Rotas das Subjetivações

Rotas das subjetivações… Delicada rota, essa, que ora construo! Para me orientar nessa tarefa, convoco o conceito de subjetivação construída por Félix Guattari em colaboração com Suely Rolnik.

A essa máquina de produção de subjetividade eu oporia a idéia de que é possível desenvolver modos de subjetivação singulares, aquilo que poderíamos chamar de ‘processos de singularização’, uma maneira de recusar esses modos de encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e tele comando, recusá-los para construir, de certa forma, modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que não são os nossos. (GUATTARI; ROLNIK, 1999, p.16-17)

Como mapear os enfrentamentos existenciais diários de nossos heróis? Como reconhecer seus desejos, como propõe Guatarri, no fragmento acima citado? Creio, e assim quero denominar, que diferentes modos de singularização foram sempre disparados no percurso das vidas desses homens e mulheres. Procurar enxergar esses modos de sensibilidades é passar os olhos sobre uma vida toda que ensaiou para ser doutor; é dar voz e ato ao desejo; mobilizar diferentes dispositivos ao longo da vida para mudar realidades e maquinar futuros. É como nos conta, o africano Anônimo (MJCM), um dos poucos negros que encontrei em doutoramento nos Estudos Culturais. Na verdade o único, porque apenas mais dois africanos, um de Angola e outra de Cabo Verde – e nem sei se são negros -estavam inscritos na primeira versão do PDEC e, com eles, não foi possível trocar entrevistas.

MM nos revela um pouco de sua concepção de vida:

“A vida não se faz só com os livros, a vida faz-se com a realidade, com as vivências, com o contato diário com a humanidade local, com as pessoas que estão aí, com o mundo, com aquilo que está a nossa volta.” (Anônimo MJCM).

Como estou tratando de subjetivações, i. e., modos de singularização dos entrevistados, no intuito de enxergar em cada um, em suas particularidades, seus modos de resistência e humanização frente aos avanços capitalísticos – outro conceito de Guattari que atualiza o nosso entendimento sobre a globalização contemporânea, vislumbrada por ele nos anos 90 do século XX – quero começar tratando alguns acontecimentos que singularizaram cada percurso. Porém sei, e quero compartilhar, que muitos acontecimentos que aparentemente nos torna singulares, como as nossas perdas e os nossos triunfos, são propriedades do poder de nossa humanidade entre nascimento e morte.

No período que se estende de setembro de 2010 a setembro de 2014 – percurso de quatro anos – alguns acontecimentos sensibilizaram a “passagem pelo doutoramento” de alguns de nossos “sujeitos da vida”. Essa escrita abre a cena para dar passagem ao encontro final de todos nós, a morte.

Me propus a fazer o doutoramento em Cultura. Passou um ano, mais ou menos, e então o curso tinha mudado para Estudos Culturais. Me inscrevi e tive a oportunidade de entrar e começar os estudos. Só que depois, a Elisa, minha mulher, ficou doente e foi diagnosticado o cancro. Então, eu já não consegui fazer nada, pronto, tive que parar com todas as coisas, não é? Dói muito dizer as coisas a uma pessoa que está doente. Custou-me muito, pronto! Chegou a cair o cabelo, foi operada e ficou tudo, aparentemente, bem. Mas, pronto, ela faleceu e eu estou, tentando que tudo fique bem, para mim e para as minhas filhas (Pedro Lapa).

O relato acima citado, de Pedro Lapa, é extremamente comovente. Dar-nos uma leve ideia do que representou esse acontecimento, para esse jovem marido e pai; o que representou para todos os que ao lado deles estavam, da família. Mas, infelizmente,  prosseguindo em minha linha de raciocínio, registro que outros alunos-doutorandos tiveram perdas semelhantes. Fátima Pais perdeu o seu amado pai; Anônimo (AMMAK), perdeu a mãe, que a anos sofria de Alzeimer; Anônimo MJCM, porque estava em Aveiro, Portugal, não pode acompanhar o rápido adoecer e morte de sua filha mais nova, ainda um bêbe, acontecida em Moçambique, África.

Mas há também o lado avesso dessas cenas dolorosas! Muitos atos da vida aconteceram, deu-se nascimentos de novos seres, nesse espaço de tempo. As alunas-pesquisadoras Anne Ventura e Margarida Moleiro  engravidaram durante o doutoramento. E porque não dizer também que, Pedro Corga, nesse período, se viu grávido? Nasceram três meninos, se não estou enganada.

