Pedro Miguel Rodrigues Mourão Lapa

Eu sou uma pessoa igual a tantas outras, mas única também. Isso envolve muita coisa: as vivências, os desejos, a forma de sentir. Eu não tenho assim nada de específico em que me possa definir. Eu me identifico com a profissão, com o estado social econômico, com o ter uma casa, um carro. Identifico-me nessa diversidade. Eu quero ser feliz. Eu faço o posso para ser feliz, mas a vida não é, têm altos e baixos. Tudo o que eu faço normalmente é para dar felicidade a mim e aos outros.
Neste caso, do doutoramento, eu quero me dar essa felicidade. Quando na infelicidade fico triste, não gosto; não gosto de estar triste. Gosto de dá felicidade a mim, às minhas filhas e lembrar a minha companheira.
Eu vivo com as minhas três filhas. A Iris de sete anos, a Beatriz que tem nove e a Ineiva que já tem treze. Estão em fases bem distintas: uma está a sair do primário, a outra entrou a pouco tempo e a outra, a mais velha, entrou no secundário, são três fases distintas. Eu e a Elisa – a mãe delas – nós conhecemos quando éramos miúdos. Eu sempre fui muito doentinho, eu sempre tive algumas doenças. E uma das doenças que tive foi a asma e tive durante muitos anos. Em dada altura, resolveram os meus pais, mandarem-me através dos meus tios para fazer termas; então estive a fazer termas, porque sempre disseram que era muito bom, calda com água, com a chávena e as fusões.
Era muito bom no Alentejo. Conheci-a lá, nesse lugar, aquela coisa de namoraditos de criança, não é, olhares, dávamos as mãozinhas e tal. E só depois o tempo foi passando e continuamos a namorar. Eu morava em Lisboa, no sul, hoje em dia é muito certo, mas naquela altura, demorava duas, três horas de caminho quando íamos nos visitar. Tinha que pegar o comboio, o autocarro, o barco e o comboio outra vez. E depois tinha de fazer tudo de volta. Estávamos juntos de tempos em tempos. Eu tive algumas namoradas e ela foi tendo outros namorados, mas enamorávamos na mesma. Com o tempo deixamos de nos encontrar, deixamos de nos ver, mas foi assim que a gente se conheceu. Foi lá nas termas quando éramos crianças.
Quando nos juntamos novamente, eu já tinha acabado a universidade, já trabalhava em Lisboa, dava aulas para uma empresa e editoras. E ela estava a estudar na universidade de Aveiro e encontramo-nos. Eu já tinha algumas possibilidades de férias e fomos dar uma volta, passar um tempo juntos para Espanha. Na altura, eu tinha moto e então fomos de moto e entramos juntos na Espanha pelo norte de Portugal e foi muito engraçado. Quando estávamos no regresso a gente decidiu se juntar, mas não foi nada planeado. Para os nossos pais, foi assim uma surpresa. Como eu hei de dizer, eles já sabiam que enamorávamos, os pais da Elisa e a minha mãe. Era decidido e todos estavam a ver que eu era feliz e ela era feliz e pronto, mas com um tempo eles foram se apercebendo que era amor, era um casamento.
Viemos viver pra Aveiro porque ela estava a estudar arte e música e o curso dela era performance em clarinete. Só havia cá em Aveiro, a nível superior. Ela tinha feito a conservatória lá em Setúbal. Então não havia hipóteses dela ir para Lisboa para estudar e então, no meu primeiro ano, conciliei: ia três dias pra Lisboa e estava cá o resto do tempo; estava cá quatro dias por semana e três dias em Lisboa. Ia conciliando e assim tratamos de cá ficar, mas com o tempo, deixei o meu trabalho.
Tenho só a minha mãe viva. Eu vivia com o meu pai e com a minha mãe. O meu pai era alcóolico. E era muito complicado estar com ele, então, a minha infância sempre foi muito aterrorizada. Até mesmo a asma, a dificuldade de respirar, acho que associo a isso. Era uma forma de ser, uma maneira de expressão. Se ficasse com asma, eu podia vir até ele, mas desconfiava dele de alguma forma. Habituei-me a isso e cresci assim, agora tento eliminar, mas… Tenho um irmão mais novo.
