Rotas das Aventuras

Estas rotas das aventuras foram construídas em dois grandes blocos: o primeiro quer ler o doutoramento em seu aspecto operacional, i. e., quem são os autores, seus temas, seus orientadores e sobre todas  as políticas que margeiam suas realizações. Na segunda parte são expostos alguns fragmentos recortados dos perfis, na tentativa de compor um retrato, não propriamente fiel, mas sim, propositadamente armado para transportar o leitor às questões íntimas dos doutorandos em relação a esse período de suas vidas embaido de aventuras, tanto delicadas quanto dolorosas.

Para iniciar esse primeiro bloco, me permiti começar pelo final, mapeando as previsões de encerramento dessas aventuras. Até a data em que redijo essa página, construindo as rotas de minha leitura dos encontros com os primeiros doutores dos Estudos Culturais em Portugal, especificamente, das rotas das aventuras – aqui, aventura é compreendida como sinônimo ao ato de fazer o doutoramento – tive o privilégio de assistir as defesas de quatro novos doutores em Cultural Studies.

Começo o mapeamento, identificando essas primeiras teses, seus respectivos autores e orientadores, defendidas em 2014:

Retratos de Família: a Identidade Nacional e a Violência em João Canijo, de autoria de Daniel Ribas, sob orientação das, Profª. Drª. Carolin Overhoff Ferreira e Profª. Drª. Maria Manuel Baptista.

Velhice na cultura contemporânea: um estudo sobre a perda emocional profunda, de autoria de Jenny Gil, sob orientação da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista.

Políticas Culturais: um olhar transversal pela janela-ecrã de Serralves, de autoria de Manuel Gama, sob orientação do Prof. Dr. Luiz Mourão.

Realismo e Lirismo em Terra Sonâmbula, de Mia Couto, e Chuva Braba, de Manuel Lopes, de Anônimo (MJCM) sob orientação do Prof. Dr. Manuel Ferreira.

A transfiguração da cultura popular pelas novas tecnologias: o concelho do Sabugal em tempos de mudança, de Anônima (AGF) sob a orientação do  Prof. Dr. Jean-Martin Rabot.

A partir da apresentação das cinco primeiras teses, passo a expor, porém, com certo inacabamento assumido, o tema dessas investigações – visto que o tempo age, e sempre agirá sobre as pesquisas, modificando-as, e muitas vezes provocando sobre elas, pontos de fuga, arrebatando-as para longe do que aqui está exposto.

Os temas e seus referidos recortes, desenhados pelos doutorandos como objetos de suas investigações, serão por mim abrigados em torno do critério de orientação. Esse critério escolhido pode parecer  muito concentrado sobre uma das pessoas da coordenação, porém tive a possibilidade de perceber uma maior distribuição de orientados, das turmas subsequentes, entre os orientadores que foram se integrando, mais e melhor, nas propostas epitemológicas e metodológicas dos Estudos Culturais. Um grupo maior de orientadores ativos no curso, alcançado no decorrer dos anos, foi sem dúvida um reflexo do trabalho, intencional e insistente, realizado por parte da coordenação.

Sob a orientação da Profª. Drª. Maria Manuel, temos os seguintes temas e autores:

Os Ensaios de Antônio Cândido e Eduardo Lourenço: relações entre as palavras literárias e filosóficas, autoria de Anne Ventura.

Enoturismo na região do Douro, autoria de Adriana Brambilla.

A influência de Pascal nos aspectos estéticos da obra de Eduardo Lourenço, autoria de Dulce Martinho.

As representações das mulheres no jornal impresso de Ílhavo na década de 50, autoria de Sara Vidal.

As políticas Culturais das Câmaras Municipais de Trás-dos-montes: o patrimônio cultural das mouras e mouros, autoria de Jenny Campos.

O comportamento filosófico do texto literário de Mia Couto e Leonardo Pandura: seus modos filosóficos de ser, autoria de João Hespanhol.

Turismo Cultural no Brasil: rotas da tapioca em Fortaleza, autoria de Uiara Martins.

As Políticas Culturais da União Européia na promoção das Indústrias Criativas, Empreendedorismo Cultural e Formação de Jovens Empreendedores: o caso da fabrica Olivia em São João da madeira, autoria de Suzana Menezes.