Durante o exercício de ser doutor, muitos se dividiam, entre outros papeis, como o de ser pai ou ser mãe. Os já citados Pedro Lapa e o \\\anônimo (MJCM), mais também Pedro Rui e Manuel Costa, lutaram para conciliar os estudos e os encargos de serem pais. Doutorandas-mães, acompanhavam os seus filhos, com muito cuidado, mesmos que distantes. As mães, de quem estamos falando, são: Adriana Brambilla, Joana Ribeiro, Jenny Gil, Anônima AGF e Suzana Menezes – que como ela mesma diz, “o meu marido chegou e já trouxe os filhos prontos”.

Com toda a certeza, há uma unanimidade no exercício de múltiplos papéis, como os de filho, de irmão, parente e amigo. Para cartografar o que entendo como modos de produção da subjetividade, vou arriscar-me a apreender, mesmo um pouquinho só, a constituição familiar dos doutorandos de 2010, como uma forma de compreender os seus contextos sócio-culturais.

Pude constatar que a maioria das famílias dos primeiros doutorandos são formadas por um grupo relativamente pequeno, constituído de pai, mãe e dois filhos. Essas famílias são as de Daniel Ribas, Anônimo (AGF), Jenny Gil, Pedro Rui, Anne Ventura, Jenny Campos, João Hespanhol, Joana Ribeiro, Pedro Corga, Sara Vidal, Anônimo (PFMJ), Pedro Lapa, Manuel Costa e Margaret Gomes. Mas há composições famíliares menores com algumas de nossas doutorandas aparecendo como filhas únicas. São os casos de Fátma Pais, Margarida Moleiro e Anônimo (ACVR).

As outras famílias vão no crescente, com as famílias com três filhos, como as de Adriana Brambilla, Suzana Meneses, Maria Goreti, Uiara Martins e Simão da Silva. Com cinco filhos, temos a família de Timothy Oswald. Na pesquisa também descobrimos que há famílias bem maiores, compostas de seis, sete, ou oito filhos, como no caso das famílias de Anônimo (MJCM) (6) , Anônimo (AMMAK) (6), Manuel Gama (7) e Dulce Martinho (8).

Tratamos da constituição das famílias por nascimento, mas agora podemos tratar das famílias que foram constituídas na fase adulta de vida dos doutorandos. Estavam casados, no período pesquisado, Daniel Ribas, Sara Vidal, Jenny Gil, Jenny Campos, Pedro Rui, Pedro Corga, Adriana Brambilla, Margaret Gomes, Timothy Oswald, Margarida Moleiro, Joana Ribeiro, Anne Ventura, Manuel Costa, Manuel Gama, Anônimo (MJCM), Maria Goreti, Suzana Menezes, Simão da Silva e Anônimo (ACVR). Os que se identificaram como divorciados, foram, Anônimo (AGF), Fátima Pais, Anônimo (AMMAK) e João Hespanhol. Como viúvo, sabemos a história de Pedro Lapa. Porém, alguns, nada declararam sobre seus estados civis. É o caso de  Anônimo (PFMJ), Uiara Martins e Dulce Martinho. Suponho estarem solteiros, no período em questão.

Talvez o leitor, que ora me acompanha, esteja se perguntando o porque de, em uma espécie de análise epistemológica sobre a produção acadêmica dos primeiros doutores em Estudos Culturais, eu esteja tratando de nascimentos, mortes, pai, mãe, filhos, irmãos, casamentos, cônjuges, divórcios etc. É porque eu me perguntei muito sobre esses aspectos da questão! Os modos do meu fazer pesquisa, me trouxeram até aqui, à construção de uma cartografia sócio-poética sobre esses alunos-investigadores. Por experiência própria – e isso, da experiência própria apreendida nas práticas de vida, procuro escutar com cuidado – sei que a fase de doutoramento é um período de vida, estranhamente, particular. É uma vivência com estados emocionais múltiplos; com uma carga de desafios extremos que requerem muita atenção por parte daqueles que nos cercam, que nos amam, que nos amparam. E, principalmente, é um período de (re)descobrimento interno, muitas vezes, carregado de responsabilidades, renúncias, remorsos e culpas pelas nossas “ausências” nas vidas daqueles que tanto amamos. Tudo isso, acompanhado de um grande dose de insegurança a respeito de nós mesmos, sobre nossa própria capacidade intelectual.