Quando fiz dezoito anos pensei: ‘não dá, eu não consigo estar aqui em casa’. Eu adoro a minha mãe, ela foi sempre uma heroína porque sempre fez de tudo e trazia tudo pra casa. Ela trabalhava, ela que segurava as despesas todas e fazia de tudo. Meu pai, quando estava a trabalhar, chegava em casa bêbado. Ele trabalhava nos caminhos de ferro, era ferroviário, mas era um trabalho de escritório. Ele trabalhava no patencioso, ou seja, quando as linhas de comboio ficavam retidas ou alguma coisa, ia comprar os trilhos e registrar e fazer esse trabalho, tipo ajudante, ele fazia isso. Hoje é tudo no computador, mas na altura não. A minha mãe é professora, mas ela está reformada. Era professora primária. Ela sempre lidou com crianças.
Eu na escola sempre fui muito bom aluno. As minhas notas eram boas, eu só tive uma negativa em música. Porque eu não tenho capacidade para isso. Eu até percebo música, escrevo e sei as notas, tudo. Mas ouvir e dizer se é um sol, se é um dó, se é um si, se é um lá, não consigo. Como a minha mãe era professora, então, ela incentivava-nos a ler e eu gostava muito. Lia bastante na adolescência os livros de aventuras, de banda desenhada também. Eu e meu irmão éramos amigos, somos amigos, não temos uma relação muito próxima, mas também não foi assim uma relação muito afastada. Agora estamos mais afastados, porque há muitos anos que eu moro em Aveiro e ele mora em Lisboa. Ele tem a sua personalidade e eu tenho a minha. Fomos nos construindo, sem termos muitos pontos em comum. Ponto em comum, praticamente, é ser da mesma família e a nossa mãe.
As artes plásticas estão comigo desde sempre. Eu sempre fui muito bom aluno, sempre gostei muito de pintar e de fazer essas coisas. Depois quando fui para o sétimo ano tinha que escolher uma opção e escolhi artes plásticas, arte e design na altura. Entretanto, no sétimo, oitavo e nono ano, estudei arte e design. No décimo e décimo primeiro fiz artes plásticas, entretanto, no décimo segundo, não consegui fazer o décimo segundo por ser muito namorador. E a minha namorada, na altura, tinha tempo livre e eu tinha aulas de matemática. E entre a matemática e a namorada, eu preferi namorar e pronto. Eu não chumbei, mas anulei a disciplina, porque poderia chumbar por faltas e depois, no ano a seguir, eu tive que acabar o décimo segundo.
Sempre fui de artes, só que como tinha muito tempo disponível e sempre gostei de fazer coisas, eu me inscrevi em um curso de marketing organizado por uma entidade europeia financiada. Era para eu receber um ordenadozito e as despesas pra alimentação e essas coisas todas. Então fiz esse curso e fui gostando muito do que era a gestão do marketing. Então escolhi ir para a universidade de marketing. Na altura, só havia em universidades particulares. Mais uma despesa que eu não estava a contar, mas gostei muito. Não era o marketing como as pessoas conhecem hoje, era mesmo o marketing comum, de gestão, ou seja, como potencializar o produto em todas as vertentes de acordo com o consumidor, com as necessidades do consumidor e não criar a necessidade, como existe nesse momento. Era estudar o mercado para criar algo ou serviços para atuar de acordo com o consumidor. E isso me fascinou. Não fazer as coisas só por si, mas pensar no que a pessoa quer mesmo e dar e disponibilizar qualquer coisa que seja bom para ela e que seja bom para todas as partes.