Políticas Públicas de Educação para a União Européia – os Tratados, especial, o Tratado de Lisboa, autoria de Anônimo (AMMAK).

As representações das religiões nas matérias jornalísticas entre 12 de setembro de 2001 e 11 de setembro de 2010, autoria de Simão da Silva.

O Movimento Mutualista e seus valores em Portugal, autoria de Anônimo (ACVR).

A Lusoplástia: elementos plásticos comuns entre as poéticas de artistas de países lusófonos, autoria de Pedro Lapa.

 Sob orientação da Profª. Drª. Gilliam Moreira:

A utilização do inglês no discurso dos alunos portugueses da UA: o inglês na afirmação da identidade jovem, autoria de Margaret Gomes.

Representação das mulheres em textos humorísticos disponibilizados na web e recebidos em sua caixa de e-mail, autoria de Joana Ribeiro.

Feiras Medievais: representações ou encenações inventadas como tradições portuguesas pelo turismo e os médias?, autoria de Timothy Oswald.

Sob orientação da Profª. Drª. Maria Cristina Carrington:

Andreas Hofer e o imaginário popular construído sobre esse herói nacional em Tirol, Áustria, autoria de Fátima Pais.

Análise da obra de Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, publicada em 2010 – o percusso identitário do personagem principal – Bloom – reflete a contemporaneidade e identidade – análise textual tática, autoria de Pedro Corga.

Sob diferentes orientações, temas e autores:

Construções Identitárias nas edições locais, institucionais ou não, de Torres Novas, autoria de Margarida Moleiro, sob a orientação do Prof. Dr. Jean Rabot.

Tecnologia dos Pipelines: o sistema hidráulico do povo Árabe na cultura agrícola de Fermentelos \ grande Aveiro, autoria de Pedro Rui, sob orientação do Prof. Dr. Nuno Rosmaninho

A construção da cidadania européia a partir da segunda guerra mundial e sua representação nos currículos do ensino secundário, autoria de Maria Goreti, sob orientação do Prof. Dr. Anthony Barker.

O patrimônio de equipamentos e serviços culturais de Póvoa de Varzin, públicos e privados, entre os anos de 1934 \1990 e as suas influências na vida cultural da cidade, autoria de Manuel Costa, sob orientação do Prof. Dr. Albertino Gonçalvez.

A dramaturgia do Teatro Contemporâneo: Marcos Barbosa do Brasil e Alberto Alvim de Portugal, autoria de Anônimo (PFMJ), sob orientação do Prof. Dr. Moisés de Lemos Martins.

Outro aspecto a ser destacado no mapeamento da turma de 2010, quanto a aventura do doutorado, foi o deslocamento de doutorandos egressos do  antigo e extinto Curso Doutoral em Cultura, sob a gestão da Universidade de Aveiro. É sempre bom reiterar que o PDEC – Programa Doutoral em Estudos Culturais – é  ação integrada entre as Universidade de Aveiro e a Universidade do Minho, implementando ao norte de Portugal, após a adoção do Sistema Bolonha de Educação para os níveis, superior e a pós-graduação no país, levando a extinção de muitos e diferentes cursos, como o caso do referido doutoramento em Cultura da UA.

Os doutorandos integrados aos Estudos Culturais, oriundos do antigo doutoramento em Cultura, foram: Anônimo (AMMAK), Anne Ventura, Daniel Ribas, Dulce Martinho, João Hespanhol, Margaret Gomes,  Timothy Oswald e Uiara Martins. Penso ser importante ainda, registrar que outros 32 (trinta e dois) alunos-investigadores se inscreveram no novo doutoramento em Estudos Culturais, no primeiro ano de 2010, que somados com os 8 (oito) egressos do doutoramento extinto, atingiram o número de 40 (quarenta) alunos naquela turma. Reafirmar que no corpo de minha pesquisa, os dados quantitativos são os seguintes: contactados, o total dos 40 (quarenta) alunos; responderam a pesquisa, 30 (trinta) doutorandos; entrevistados, 28 (vinte oito) alunos-investigadores; publicados nessa webcartografia, 27 (vinte sete) heróis.

