TECENDO RASTROS METODOLÓGICOS

O escritor Gonçalo M. Tavares, indutor poética da pesquisa.

Tu não usas uma metodologia. Tu és a metodologia que usas.

Há que se assumi que houve um referencial metodológico correndo diretamente na paralela da prática de campo e na fabulação dos dados; influenciando a vivência empírica da pesquisadora, o vislumbramento futuro da escrita do documento digital final, e especificamente, dirigindo a “encenação” dos perfis culturais dos primeiros pesquisadores (os implicantes) e as primeiras impressões ténues de suas escrituras (as implicadas) do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho em Portugal. Afinal, a autora dessa webcartografia é uma artista-pesquisadora amazônida, mais localmente, da cidade de Belém do Pará, parte oriental da Amazônia Brasileira, que se encontra, ainda, no agenciamento (no entre) provocado e provocando uma espécie de pesquisa-intervenção na gnose dessa fabulação (a falível relação sujeito\objeto).

A metodologia, inicialmente proposta, se configurou como uma Cartografia Inventiva baseada, pontualmente, pelas Quatro Variedades de Visão do Cartógrafo de Virgínia Kastrup balizada por conexões intermitentes com as séries conceituais que compõem o rizoma e a fabulação de Gilles Deleuze e Félix Guattari, arcabouço teórico fundante das construções poético-acadêmicas – dissertação de mestrado e tese de doutorado – impregnado e impregnante na pesquisadora.

Como artista-pesquisadora de teatro que sou, me visto como uma cartógrafa, ou melhor, uma webcartógrafa – entre tantas personas in pele passíveis de serem assumidas. É essa máscara epistemológica que organiza a construção metodológica na empiria da pesquisa, na habitação de um território existencial (locus), na implicação com os sujeitos e na ativação de minha problematização investigativa na perspectiva de uma escrita digital, online, hiperlinkada que, estrategicamente, altera toda a maneira de comunicar suas dobras, perceptos e afectos.

As quatro variedades de atenção como pista ao método da (web)cartografia.

Virgínia Kastrup, inspiradora no exercício cartográfico.

Processei minha construção metodológica em quatro variedades de atenção segundo pistas desenvolvidas por Virgínia Kastrup. São essas as minhas variedades de atenção como pesquisadora: o rastreio que implicou saber quem estava inscrito no doutoramento referente a primeira turma (2010). Quis saber onde moravam, como me comunicar com eles e qual seria a disponibilidade de participarem da pesquisa, via entrevistas, i. e. fiz um “um gesto de varredura do campo. Pode-se dizer que a atenção que rastreia visa uma espécie de meta ou alvo móvel. Para o cartógrafo o importante é a localização de pistas, de signos de processualidade.” (KASTRUP, 2011, pág. 40); o toque significou me encontrar com cada um deles, em lugares que eles concordassem em me receber. Ora no trabalho, em um café de sua cidade, mas nunca em suas casas. Alguns preferiram vir até mim, a minha casa, i.e. abrir margem para algo ganhasse “importância no desenvolvimento de uma pesquisa de campo revela[ando] que esta possui múltiplas entradas e não segue um caminho unidirecional para chegar a um fim determinado.” (KASTRUP, 2011, pág. 43); o pouso foi um debruçar sobre os depoimentos de cada um, na construção, ou melhor, na ficcionalização de perfis culturais – digo ficcionalização porque a partir dos relatos de uma escuta sensível, cortei, remontei e colei fragmentos compondo um novo corpo, resultante de minha ação, de meu performar, de minha invenção. Organizei, dados (re)construídos, por bloco de sensações, revelando meus perceptos e afectos em fabulação constante, i.e., o “gesto que indica que a percepção, seja ela visual, auditiva ou outra, realiza uma parada e o campo se fecha, numa espécie de zoom. Um novo território se forma, o campo de observação se reconfigura. A atenção muda de escala” (KASTRUP, 2011, pág. 43); e o reconhecimento atento tomou a pesquisa e a transviu em uma escrita implicada na mínima vida, porém intensamente existencial, vivida com os doutorandos portugueses na contemporaneidade dos Estudos Culturais (vivemos momentos curtíssimos, cheios de vida; entre eles e eu, pura vida, pura invenção), i. e. “o que fazemos quando somos atraídos por algo que obriga o pouso da atenção e exige a reconfiguração do território da observação? Se perguntamos “o que é isto?, saímos da suspensão e retornamos ao regime da recognição (KASTRUP, 2011, pág. 44).