Isso não foi muito difícil pra mim e então entrei nas Belas Artes na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Fiz paralelo. Que na altura era uma coisa proibida, não se pode estar a licenciar-se em duas coisas ao mesmo tempo. Como não havia computadores, e uma era particular a outra era pública, fiz as duas. E depois, uma escola era em uma rua e a outra, duas ruas a seguir, era fácil. Às vezes, eu tinha tempo livre, eu ia em uma e depois na outra, intercalava. E nem passava o dia estudando. Ainda fui dar aulas em uma escola profissional a convite de uma professora minha, ou seja, eu durante o dia estava nos três sítios, nas três escolas, uma a dar aulas e nas outras duas a estudar.
Mais tarde acabei o curso e o meu orientador, o coordenador do curso, que dava aulas de línguas estrangeiras, o inglês, convidou-me para trabalhar com ele na empresa, como diretor da empresa dele, diretor de marketing. Porque eu sempre gostei muito de marketing e eu sempre fui muito criativo, eu fui trabalhar com ele. E então comecei a ficar nos quatro sítios. Aí já era mais difícil, porque eu tinha que estar nas Belas Artes, e fiquei a acabar o curso, e tive que fazer tese, pronto. Então combinamos que eu ia trabalhar de dia e estudar a noite. Depois me vi a dar formação de formadores.
Eu gosto de fazer tudo em artes plásticas. Gosto de fazer no computador, gosto de fazer escultura, mas não segui essa área. Na altura, quando comecei a estudei artes, era algo que me fascinava. Estudei as dimensões, o ser, a modelarem. Mas nesse momento não, eu gosto mesmo de pintar, ou seja, quando estou a pintar dá-me prazer estar a pintar. Não pensar no resultado final, nem se é quase num desenho, um motivo, nem em algo pra fazer. Mas o que me dá prazer mesmo é pintar. Muitas vezes, eu espero pra fazer isso. Na parte das Belas Artes, bastava ter o curso normal. Eu até queria fazer mestrado, mas estive que me dedicar a outras coisas na altura, a línguas, projetos, português. Agora é que não. Os cursos evoluíram, quer dizer, houve mais gente a fazer estes cursos e como há mais procura, há mais ofertas e há mestrados, doutoramentos. Naquela altura, acho que não.
Tempos depois, a empresa foi vendida a um grupo internacional. Na altura, eu vim pra Aveiro para viver esse tempo de ócio, entretanto, não tive receios quando quis desprender-me. Em relação a escola em que eu dava aulas, na escola profissional, consegui então ir os três dias pra poder estar cá e ir lá. E vim pra cá pra Aveiro, a procura de trabalho. E fui as empresas grandes todas. Haviam cá muitas empresas, só que todas me diziam que a direção de marketing era em Lisboa. Não consegui arranjar, mas convidaram-me pra dar aulas no IPAM. O IPAM é o Instituto Superior de Marketing e tive lá a dar aulas, mas é uma coisa pequenina, eram quatro horas, duas horas por semana a recibos verdes, e temos de descontar IVA, segurança social e etc. Tive aqui um ano, mas depois não valia a pena.
Eu sempre fui uma pessoa com ideias, eu e a Elisa, tivemos a ver o que não havia em Aveiro. Aveiro era só uma cidade muito acolhedora e então montamos uma loja de artesanato e na altura, as pessoas disseram que era um bocado complicado, porque Aveiro era muito conservadora. Para montar a loja de artesanato original é claro que tínhamos que ter coisas na loja, como artigos e coisas feitas por artesãos completamente únicos e originais. E para isso, tínhamos que viajar muito, tínhamos que conhecer muita coisa de cá de Portugal, do estrangeiro. Assim, conseguimos dar mais valor a loja; por mais gente na loja, fazer exposições.
Foi muito bom! Porque depois de nós termos a loja com produtos alternativos de muitas partes do mundo, trazer as pessoas cá, mesmo pessoas de Portugal, não é, mesmo de Aveiro. Tem muitos artesanatos que as pessoas não conhecem. Conhecem aquelas mantas, os ovos moles, os moliceiros, mas cerâmicas… Enfim, mas foi muito giro, foi muito bom. Interessei-me por outras culturas, por outras formas de pensar, outras formas de ver a vida, outras formas independentes da religião. Depois de certo tempo, também abrimos mais duas lojas e aí quase abrimos outra de artigos alternativos de chávenas, roupa, pronto. Mas aí veio o Fórum Aveiro. Gerir uma loja ao lado do fórum, foi difícil. Portanto, deixamos essa loja. Depois perdemos tudo. Tivemos que lidar com essas perdas todas.
