a maneira de ser da população portuguesa.
Eu comecei nas ciências, fiz licenciatura e pós-graduação na área das ciências. Fiz mestrado na área de Estudos Ingleses e agora estou a fazer doutoramento na área dos Estudos Culturais. Eu estou aqui meio perdida, ainda não sei muito bem para onde é que irei de me virar! Mas o doutoramento em Estudos Culturais, faz-me pensar e refletir bastante sobre o comportamento das pessoas, e quão egocêntricos nós somos, quando vivemos no nosso país! Eu acho que há aquelas teorias que dizem que nós nos sentimos bem, mas depois nós nos sentimos muito mal; sentimos que não estamos bem inseridos, mas depois, lá vem um momento em que não! Eu acho que são como “ondinhas”, não é?!
Dou muita importância ao lar e a família. Eu trabalho para viver e não vivo para trabalhar! Trabalho para conseguir sustentar a minha família e ter bons momentos com a minha família e os meus amigos. Sou casada, tive a minha filha – agora com 15 anos – e o meu filho miúdo. Não tenho grandes ambições de chegar a Chefe de Departamento ou a Reitor da Universidade. Não é isso! Eu quero trabalhar e ter gosto naquilo que faço. Eu sou muito sincera, gosto de fazer investigação, mas o meu verdadeiro prazer é estar na sala de aula com os alunos! Portanto, desejo ter um emprego que me forneça o dinheiro suficiente para viver razoavelmente, ter algum conforto na vida. Gostaria mesmo de chegar a Professora Auxiliar, um dia, com doutoramento.
Meu trabalho de doutoramento é sobre como os alunos utilizam o Inglês no discurso português deles. Meu tema no mestrado foi sobre a aquisição de empréstimos ingleses por universitários portugueses. A utilização de anglicismos nos discursos nativo dos meus alunos. Foi um estudo mais limitado, mas pra mim, a investigação é sempre sobre eles. A investigação melhora o desempenho deles na sala de aula e a minha relação com eles. E isso, abriu um leque! Estou a fazer um estudo que é desenvolvimento do meu mestrado, na área de identidade, de identidade jovem e como é que o Inglês é utilizado como forma de afirmar a sua identidade.
Wlad Lima e Margaret Gomes em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Margaret Gomes em entrevista na cidade de Aveiro.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.