Comunicar modos de fazer

Necessito comunicar o quanto foi profundo o segundo movimento, o toque, no viver dessa pesquisa. Significou considerar o doutoramento como uma aventura heroica e os doutorandos e doutorandas, como heróis e heroínas. Ir ao encontro de cada um dos sujeitos ensaiantes (28 doutorandos entrevistados de um corpus de 40) e com cada um deles, viver entre-vistas aventurosa. Sim, assumidamente assim, escrevo entre-vistas! Pesquisar no entre de nossos modos de pensamentos.

Na atenção o reconhecimento de aventuras heróicas.

Para as nossas entre-vistas, foram tramadas por mim, perguntas disparadoras. Considerei o contexto do doutoramento, em dimensão onírica, como uma aventura heroica, i.e., cada um como herói e heroína de uma aventura do conhecimento. Então intuir dar uma caprichada no meu toque, colocando-me sob as influências de Joseph Campbell, mitólogo estadunidense que reconstruiu o que chamou de trajetória do herói mitológico.  O trabalho de Campbell não teve somente a base grega, mas traços expoentes em diferentes mitologias culturais.

A obra de Joseph Campbell inspiradora da pesquisa em questão foi o livro “O herói de mil faces”. A obra foi publicada em 1949, defendendo a tese de que, em todas as histórias existe um herói e sua narrativa gira em torno de peripécias heroicas. A narrativa é composta por uma série de eventos – doze no total – que demonstram que o personagem central é um herói. Por tudo isso, nessa pesquisa, coloquei seu pensamento heróico como sombra, um assombramento que me seguiu.

Propôs uma estrutura através de etapas narrativas. Para esta pesquisa desenvolvi um roteiro, mais ou menos análogo ao de Campbell. Adaptei-o à realidade estudada – e ao meu universo artístico\cultural de base, o teatro – na perspectiva de construir o que em minha pesquisa denomino de perfil cultural. Apesar de trabalhar com apenas algumas etapas narrativas propostas por Campbell, estas já foram suficientes para o foco em questão – o exercício de se fazer doutor nos Estudos Culturais em Portugal.

O Roteiro da Entre-vista.

Etapas que propus para o objeto em questão: – O Cotidiano ( o herói é apresentado em seu dia-a-dia. O seu espaço de sua nascença e os habitantes desses espaços. Sua trajetória de vida e de formação); – Chamado à aventura (a rotina do herói precisa ser quebrada por algo. O peito de nosso herói clama, seja utópica ou materialmente, por alguma coisa. Como e porque ele decide se inscrever no doutoramento, suas expectativas); – Recusa ao chamado (mesmo sentido o chamado, o herói talvez prefira continuar sua vida como está, ou já intui o que o espera e pensa: tenho forças para o enfrentamento?);– Travessia do Portão Férreo (o ingressar do herói num novo mundo, o programa de Estudos Culturais. O encontro com a turma, os conteúdos, os docentes, a organização do curso); – Testes, aliados e inimigos (os heróis enfrentam os primeiros e pequenos testes – tarefas das disciplinas – e enfrentam o grande teste: a preparação do projeto de pesquisa a ser defendido publicamente – seus objetivos, metodologia, referenciais teóricos etc.).

Para tudo! Sempre haverá que se ter tempo para o jogo.