Estão previstas para serem depositadas na UA, até dezembro de 2014, as teses de João Hespanhol e Anne Ventura, ambas sob orientação da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. As demais teses dos outros 21 doutorandos aqui cartografados, estão sem previsão de datas, até este momento, para as suas defesas públicas. Creio que essa questão está relacionada à diferentes fatores, e sobre eles, preciso refletir nessa cartografia.

É notório o fato de que os quatros primeiros doutores – e mais agora a autora da nova tese já depositada na UMINHO – são os primeiros a defender, porque são todos docentes: três, junto a Institutos Politécnicos e dois, junto a Universidades. É sabido que pela pressão do governo sobre os Institutos Politécnicos para o aumento de doutores em seus quadros docentes, estas instituições adotaram uma política de incentivo aos seus professores para a titulação de doutores. O mesmo ocorre com as Universidades, principalmente as públicas, não somente em Portugal, ou mesmo Europa, mas também em diferentes países do globo. A diferença é que nas universidades, o título de doutor, implica em melhorias salariais.

Já nas escolas, primárias e secundárias, o quadro é bem diferente. À essas instituições, muito pouco interessa, incentivar a obtenção de títulos de altos estudos. Muito pelo contrário! Há uma clara ação política de anti-entusiasmo à pós-graduação, principalmente, ao nível de doutoramento.

Quanto aos doutorandos ligados ao funcionalismo público, como no caso, dos que trabalham junto as Câmaras Municipais – a maioria exercendo altos cargos – uma certa autonomia e auto gerenciamento de carreira, tornar possível que suas investigações sejam atreladas aos interesses da política de gestão onde estão a trabalhar. Sob meu prisma, essa articulação entre objetos de pesquisa e funções institucionais, prospectiva potências práticas de intervenção real e de rápida absorção dos frutos colhidos nesses estudos dentro das políticas culturais do país.

Para concluir essa primeira parte das rotas das aventuras, mapeio um último grupo de doutorandos: os bolseiros\bolsistas. É fato que esse grupo, além desse “emprego científico” temporário,  possuem poucas, ou quiçá, nenhuma perspectiva de entrada no atual “mercado da produção acadêmica”, atuando como professores-investigadores. Por isso, todos os doutorandos do grupo dos bolseiros\bolsistas, procuram dilatar, o quanto conseguirem, os prazos  para execução de suas investigações, frente as agências de fomento à pesquisa – FCT e CAPES – como uma estratégia de sobrevivência e espera de dias melhores.

Para aprofundar essa questão do doutoramento, abro a segunda parte dessa página das rotas das aventuras trazendo a cena de minha escrita, alguns fragmentos dos relatos dos doutorandos da turma de 2010 – fragmentos que compõem os perfis costurados – referentes as sensações e descobertas sobre a profissão científica, o doutoramento, os objetos de pesquisa, situações particulares que os ajudaram a manter a reflexão sempre renovada sobre si mesmos e sobre o mundo. Esses relatos são importantes para uma melhor construção da reflexão iniciada no primeiro bloco. Vamos le-los com mais atenção, em uma atitude de escuta sensível, novamente disparada.

Sobre a profissão científica:

Eu fiz letras por conta de estar perto do objeto que me atraia, a literatura, o livro. E assim também foi com o mestrado. Mas depois acabei me envolvendo com pesquisa, que era outra forma que eu encontrei também de estar perto daquilo que eu gosto; ganhar a vida com isso. Fiz iniciação científica na Universidade Federal do Espírito Santo, com o professor Alexandre Moraes, que me acolheu e me fez descobrir que é possível ganhar dinheiro estudando; passar o dia inteiro lendo (Anne Ventura).

Sobre o estado de bolseira\bolsista:

Eu tive a felicidade de ter a bolsa e poder estar a fazer o doutoramento, porque era um dos meus objetivos de vida profissional. Portanto, quando tive a bolsa foi realmente um momento muito importante, porque me permite ter o tempo suficiente pra poder trabalhar com calma e ter as ideias no sítio (Sara Vidal).

Agora estou dedicada totalmente à investigação, porque tenho a bolsa (Anne Ventura).

