Simão Daniel Cristóvão Fonseca da Silva

Eu não tenho dificuldade nenhuma em me definir como pessoa, a minha identidade, a minha matriz e aquilo que são os meus princípios, meus valores. Mas como pessoa, pelos meus valores enquanto religioso sinto-me como uma pessoa criada por Deus e por isso tenho valor. Não estou a dizer que é falta de autoestima. Nós percebermos que temos uma missão a cumprir, que temos desígnios a fazer e que a medida que a vida vai arrolando, vamos descobrindo, nos realizando, vamos aprendendo a fazer a vida e a descobrir o que é o sentido da vida e a vivê-la na sua plenitude.
É uma descoberta que vamos fazer e isso, se calhar, é ser investigador da vida. Porque mais do que fazer uma tese, acho que é primeiro, é descobrir como é que se vive, e aí o Simão é esse aluno da vida. Apaixonado pela vida e a procura de aprender a viver, o que é viver em sua plenitude, em primeiro lugar. E depois sim, faz parte do campo acadêmico, faz parte das outras coisas todas em volta, mas esse é o Simão do centro. O homem a procura da vida por excelência e digo na sua matriz e pelos seus valores que tenho na fé, essa relação com os outros e com as coisas e até com os próprios estudos.
Eu nasci assim, não sei se fui trocado ou não, mas a minha mãe diz que não. Mas até porque muitas coisas são parecidas, eu sou muito demasiado parecido com o meu pai e eu sei que sou demasiado parecido com ele. Mas sou filho de portugueses da gema, como se costuma dizer, de uma cultura traçada entre alentejanos e bastante alentejanos e o meu maior desgosto é não ser mesmo alentejano. Muito calmo, muito tranquilo, e faz as coisas serenas e não está preocupado com a velocidade em que aquilo se faz e vai gozando; é que gozar a vida no sentido de lá está, não é de se gozar com a vida, mas é de sentir prazer da vida. Acho rico isso e o acho simpático. Como traço biográfico tenho pena de não ser alentejano, porque gosto da cultura alentejana. E sinto falta de não ter nascido lá. Mas graças a Deus tenho pessoas, tenho os meus pais, as minhas raízes de lá.
Herdo do meu pai o gosto pelo canto. Herdo da minha mãe o gosto pelos estudos. A minha mãe viveu um desgosto imenso que foi só te estudado até o décimo segundo ano. Comprou-me todos os livros e eu não abria nenhum. Ela queria que eu estudasse. E eu estudava apenas para passar. Eu creio que sai a costela do meu pai. Meu pai nunca gostou de estudar, mas adorava o campo e as coisas do campo. E eu acho que foi quando cheguei ao décimo segundo ano, que descobrir prazer nos estudos e aí comecei a ler desalmadamente. E então aí a minha mãe desistiu de comprar livros porque já não dava, porque eu lia-os todos. E aí, teve que ser eu a começar a comprar. Dei uma reviravolta e tanto nos estudos; como uma atividade prazerosa já não era um fardo, já não era uma obrigação. E como sociólogo, penso que herdei isso também da minha mãe.
Minha mãe era modista, não sei se usa o mesmo termo, mas é modista e costureira, durante a minha infância ela era sempre que fazia muitas roupas, na altura, eu não achava aquilo piada, porque todos os meus colegas compravam roupa e eu não. E eu ia igual todos os dias, mas também nós nunca estamos contentes com aquilo que temos. Eu fui um monte de vezes vestido de alta costura. A gente nunca está satisfeito. Somos três irmãos. São os dois mais novos do que eu. O meu irmão, dois anos e meio mais novo e minha irmã doze anos mais nova do que eu.
Meu pai nasceu e viveu no campo sempre, naturalmente, depois quando começou a trabalhar, tornou-se um operário fabril, mas sempre com relação ao campo. Ele sempre tinha uma horta e sempre tinha alguma coisa ligada ao campo. Íamos fazer piquenique no campo e eu ia ajudar o meu pai na horta e então sempre tivemos essa relação. Até ele morrer com a horta. A dez, quinze anos atrás, nós víamos as rotundas e em algumas autoestradas com tudo arranjadinho, tudo muito ajardinado, mas o Estado não conseguiu sustentar e agora vemos as pessoas a transformar esses jardins em horta. A minha mãe sempre gostou muito de ler o meu pai não. O meu pai gostava de literatura infantil, Tio patinhas, essas coisas. Então, a minha mãe, às vezes, chateava-se porque as escondidas ele trocava comigo os livros do tio patinhas com bolas. Como éramos sócios do círculo dos leitores, a minha mãe ia comprando os livros didáticos. Eu me lembro de que para comprar aqueles livros de entretenimento, ela sempre tinha medo, porque ela sabia que dentro da escola, e entre os amigos, trocávamos isso tudo. Mas me lembro de sempre de ver a minha mãe lendo, nos incentivando a ler e obrigando-nos também, miúdos não muito dotados pra leitura, que liam assim muito de vez enquanto.