Quero fazer uma pausa na comunicação desse roteiro construído, ou melhor, uma linha de fuga no fio condutor de minha .

Bem aqui, no meio das entre-vistas, sempre foi possível propor um jogo com o herói-interlocutor, a partir de uma questão importante para Joseph Campbell e para mim: o herói nunca está sozinho numa aventura!

Quem acompanha o herói?

Quem são os seus aliados?

Quem são seus inimigos?

Na hora do jogo, era importante esclarecer para o entrevistado que os personagens que seriam convocados à cena poderiam representar pessoas, coisas, situações; dentro ou fora de cada um.

Os personagens foram: o mentor, o guardião, os aliados, o vira-casaca, o inimigo, os adversários, o bufão e o vilão.

Qualquer entrevistador seguindo esse roteiro poderá perguntar: quem é o seu mentor no doutoramento? Quem faz o papel de guardião para você enquanto você faz o doutoramento? Quem são seus aliados… E assim por diante.

De volta ao roteiro.

– A Caverna profunda (o herói se retira do mundo cotidiano. Ele está só. É hora de organizar as armas, pensar estratégias, construir táticas. É hora de encontrar as publicações mais atualizadas na vizinhança de seu tema, objeto; é hora de ler muito, fazer escolhas conceituais, ganhar sentidos; é hora de encontrar referenciais metodológicos, preparar os instrumentos de pesquisa, ir a campo, enfrentar seus sujeitos; é hora de ter um vislumbramento de processos de organização de dados e análise. A escrita está perto, mas ainda não está. Mas precisa ser ensaiada a cada passo); – Provação máxima (o herói tão cheio de ideias agora precisa escrever, enfrentar a folha em branco, a tela do computador. Precisa rabiscar e compartilhar a escrita com o (a) seu (sua) orientador (a). É preciso, não tem como fugir, o tempo urge); – Conquista da recompensa (após concluir a escrita, obter a aprovação da orientação, o herói se prepara e faz sua defesa publica. Há a recompensa do descanso após batalha. A tese está concluída e o herói pode voltar a vida do dia-a-dia. Vitória!); – Caminho de volta \ a transformação (o herói volta transformado. Agora ele comunica seus feitos, encontra seus ouvintes. Poderá preparar outros para as aventuras heroicas).

Um fim sem fim.

Gosto de pensar que essa metodologia de entrevistar sob a influência do mito do herói – sua trajetória – muito me ajudou à uma melhor organização dos dados produzidos, cuja fontes são as próprias entrevistas. Uma “enformação” com os dados e não “informação” dos dados. Enformação por blocos de fabulação. Desejei “facilitar” etapas posteriores de pesquisa (descrição e análises dos mesmos).  Me fazer acontecimento, me fazer presente na vida desses investigadores, através desse procedimento metodológico, foi fundamental, tanto no meu processo empírico – construído com 17 mulheres e 11 homens (os doutorandos) – quanto para o meu desenvolvimento acadêmico na dimensão da criação.

Apresentei de forma sintética a prática metodológica empregada na construção cartográfica dessa investigação intitulada Uma Webcartografia dos Estudos Culturais em Portugal, planejada, antecipadamente, via plano de pesquisa intitulado IMPLICANTES E IMPLICADAS: Uma cartografia epistemológica inventiva com os primeiros pesquisadores – e suas escrituras – do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho (Portugal) no agenciar de uma artista-pesquisadora amazônida (Brasil), apresentado a supervisora do estágio de pós-doutoramento, a professora doutora Maria Manuel Baptista, bem como, ao departamento de Línguas e Cultura e ao Conselho Científico da Universidade de Aveiro.

Com esta webcartografia respondi ao meu próprio desejo (muito velho, esse desejo) de ficcionalizar a vida dos sujeitos do conhecimento, eles sim, criadores de mundos.

Webcartografar é inventar abordagens lúdicas

Para ler PERFIS COSTURADOS siga o link.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.