Sobre o estado de ser aluna-trabalhadora:

Eu estou numa fase do doutoramento que eu precisava de tempo, mas não posso porque tenho que trabalhar, eu vivo do meu trabalho. Eu sempre fui, aqui em Portugal, o que se chama estudante-trabalhador, sempre trabalhei e estudei ao mesmo tempo. Enfim, gostava de ter tempo pra me dedicar de fato ao doutoramento. Mas meu principal orgulho é pensar que 10 anos atrás eu não sabia 90% destas coisas, isso é o mais fascinante. Aliás, a minha medida hoje é  ir a uma livraria boa e olhar pra aqueles autores e pensar que muitos deles me são familiares. Eu sei que aquele autor é da sociologia, da psicologia, da filosofia, escreveu isto e escreveu aquilo. Há 20 anos, se eu entrasse na mesma livraria, os autores todos eram pra mim desconhecidos (Dulce Martinho).

Sobre os objetos de  investigação:

Quando as crianças dizem, eu quero ser medido, eu quero ser bombeiro, eu quero ser professora, eu nunca disse: eu quero ser investigadora. Mas quando eu comecei a ter noção de que poderia ser uma área que eu poderia seguir, eu dizia: eu gostava de investigar, que é diferente de ser investigador, não é. E eu dizia: eu gostava de investigar, só que em qualquer coisa, ou trabalhar ou seguir uma carreira qualquer ligada ao ensino superior, porque era essa a ideia que nos davam, que para ser investigadora tínhamos que estar ligados ao ensino superior, de alguma forma, então eu tinha essa ideia, desde muito cedo, desde do tempo que eu passei na escola secundária e nos primeiros anos da faculdade. Mais também nunca fechei muito a minha mente. Eu não consigo dizer que tenho um tema ou uma área específica que eu goste, eu gosto é desta área das Humanidades, eu gosto é desta área da Sociologia, eu gosto do casamento que as duas fazem que é perfeito. Mas a área específica… Vou agora fazer estudos de género (Sara Vidal).

Quando decidi entrar na área da cultura, aquilo que eu pensei foi é uma oportunidade deu valorizar e deixar o meu trabalho do turismo menos prático, A cultura é muito importante, mas pra ela ter importância, ela também tem que ter esse planejamento econômico. Eu sempre quis trabalhar com as coisas muito bem fundidas e pra mim o tema central era criar um modelo de rota gastronômica. E eu quero fazer no Brasil porque é o lugar que eu vou voltar pra trabalhar. Você cria uma rota fundamentada e depois você vende como um produto. Não tem ninguém até hoje que criou um modelo conceitual de rota gastronômica. Nem no Brasil e nem em nenhum lugar (Uiara Martins).

Para voltar ao contexto da minha primeira reflexão acadêmica sobre a instituição Europa, no mestrado, o estabelecimento de um discurso crítico, na altura, foi muito mal definido. Muito mal recebido por todos os pares que eu procurei no sentido de darem contributos, quer mais científicos ou mais políticos ou mais ideológicos em face de meu ensejo de refletir sobre a Europa, enquanto instituição transnacional ou supranacional. E eu dei-me conta, na altura, que realmente mesmo do ponto de vista acadêmico, realmente, a crise mundial veio recolocar completamente os discursos, quer acadêmico, quer político, e quando digo político, congrego aqui uma dimensão ideológica, uma dimensão também econômica, financeira etc. De repente o meu questionamento inicial passou a encontrar um fundamento, mas isso também complexificou muito a minha pesquisa para o doutoramento, ou seja, desde o início da definição do meu projeto até a maturação do projeto, o mundo a volta mudou de tal maneira. Portugal, neste momento, não é uma nação soberana, no sentido em que a soberania estava definida, apesar de todas as perdas no tratado de Lisboa (Anônimo AMMAK).

Estudar o meu objeto que é o meu objeto de trabalho cotidiano. As outras disciplinas do curso permitiram-me ajudar aqui a encaminhar alguns trabalhos, na gestão, no direito intelectual e da propriedade intelectual. Então, eu comecei a desenvolver essas pequenas pesquisas dentro dessas disciplinas do mestrado e a tese de mestrado foi uma súmula histórica do que eram as edições municipais em Torre Novas. E quando eu comecei a fazer essa tese comecei a perceber que havia inevitavelmente ligações entre identidade, memória, construção de uma identidade, omissão de dados nas edições, e isto me levava a querer investir nessa área, porque a minha tese de mestrado é muito ainda material, ainda é muito na base de fazer um catálogo de tudo que foi feito em Torres Novas e tal. É uma coisa ainda muito material, mas depois se ler a conclusão da minha tese de mestrado é um pulo para o doutoramento. Estudar essa ideia das construções indenitárias dentro das edições locais (Margarida Moleiro).

