Sara Vidal Maia

Sou uma mulher e acho que é importante começar logo por aí. É, sou uma mulher, sou casada, ainda não cheguei aos trinta anos e por isso acho que estou a aguentar o doutoramento, de maneira ainda saudável. Bem, é feito com gosto. Mas que é pesado, é. O doutoramento é pesado, é bom, tem muitas contrapartidas positivas, mas é um trabalho muito pesado e é para quem gosta. Não é pra quem pensa que vai fazer e vai ser leve. Sou uma pessoa que gosta muito de estudar. Portanto, se perguntarem a alguma pessoa próxima o que eu gosto de fazer, toda a gente vai dizer que eu gosto muito de estudar.
Eu tive a felicidade de ter a bolsa e poder estar a fazer o doutoramento, porque era um dos meus objetivos de vida profissional. Portanto, quando tive a bolsa foi realmente um momento muito importante, porque me permite ter o tempo suficiente pra poder trabalhar com calma e ter as ideias no sítio.
Bem, a nível profissional – o meu percurso académico – eu sou licenciada em História da Arte. Fiz o curso em Coimbra, na Faculdade de Letras, nesta área científica. Depois vim fazer o mestrado de Gestão e Planeamento em Turismo, especialidade em Turismo e Cultura, aqui no Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial, no DEGEI, da UA. Enquanto estive a fazer o mestrado também estive a dar aulas de História da Arte a alunos de Turismo e de Comunicação, Imagem, Marketing. Estive a dar aulas de História da Arte enquanto estive a fazer o mestrado, a fazer a tese. Portanto, quando terminei, houve a oportunidade de trabalhar em investigação, na UA e de me inscrever no doutoramento. A nível pessoal, eu sou uma pessoa organizada e exigente demais com o meu trabalho e com o trabalho dos outros também.
Eu nasci na Murtosa. A minha mãe é da Murtosa e o meu pai é de Lisboa. A minha família sempre viveu na Murtosa. O meu pai vem de férias, conhece a minha mãe, casa e fica. Eu e minha irmã nascemos lá. O meu marido é de Lisboa, vem de férias, casa e fica. A vila onde moro é pequena, só tem quatro freguesias. É uma zona muito bonita, é uma zona rural, portanto, vive necessariamente da agricultura e da pesca, porque temos mar e temos um braço – o braço mais largo e mais extenso da ria passa na nossa zona. Portanto, estamos muito próximos da água. 
O meu pai é médico, é um cientista prático. A minha mãe é uma linguista, é uma mulher das letras, das humanidades e das línguas, fala muitas línguas. Trabalhava como secretária. Tinha uma espécie de bacharelado – agora já não existem estes cursos. O gosto pela História, o gosto pela História da Arte, pela Filosofia e pelas línguas, vem da minha mãe; foi incutido pela minha mãe. Vejo muito isso desde muito, muito cedo. Quando fazíamos viagens de carro, a minha mãe contava histórias da História. Por exemplo, quem era o Afonso Henriques? Agora vamos passar em Aljubarrota, o que é Aljubarrota? E depois aquela ideia, de sempre que passávamos numa igreja tínhamos que entrar pra visitar, sempre que passávamos num cemitério tínhamos que entrar pra visitar, sempre que passávamos num monumento tínhamos que parar para visitar. Essa é a parte que foi incutida pela minha mãe. Pelo meu pai foi, se calhar, a organização, o gosto pelo estudo, o ter o tempo pra trabalhar e o tempo pra brincar, não é. A questão da organização do tempo veio sobretudo do desporto. Porque eu fui atleta de competição durante muitos anos e não tinha outra hipótese se não organizar o meu tempo.
Eu tinha muito contato com a escola, com os livros, com a leitura, com o trabalho – que eu entendia a escola como um trabalho, que sempre entendi – e depois também com a parte prática, porque os meus pais faziam muita questão de nós conhecermos sobretudo o país, e levavam-nos a todo lado sem fazer muitas distinções. Eu desde os treze/catorze anos – que ainda é relativamente cedo, cá que só com dezessete/dezoito, que vamos decidir o que vamos ser – sabia que queria ser dessa área, não sabia que queria ser da História ou da Filosofia, mas sabia que era essa a área da investigação.
Quando eu concorri à faculdade, fui ver as vertentes dos cursos que me interessavam pra fazer. Eu até vi Psicologia, que também era uma das áreas que eu gostava, mas eu vi várias vertentes. Eu queria concorrer a um curso que me desse a possibilidade de ter uma experiência científica e académica e não só, a vertente educacional. Portanto, eu já sabia que queria ter a possibilidade de fazer um estágio, também de ser professora ou não, e em seguida ter uma vertente científica e académica. Foi o que fiz! A Historia da Arte depois abriu a possibilidade da via educativa e eu decidi prosseguir a via científica.