A minha religião veio da minha casa, naturalmente, durante a minha infância e adolescência, depois se transformou numa opção minha, uma convicção pessoal. Hoje eu não vivo com a minha mãe e estou ligado a uma comunidade de fé. Conheci aquela que seria minha futura mulher em 22 de setembro de 2004, em uma ação de formação. Depois ela tornou-se voluntária, nós começamos a nos relacionar. Eu, como diretor executivo do projeto esperei o projeto acabar e convidei-a a namorar e passado três semanas, eu a pedi-a em casamento. Ela aceitou e passado cinco meses, casamos.
Minha esposa é fisioterapeuta, já a vinte anos mais ou menos. Ela não gosta de estudar, detesta estudar. Ela estuda por necessidade em algumas situações, em algumas situações novas, quando tem que estar a par, mas eu a incentivo sempre. Eu acho de não se trata de não gostar. Como acho que ela não tem métodos de estudo, então, isso se torna um fardo. E eu queria mesmo que ela fizesse a licenciatura, terminasse, mas ela não vai. Tirou mais tarde uma pós graduação, mas uma licenciatura, não. Pronto, mas agora dá equivalência. Eu gostava que ela investisse, até porque também gosto de estudar e queria incutir isso nela. Ela gosta muito do fazer.
Eu trabalhei numa associação sem fins lucrativos, ainda estou ligado a ela, não agora tanto. Ela se chama Sociedade Bíblica, cujo objetivo é apenas evitar, traduzir, colocar na linguagem contemporânea, as sagradas escrituras. Esse o nosso objetivo, não tem qualquer objetivo no sentido de como a igreja tem de fazer catequese ou qualquer outro tipo de ação. O que nós fazemos é traduzir o texto dos originais para uma linguagem, o português, mas num português contemporâneo, que é para o leitor poder ler o que está público, expresso. Nós entendemos que é este o nosso referencial, a partir dos dois mil e quinhentos vocábulos mais usados pelos jornais diários; que qualquer pessoa tenha essa capacidade de ler. O meu trabalho dentro dessa instituição, começa quando eu fui convidado por um professor meu, da licenciatura que eu fiz em teologia. Ele era diretor da instituição e convidou-me pra ir dirigir esse projeto. Foi uma nova mudança na visão e no corpo da própria instituição, que até aquela data era uma espécie de livraria e de editora. Pediam para nos disponibilizámos, dentro da nossa língua, essa matriz. Por pessoas que tem fé, mas por uma questão de cultura, eram impedidas de ler a Bíblia como um livro histórico. Compreender a nossa matriz cultural, aquilo que é a cultura ocidental, não pode ser, sem a compreensão da sua matriz judaico cristã. Fui exatamente trabalhar num departamento que visava não só levarmos a bíblia, as pessoas que não a tem, mas trazer as pessoas, a bíblia. Então, chamava-se departamento de animação bíblica e cultural. Nós procurávamos era fazer exatamente projetos de animação, onde as pessoas voltavam ao contato com o contexto bíblico e não numa perspectiva exatamente de fé, mas lúdica, só para voltar a perceber: ‘ora isto, é a nossa matriz cultural, não vamos esquecer isto’.
Um dos projetos que eu liderei e onde conheci a minha mulher foi exatamente, onde fizemos a bíblia manuscrita. Nós queríamos dizer é que a bíblia é um o patrimônio da humanidade, ponto final. E é patrimônio de todos e todos são convidados a lê-lo e cada um fazer a sua leitura. E naturalmente, que várias pessoas vão dar respostas diferentes. Esse projeto visava levar todos a experienciar, fazer a experiência dos copistas. Temos muitas obras porque alguém as copiou pra nós. E nós estamos esquecidos disso, da dificuldade que isso era, mas ao mesmo tempo em que era interessante, ler é diferente do copiar. Mas foi interessante que as pessoas vieram e então nós fizemos em todas as Capitais e Distritos de Portugal, participaram mais de cem mil pessoas. Acho que fizemos três edições da bíblia. A primeira edição, entregamos a Biblioteca Nacional, porque é isso que tínhamos visto, que não era um patrimônio dos portugueses, não é um patrimônio nosso, nós encadernamos de forma especial e entregamos a Biblioteca Nacional. A outra está a ser preparada e vai ser encadernada e entregue a Biblioteca de Alexandria, um ato que queremos dar como um patrimônio de todos, escrita por cem mil portugueses com a caligrafia de cada um, que é a identidade pessoal de cada um e com um texto que é todos. Então era juntar algo lúdico em que o avô vinha com o neto, os pais. Esse foi um projeto intergeracional também. Para perceber que este livro liga gerações. Tiveram situações que foram de certa forma, comoventes, de pessoas que ouviram do projeto e que queriam vir participar, mas num desgosto de não saber ler e escrever. E foi interessante, pegar na mão das pessoas e ir dizendo a elas, o que elas estavam a escrever, porque elas queriam muito participar e não sabiam escrever. Então, a primeira vez que escreveram foi um texto bíblico. E nunca mais esqueceram aquele verso. E queriam por tudo ficar com aquela folha, porque foi a primeira vez que tinham escrito e que aquilo marcou. Depois nós temos milhares de caligrafias no mesmo texto.