O ato de pesquisa foi escavado e trazido a tona através desses fragmentos sobre o doutoramento, especificamente, o doutoramento no campo dos Estudos Culturais, sob a ótica de cada um dos entrevistados. Os depoimentos apresentam pontos de contato e diferenças entre si. Reafirmo que estive sempre mais, em busca das diferenças.

Eu não fazia a mínima ideia do que era os Estudos Culturais, mas sabia que aquilo que eu estava a analisar não era nem literatura, nem linguística e nem sociologia. Simplesmente eu estava a analisar uma coisa que eu achava piada, que me dava gozo em analisar, porque eu nunca iria estudar um assunto que não me sentisse ligada afetivamente a esse assunto. “Anedotas de mulher” foi o que eu achei piada, eu gosto de estudos sobre estereótipos e não tenho o objetivo de terminar com o estereótipo pra tentar anular os estereótipos ou acabar com os estereótipos, ou lutar contra eles, simplesmente assumo que eles existem e por mais que nós tentemos eles vão continuar sempre a existir, podemos tentar modificar ligeiramente, mas não tentar controlar (Joana Ribeiro)

Eu trabalho no centro de acolhimento da minha tese de doutoramento, o CLEPUL, o Centro de Literatura e Cultura de Expressão Portuguesa, daqui de Lisboa. É um centro de investigação da faculdade. É a partir desse centro que eu vou chegar aos Estudos Culturais. Porque eu tinha que fazer um doutoramento, mas não sabia em que. Iniciei um em história na Faculdade de Letras de Lisboa e depois entrei em Estudos Culturais em Aveiro. Decidi por Estudos Culturais porque tinha mais haver com a minha formação. Eu tinha de enquadrar o doutoramento na minha área de estudos no centro, o mutualismo. Enquadrou-se melhor com o programa de Estudos Culturais. Achei que, se calhar era melhor aproveitar essa área completamente nova em Portugal, com grandes possibilidades, como uma tela em branco, uma área fundada pela literatura. O mutualismo é uma questão de história, mitologia e também de Estudos Culturais (Anônimo ACVR).

Eu acho que quem acaba no Doutoramento de Estudos Culturais, vem com essa vontade de pôr crítica e política na investigação.  Pelo menos eu vinha com essa vontade. Eu vinha do Curso de Letras, fiz graduação em Letras e mestrado em Literatura Literária porque adoro Literatura; eu escrevo, sou escritora, mas eu sentia uma necessidade de me envolver por questões mais atuais, com metodologia mais atual, e mais híbrida e apegada a uma questão um pouco mais política também. Eu acho que quem se envolve, e se envolve com vontade de dar consistência a uma reflexão, quer mais trazê-la para uma coisa mais prática (Anne Ventura).

Quando eu acabei a licenciatura, eu disse logo que queria seguir para doutoramento, só que não podia, por questões monetárias. Na verdade se eu quisesse, podia ter feito! Os meus pais sempre me disseram ‘vai que nós pagamos’, mas eu achava que não, eu achava que eu acabei a licenciatura com 22 anos e já chegava. Chega um momento em que eu acho que nós temos que ser independentes monetariamente dos pais, e os pais, têem que conseguir voltar a ter um folgo, e que não podem ter, se tiverem que pagar as coisas aos filhos (Jenny Campos).

Quando me apareceu a questão do doutoramento, eu sabia que havia um espaço da minha vida que não estava completo e que eu procurava qualquer coisa, eu não sabia muito bem em que sentido, ate porque em termos políticos; achei que podia ser em termos espirituais; achei que podia ser em termos intelectuais; e eu achei que podia ser que, se calhar, o doutoramento me fazia sentido (João Hespanhol).