Quando fechei as lojas e vi-me desempregado com bastante tempo livre… Nunca tive férias, ao longo desse percurso. Eu viajava muito, mas era pra trabalhar e quando fechei as lojas fiquei com um tempo de férias. E foi muito bom, embora não tivesse dinheiro, porque é preciso ter dinheiro, mas pelo menos tinha já as três filhas. Mas eu podia estar com elas e brincar e podia as ajudar na escola e ir buscar. Foi bom, mas dada altura, pensei: “se eu continuar assim, não dá” E fui a procura de emprego. E em todo lado me diziam que eu tinha idade a mais ou habilitações a mais e tentei fazer mil e uma coisas. Me inscrevi em muitos sítios, desde vender batatas fritas, não é. Nada que podasse ter a questão de idade ou de dar aulas. Mas pronto, não tive qualquer tipo de problemas de status e coisa assim.
A minha loja era uma loja pequenina quando começou e fizemos de tal modo, que cresceu. Foi tudo estudado ao pormenor: a distribuição das coisas nas prateleiras, a cor, o logotipo. E eu tinha que conciliar esse cunho, nas coisas que me dá prazer em fazer. Já que estou a fazer isso, a tese, gostava de fazer como deve ser. Eu sou muito crítico e gosto de escrever, então numa tese ou fazer um texto, pelo menos eu utilizo o que eu sei, que dá pra utilizar em tudo, não só pra utilizar em casa.
Eu comecei a pensar, em mais uma fase, como é que eu vou fazer o doutoramento, não é? Então estávamos a pensar. Eu tinha tempo livre, estava desempregado, foi muito bom estar com as minhas filhas, foi muito bom, apesar de não ter dinheiro, sempre correu tudo bem. Porque há cá em Portugal uma coisa que é o subsídio desemprego. Quando nós ficamos desempregados temos uma quantia todos os meses quase equivalente ao salário, pronto, pra conseguir substituir. Manter-se até arranjar um novo emprego. E eu era empresário, não tenho direito a isso, ou seja, fiquei mesmo sem dinheiro. Só com problemas na minha vida, disto e daquilo. Tivemos que deixar as coisas depois que me aparece tudo e mais alguma coisa. Até mesmo coisas que já estavam pagas reaparecem pra ser repagas e mais multa e aí eu fiquei desestruturado na minha vida financeira. Isso foi muito complicado, mas eu comecei a pensar, “eu não gosto de estar assim, eu e a Elisa”. Mas eu principalmente, eu não gosto de estar assim. Eu não me sinto bem, não dá. E então comecei a ver que não era um bom exemplo pras minhas filhas; estar nesse papel, não é. Mas você pode fazer muitas coisas, mas coisas palpáveis e então, pegando nisso, isso começou a dar-me infelicidade. Eu fui pensar o que me poderia dar felicidade: voltar a estudar!
Me propus a fazer o doutoramento em Cultura. Passou um ano, mais ou menos, e então já tinha mudado para Estudos Culturais e então me inscrevi e tive a oportunidade de entrar. Só que depois a Elisa ficou doente, foi diagnosticado o cancro e então, já não consegui fazer nada, pronto. Tive que parar com todas as coisas, não é. Depois dói dizer as coisas a uma pessoa doente. Custar-me muito, pronto. Depois ela ficou mais doente e custou-me muito. Chegou a cair o cabelo, foi operada e ficou tudo bem. Mas, pronto, ela faleceu e eu estou tentando que tudo fique bem, para mim e para as minhas filhas.
Wlad Lima e Pedro Lapa em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Pedro Lapa em entrevista na cidade de Aveiro.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.