Eu fiz licenciatura em teologia, depois fiz outra licenciatura em ciências das religiões, antes mais tarde, fiz o mestrado em ciências das religiões e por sugestão de um professor meu, ele sugeriu-me o doutoramento em Estudos Culturais, ele me explicou mais ou menos qual era o âmbito e que seria um espaço ideal pra mim. Eu sem conhecer aceitei, não exatamente por essas razões, mas por outras. Para mim foi esse o desafio, sair um bocadinho do âmbito dos estudos das religiões. Eu comecei por estudar a religião cristã, a questão da teologia e depois foi o desejo de contextualizá-la e compará-la. Fazer uma análise comparada com outras religiões, conhecer o universo de outras religiões, sobretudo, analisar criticamente com parâmetros e critérios mais científicos, a própria área de estudos que eu já trazia da teologia e as ciências das religiões, ajudou-nos a fazer esse enquadramento.
A teologia tem haver com o estudo naturalmente de Deus, teologia, naturalmente que pode haver teologia islâmica, não é, que é uma percepção, um entendimento, é uma compreensão de Deus, a partir do Corão. Então há uma teologia cristã, o conhecimento de Deus a partir daquele corpo escriturário que são as escrituras. Há com os judeus, uma teologia judaica no sentido da exposição do entendimento de Deus a partir dos livros da Torá. Todos esses escritos são a teologia, a interpretação que cada uma das religiões faz a partir dos corpus doutrinários. Em específico, as ciências das religiões, fazem, não é exatamente, a análise da interpretação desses textos, procuram, com as ferramentas científicas quer da sociologia, quer da psicologia, quer de um campo interdisciplinar, perceber a influência do fenômeno em questão; não é a questão doutrinária, mas como se comportam os muçulmanos, os judeus. Poder estudar um povo em si, principalmente, os seus escritos. Por exemplo, eu nunca tinha tido contato com o Alcorão e foi lá que acabamos por ler, mas não é um entendimento doutrinário, mas apenas um conhecimento por questão histórica, ou seja, há uma análise histórica e não uma análise detalhada do corpo doutrinário.
Eu como já tinha a área de arqueologia, então me deram as equivalências, aliás, eu ainda não tinha terminado o mestrado e já estava inscrito no doutoramento. Por uma razão muito simples, porque terminei o meu mestrado, entreguei a minha tese e levei sete ou oito meses pra marcarem a defesa. Eu me lembro do professor Lima de Almeida, velhinho, já aposentado, do que ele me disse no dia da minha defesa de mestrado: ‘Simão porque que você escolheu este curso?’ E eu disse: ‘olha professor, eu acho que por influência da minha experiência de fé, os meus estudos na área da arqueologia, da cultura. E ele me disse: ‘Sim, mas você sabe que escolheu isso e isso não tem muita saída, não é, não é um curso de advocacia, não é!’ E eu disse assim: ‘pois, mas eu escolhi este curso pela realização pessoal, não foi por profissão. Foi para me realizar enquanto pessoa’. E ele rebate: ‘o que pensa em fazer com isto?’. Digo: ‘ há não sei. Ele: ‘e se não entrar?’ E eu disse: ‘se não entrar entro para o ano, outra vez, tento outra vez’.
Por tudo isso, estou a fazer o meu doutoramento em Estudos Culturais. Eu gosto, não de fazer investigação por uma questão de profissão, mas pelo gosto de saber, de estudar. E não é pelo gosto do intelecto, nem pelos canudos, nem nada disso, é pelo gosto de descobrir e de criar também. Tenho essa parte que é o meu gosto pelos estudos e poder também fazer isso pra viver. Claro que me preocupo daqui a quatro anos quando terminar a bolsa, o que eu vou fazer, quais são as saídas profissionais desse curso. Acredito que são zero. No momento, o meio acadêmico está saturado em Portugal. Não o vejo como um país que invista em investigadores e naturalmente, investi os recursos nas áreas que acreditam serem centrais e não tanto naquelas de ordem periférica. Tenho que reconhecer isso, mas, lá está, vou pedindo a Deus que me ajude.
Wlad Lima e Simão da Silva em entrevista na cidade de Lisboa.
Wlad Lima e Simão da Silva em entrevista na cidade de Lisboa.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.