Acabei o mestrado e achava que precisava de alguns anos para trabalhar noutras coisas para amadurecer; não queria entrar imediatamente para o doutoramento, mas aconteceu uma coisa: em 2009 comecei a trabalhar como freelance, eu estava a trabalhar com o teatro, a dirigir. E nesse mesmo ano, fui apresentar em um congresso, uma comunicação, ou seja, foi uma altura em que senti que comecei a ter um interesse de que já estava na altura de começar um doutoramento. Então eu comecei a ver as propostas de doutoramento, o que havia, se é que havia, até que em 2010 vi o doutoramento em Estudos Culturais e pareceu-me que era apropriado dentro da área que eu queria. Queria uma coisa fosse mais abrangente, que pudesse unir uma ideia de cultura, uma ideia do teatro e também a ideia do texto (Anônimo PFMJ).

O doutoramento normalmente é um processo um bocado solitário. Uma parte do processo do doutoramento em que somos nós sozinhos que fazermos, temos que estar sozinhos. Há muitas outras dinâmicas que acontecem e quando existem esses encontros, as reuniões conjuntas, as reuniões com os orientadores, as tertúlias, há às vezes os congressos, isso tudo, permite aos investigadores estarem juntos. E às vezes nem estávamos juntos por causa do nosso objeto de estudo. Às vezes, somente precisamos que alguém que nos ouça. É o nosso outro eu (Sara Vidal).

Estou a fazer o meu doutoramento em Estudos Culturais. Eu gosto, não de fazer investigação por uma questão de profissão, mas pelo gosto de saber, de estudar. E não é pelo gosto do intelecto, nem pelos canudos, nem nada disso, é pelo gosto de descobrir e de criar também. Tenho essa parte que é o meu gosto pelos estudos e poder também fazer isso pra viver. Claro que me preocupo daqui a quatro anos quando terminar a bolsa, o que eu vou fazer, quais são as saídas profissionais desse curso. Acredito que são zero. No momento, o meio acadêmico está saturado em Portugal. Não o vejo como um país que invista em investigadores e naturalmente, investi os recursos nas áreas que acreditam serem centrais e não tanto naquelas de ordem periférica. Tenho que reconhecer isso, mas, lá está, vou pedindo a Deus que me ajude (Simão da Silva).

O que me fez pensar no doutorado em estudos culturais foi apenas, mesmo, por realização pessoal. Não preciso, por enquanto não preciso, o panorama do país também não tem grandes perspectivas de que me venha a servir, num curto prazo, o doutoramento. Eu dificilmente irei ganhar mais por ter um doutoramento, ou não ter, ganhar no sentido de ter mais oportunidades. Portanto, foi apenas uma realização pessoal. Como coordenadora, o único diploma que usei, exigido aqui para coordenar o centro era licenciatura, embora nos incentivem também a prosseguir os estudos, mas não é obrigatório. O doutoramento em Estudos Culturais em Aveiro chamou-me atenção pela abrangência dos temas. Aliás, isso está a vista pela diversidade dos projetos de teses apresentados pelos meus colegas que vão desde a gastronomia, a literatura, a turismo… (Anônimo AGF).

Dá-me sempre um sentimento de que eu estou a estudar isto para que me leve a um melhor futuro financeiramente e mais estável e outro uma vontade de criar e de fazer coisas diferentes que não tenham propriamente haver com o estudo acadêmico, com investigação. Embora, também eu tenha sentido que um caminho de investigação também me pode ajudar, não sei de que forma, mas também poderá preparar-me para outras atividades que tenham mais para o lado criativo. E os Estudos Culturais, um pouco do espírito dos Estudos Culturais é esse, segundo o que eu entendi, porque eu antes nem sequer sabia que existia essa área (Pedro Corga).

Comecei o doutoramento em 2006. Eu gosto muito da investigação que eu faço, para mim, o doutoramento é a culminação do trabalho, não é o início (Timothy Oswald).

Para o doutorado, quando vi Estudos Culturais, achei que estava em casa (Jenny Gil).

Compartilhamos esses relatos e creio, que como eu, você leitor gostaria de saber mais sobre os caminhos para o futuro dos Estudos Culturais em Portugal. Recomendo que leia as duas entrevistas realizadas com os coordenadores do PDEC. Boa Leitura.

ENTREVISTAS DO DESEJO

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.