Eu terminei o mestrado em julho de 2010 e casei em setembro de 2010. Eu tinha que, obviamente, eu tinha que trabalhar. Eu já estava a trabalhar quando estava a fazer o mestrado, mas eu estava a trabalhar em part-time, só fazia algumas horas letivas, era preciso me manter e não dava. E então, como estava em curso determinado mestrado e eu tinha concorrido a uma vaga de investigação aqui, decidi ingressar. Houve um projeto que foi em parceria entre o Departamento de Línguas e Culturas e o DECA, que é um Departamento na área de Comunicação, e a cidade de Ílhavo, para trabalhar num projeto conjunto de regeneração histórica e urbana em Ílhavo. Normalmente abre-se concurso público para as vagas de investigadores. Durante esses doze meses que eu trabalhei como uma espécie de investigador júnior. O nosso papel foi de levantar o material que depois seria analisado e trabalhado com registo de investigadores que estão a coordenar os projetos. No nosso caso, era com a Professora Maria Manuel. Nós buscávamos o material e já analisávamos o material, porque ela tem muito aquela dinâmica de preparar os alunos. Neste caso, éramos alunos de doutoramento e alunas de doutoramento e também investigadores. Era um espaço em que nós buscávamos, analisávamos. Esses projetos são financiados pelo fundo Europeu. Era uma parceria que havia entre o setor público a Câmara; a Câmara Municipal de Ílhavo e a Universidade. Os financiamentos vinham, dos quadros de ajuda Europeu, era para fazerem determinadas obras e determinadas estruturações e, naquele contexto, há uma parte dos fundos que tem que ser distribuída. Esses fundos foram distribuídos e depois, reuniram várias pessoas para cumprir o papel de investigadores. Portanto, é bom para o investigador porque entra na prática e naquilo que está preparado pra fazer, durante aqueles nove meses, doze meses, vinte e quatro meses, não interessa, facilita porque entra no curriculum. É importante pra concorrermos às outras bolsas porque entra como experiência profissional no curriculum, na experiência de investigação. Depois permite que os trabalhos sejam publicados, permite a organização de eventos. Nós organizámos eventos, organizámos congressos, que acabavam por estar todos associados à investigação que estávamos a fazer. Mas depois também entra no nosso curriculum particular, pessoal, profissional e nós conseguimos depois ganhar alguma prestação e alguns pontos com isso.
Quando eu terminei o mestrado, casei. Ao terminar o mestrado logo fui concorrer ao doutoramento porque abriu o doutoramento em Estudos Culturais. Eu vi que era perfeito para mim! Mas pronto, eu estava com a bolsa de investigadora, portanto, tinha o meu trabalho de oito horas por dia. Eu acabei por falhar um bocado com a minha promessa, porque a bolsa não era uma bolsa a tempo inteiro para o doutoramento. Se eu venho da História da Arte e depois passo pelo Turismo Cultural, significa que eu não queria ficar presa em uma área específica. Eu queria um doutoramento que me permitisse conjugar várias áreas. Essa multidisciplinaridade dos Estudos Culturais, permite isso.
Eu tinha algumas áreas que eu gostava de trabalhar, porque enquanto estive naquele projeto a trabalhar em Ílhavo, foram-me surgindo algumas questões que desde muito nova eu tinha, só que não sabia disso. Mas que hoje, é o meu objeto científico, que é o trabalho que eu estou a fazer, porque estou a trabalhar com género. Eu já tinha algumas – como eu tenho muitas situações na família – pessoas na família, que vivem essa questão de os homens já estarem longe, durante muito tempo, ou porque migraram há trinta, quarenta anos e estão ausentes ou porque vão durante períodos, mais curtos de nove a doze meses, para pesca, estão ausentes. Eu vivi numa sociedade que era, sobretudo, composta por mulheres e por famílias compostas por mulheres ou dirigidas por mulheres. E essa era uma situação muito curiosa. Como é que aquilo acontecia, tão naturalmente, e ninguém estudava aquilo? Eu não sabia em que momento é que eu ia trabalhar com isso. mas já tinha comentado muitas vezes, até em casa com a minha mãe, que a situação era tão curiosa, então porque ‘como é que ninguém pega naquele objeto e não estuda?’ Como a história da minha bisavó, portanto, avó da minha mãe: o marido vai quarenta anos para os Estados Unidos emigrar e vem cá três vezes, faz três filhos – que é a minha avó e os dois outros irmãos – e depois de quarenta anos, volta. Pensava: como é que aquele homem quando se reforma volta e vai entrar naquela dinâmica em que tem uma mulher que gere uma família inteira? Deve ter sido realmente complicado, não sei. E lá existe muito isso, na zona onde eu vivo, aqui nesta zona de Aveiro e em Ílhavo também existe. É ligado a emigração, mas tem muito a ver com as pescas, com o bacalhau, durante muitos tempos. E eu interessava-me por isso, pessoalmente. Quando comecei a trabalhar neste projeto de investigação, comecei a me interessar por isso, academicamente, cientificamente, profissionalmente. Nos Estudos Culturais começo a pensar realmente essas questões do poder. Eu passei aqui pelas questões do poder, pelas questões da identidade, a própria questão de género ou os estudos dos meios de comunicação, porque a minha bolsa é na área da comunicação e da informação, portanto, tudo isso estava ligado.
As crianças dizem: eu quero ser medido, eu quero ser bombeiro, eu quero ser professora. Isso eu nunca disse: eu quero ser investigadora. Mas quando eu comecei a ter noção de que poderia ser uma área que eu poderia seguir, eu dizia, ‘eu gostava de investigar’. Que é diferente de ser investigador, não é!? E eu dizia, ‘eu gostava de investigar’ só que em qualquer coisa, ou trabalhar ou seguir uma carreira qualquer ligada ao ensino superior, porque era essa a ideia que nos davam, que para ser investigadora tínhamos que estar ligados ao ensino superior, de alguma forma. Então eu tinha essa ideia, desde muito cedo, desde do tempo que eu passei na escola secundária e nos primeiros anos da faculdade. Mas também nunca fechei muito a minha mente. Eu não consigo dizer que tenho um tema ou uma área específica que eu goste. Eu gosto é desta área das Humanidades, eu gosto é desta área da Sociologia, eu gosto do casamento que as duas fazem que é perfeito. Mas a área específica… Vou agora fazer Estudos de Gênero.
Eu gosto de pessoas e gosto de trabalhar com pessoas. A professora Maria Manuel incentiva isso, porque quando ela faz as reuniões de grupo, nós criticamos os trabalhos uns dos outros. Não crítica de orientadores, não é. Nós fazemos ali, crítica de como escrever certa frase, ou porque isso está mal, ou sei lá, propor mudar essa teoria, criticarmos o processo. Então, de certa forma, a nossa própria orientadora incentiva-nos a fazer esse trabalho. Já nos ajuda a criar métodos de julgamento para o futuro, acho eu. Nós colocamos muitas vezes o tema no ar, ou as nossas dúvidas, e os colegas também são chamados a fazer esse processo. Porque se nós considerarmos “fazer o doutoramento” uma profissão – que eu considero, porque pra mim é a minha profissão, apesar de não estar finalizado – temos que ver que é uma profissão difícil. E as pessoas têm que ter, têm que adotar determinados perfis, nas diferentes fases do doutoramento.
O doutoramento, normalmente, é um processo um bocado solitário. Uma parte do processo do doutoramento em que somos nós, sozinhos, é que fazermos; temos que estar sozinhos. Há muitas outras dinâmicas que acontecem e quando existem esses encontros – as reuniões conjuntas, as reuniões com os orientadores, as tertúlias, há às vezes os congressos, isso tudo – permite aos investigadores estarem juntos. E às vezes, nem estávamos juntos por causa do nosso objeto de estudo, às vezes, somente precisamos que alguém que nos ouça; para serem o nosso outro eu.
Wlad Lima e Sara Vidal em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Sara Vidal em entrevista na cidade de Aveiro.

4 comentários em “Sara Vidal Maia”

    1. Giane, sim as entrevistas foram lindas e Sara está encantadora nesse depoimento. Saiba que site aberto para todas as suas críticas e contribuição. Não vamos nos perder pelos caminhos da vida, que nem ontem! Abraços e muita energia para sua pesquisa e seu retorno para casa, lá no sul. Lembre-se, o norte te espera.

      1. Obrigada e mais uma vez parabéns pelo belíssimo trabalho Wlad! Foi uma alegria conviver contigo, mesmo que por pouco tempo! Um grande beijo!

    2. Giane, obrigada pelas palavras de amizade. Tu és uma pessoa e colega maravilhosa. Muito empenhada! Wlad, é estranho ver o nosso Eu tão exposto desta maneira, mas mt interessante. Gostei mt de te conhecer e conviver ctg, e acho que foste a pessoa ideal para fazer este trabalho! Bjo

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.