JOGO DE PERSONAGENS NA TRAJETÓRIA DE UMA HEROÍNA

Para entrar em meu bloco de sensações, resolvi praticar, comigo mesma, o que chamo de “jogo de personagens”. Jogo esse, baseado na concepção de Trajetória do Herói de Josef Campbel. Para esse autor, nenhum herói faz sua aventura sozinho; todo herói sempre anda acompanhado. Tive momentos de muito prazer quando propus, sempre que foi possível, jogarmos esse jogo no meio das entrevistas realizadas; um jogo entre eu e os primeiros doutorandos em Estudos Culturais de Portugal.

Para relembrar um pouco do que já foi explicitado na página TECENDO RASTROS METODOLÓGICOS desse site, listo os personagens que aparecem nas trajetórias de todo herói: o mentor, o guardião, os aliados, o vira-casaca, o inimigo, os adversários, o bufão e o vilão.

Na minha aventura – um estágio de pós-doutoramento também pode ser visto como aventura heróica – fui com toda certeza acompanhada por muitos personagens, algumas vezes, metaforicamente falando. Alguns desses personagens podem ser presentificados – melhor que dizer, “representados” – algumas vezes por mim mesma, por outra pessoa, por situações, e até por coisas, objetos.

Quem foi o mentor de minha aventura?

O mentor é uma mentora, na verdade. A mente que sempre está por trás de tudo o que faço, penso, crio… Sou sempre eu mesma. É isso, a minha grande mentora sou eu mesma. Sou eu que me jogo para frente, me cobrando sempre. Não foi diferente nessa investigação; quis a qualquer preço, fazer mais essa pesquisa.

Quem foi meu guardião, quem me guardou a ponto de ser possível eu estar nesse estágio de pós-doutorado fora do Brasil?

Aqui também, o feminino é que impera. Minha grande guardiã foi Olinda Charone. Estamos nos guardando, mutualmente, desde 1980. São 34 anos de muito apoio, amparo, afeto. Nesse estágio, Olinda me carregou no colo, literalmente, porque foi ela que me trouxe para Portugal.

Quem foram meus aliados?

Sou uma felizarda, tenho muitos aliados. Minha primeira aliadíssima, foi, e creio que continuará sendo, a Proª. Drª. Maria Manuel Baptista, supervisora da pesquisa. Aliadas foram as instituições que me apoiaram nessa batalha: a escola de Teatro e Dança, o Programa de Pós-graduação em Artes, o Instituto de Ciências da Arte, a Universidade Federal do Pará, as Universidades de Aveiro e Minho. Mais que aliada, a grande financiadora da pesquisa foi a CAPES. Outros aliados foram os amigos paraenses, sempre presentes, sempre perguntando, amparando e resolvendo.

Quem apareceu bancando o vira-casaca frente a essa realidade que eu vivi; aquele que no início era a favor e depois ficou contra?

Além de minha ambição intelectual ter me trazido até aqui, o desejo de ficar longe por um tempo pela perda de um amor, me empurrou para essa aventura. Mas houve muita dor. As emoções que me expulsaram da  minha cidade, foram as mesmas que gritavam dentro de mim, me forçando a desejar voltar para casa. As emoções me traíram e atraíam. O amor ou ódio, dependendo das circunstâncias, se torna um VIRA-CASACA.

Quem foi o meu grande inimigo quando tive que enfrentar fazer uma pesquisa como essa?

A saudade foi a mais torturante inimiga. estava sempre a espreitar tudo; eu a via por todos os lugares. Ela me torturou nos mínimos detalhes, com as mínimas necessidades sentimentais, materiais etc.

Quem foram meus adversários, nesses dezoito meses de trabalho?

Foram os meus vícios: pensar demais, delirar demais, ler demais, coletar dados por demais e demorar demais para escrever. O “tudo por demais” foi um adversário difícil.

Quem serviu de bufão toda vez que precisei; quem toda vez que ficava me lamentando, vinha rir de mim, melhor, rir comigo; aliviar meu drama?

O grande bufão é o espaço diário que temos, eu e Olinda, para sentarmos, no momento do jantar, para rir de tudo e principalmente, de nós mesmas. Uma ajuda a outra dissolvendo os “dramas” do dia-a-dia.

Quem foi o vilão de meu pós-doc?

Um vilão terrível para os que vem de terras quentes como as de Belém do Pará: o frio. O frio foi paralisante, congelando até minha mente, esfriando minha força de vontade, de potência. O frio me expulsou de Portugal, da Europa. Com o frio vieram as doenças respiratórias, a angústia total. Fugi do frio.

 Conheça agora uma tese – se fosse possível fazer tese.

(+ou-)TESE

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.