Por causa dessa característica de insegurança, mais profissional que pessoal, implícita nesta fase de conquista da titulação de doutor, vou  entortar de volta o meu objeto de pesquisa, na direção de cartografar alguns dos aspectos da formação acadêmica desses doutorandos, afim, não de desenhar uma possível epistemologia instituída nos corpos dessas teses em construção, mas sim, redesenhar a vitalidade do pensamento cultural adquirido pelo PDEC, com a presença de uma rede epistemológica apreendida pelos doutorandos ao longo da vida, em suas diversificadas trajetórias formativas.

Vou começar o mapeamento dos percursos acadêmicos adquiridos pelo grau do ensino superior. Como múltiplas foram as graduações, há um quadro bem diversificado de áreas epistemológicas. Temos graduados com formação em: Áudio Visual e Cinema; Animação Cultural; Administração; ; História; Comunicação Social; Biologia Humana; Filosofia; Gestão de Patrimônio; Línguas e Literaturas Modernas (português, alemão, inglês e tradução); Gestão Artística e Cultural, Hotelaria; Psicologia; Pedagogia; Educação; Teologia e Ciência das Religiões; Marketing; Letras e\ou Línguas e Literaturas   Modernas, nas suas diferentes vertentes linguisticas e de tradução (estudos portugueses, franceses, ingleses, germânicos).

Em nível de pós-graduação encontramos a seguinte diversificação nas áreas de formação em mestres: Literatura Francesa do Séc. XIX; Administração e Marketing; Arte e Educação, Literatura e Poesia Literária; Estudos Franceses; Estudos Ingleses; Gestão e Planejamento em Turismo; Filosofia Contemporânea; Gestão e Planejamento em Turismo; Língua, Literatura e Cultura Inglesa; Educação Artística; Estudos Portugueses e Literatura; Museologia; Linguística; Estudos Editoriais; Terminologia e tradução; Estudos Editoriais; Educação e Inovação Pedagógica. Ciências das Religiões; Literatura Portuguesa Contemporânea. Apenas uma doutoranda informou que fez estudos em nível de especialização em Didática e Pedagogia.  E seis doutorandos não tem ou não informaram seus mestrados.

Fora as áreas de estudos e profissões institucionalizadas, alguns doutorandos exercem outros ofícios: crítico de cinema; agente turístico; jogador de futebol; escritor; cantor; empreendedor social; mestre-cuca; produtor cultural; ator; dramaturgo; diretor cênico; músico; poeta; “marketeiro”. Em todos eles, o espírito do freelance. Os fazeres práticos e as experiências adquiridas nesses “ofícios parapelos”, muitas vezes, são grandes os saberes que realmente tornam nossas produções acadêmicas mais potentes no campo dos Estudos Culturais.

Quero concluir tão delicadas rotas, compartilhando com os leitores uma pequena história pessoal trazida por Fátima Pais, ao nosso encontro, como um presente ofertado por ela. Presente que me acompanhará para o resto de minha vida, porque há nessa história, uma imagem-força criada pelo falar de uma frase, dita todos os dias por sua mãe. E foi essa frase, que tomei para mim, meu primeiro pensamento em todos os dias desse pós-doutoramento, como um banho de ânimo e entusiasmo – ter ânimo é ter alma, a anima; ter entusiasmus, significa estar possuído pelo deus Dionísio. Leia a história, também se ânime e se entusiasme para se fazer doutor, como os heróis de nossa Webcartografia.

Meu pai sempre foi muito querido por todos, mas eu sempre tive a sensação que ele era visto como uma pessoa fora do vulgar, porque elas diziam assim: ‘seu pai, uma pessoa maravilhosa, bocadinho despistado, mas uma pessoa maravilhosa. Realmente, sabia muito, passou a vida a ler. Eu posso dizer que a minha mãe teve papel secundário. Minha mãe, digamos, ela fez-me heroína desde pequenina. Minha mãe acordava-me todos os dias dizendo: ‘bom dia, vamos pra batalha’ e depois um abraço enorme, caloroso, um abraço incrível, abraço maravilhoso de mãe. Com febre, com dor de dentes, com dores de barriga, fosse o que fosse, dizia sempre: ‘vamos pra batalha’! (Fátima Pais).

Convido você, a completar as rotas de leitura do mapa dos encontros, navegando pelas rotas das aventuras.

ROTAS DAS AVENTURAS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.