Uiara Maria Oliveira Martins

Eu sou natural de Fortaleza. Tenho dois irmãos, um mais velho e um mais novo. Eu sou a única mulher, sou a filha do meio. Já não tenho mais pai, o meu pai faleceu. Éramos cinco e com vinte e um anos, eu perdi o meu pai.
Eu fui uma pessoa que sempre me envolvi muito com liderança. Sempre gostei muito desde nova de ser líder de sala, de ter muitos amigos e estar envolvida, de querer juntar e querer unir as pessoas. Sempre tive um relacionamento com os meus amigos de escola. E até mesmo hoje em dia, eu tenho vários amigos de 2º e 3º ano. Tendo essa relação com as pessoas, gostava muito de praticar esporte, de jogar futebol, de jogar vôlei. Durante esse período, eu era a filha que dava mais orgulho para o meu pai e mais trabalho para a minha mãe. Justamente por isso, porque eu gostava de fazer aquilo que os meus irmãos não gostavam. Então era assim, a gente chegava no final do ano, todos os três eram premiados na escola: eu era a melhor jogadora de futebol e os meus irmãos os melhores alunos. A minha mãe tem até umas medalhas que mostra isso, é muito engraçado.
Depois quando eu chego pra adolescência, tipo uns quinze, dezesseis anos, começa já aquela pressão do vestibular. Os meus pais eram muito organizados. A gente nunca foi rico. Pesava um pouco para o meu pai. Por causa disso, ele tinha que segurar muito a onda, porque o pai do meu pai, o meu avô, era presidente de câmara e prefeito da cidade onde o meu pai nasceu. A família toda foi criada muito bem. Só que assim, os homens da família sempre gastaram muito dinheiro com mulher, com bebida e com tudo. Então, aquilo começou também a afetar um bocadinho e a influenciar as outras gerações. Meu pai fazia todo o esforço para poder pagar escola particular pra gente e tudo. Quando cheguei nos dezesseis anos a minha mãe disse, ‘olha, é o seguinte: quem não passar em universidade pública, eu não pago universidade particular’. Aí começou a pressão!
O primeiro ano que eu tentei o vestibular, com dezessete anos, eu fui pra engenharia de alimentos, porque eu já tinha essa paixão pela comida e tudo. Não consegui passar. Foi quando abriu a primeira turma de hotelaria no CEFET de grau tecnológico, que funcionaria como se fosse universidade também. Lá, eu passei muito bem colocada, para surpresa de todo mundo. Eu era sempre muito brincalhona e tudo, assim, eu não tinha realmente aquele interesse pelos estudos como os meus irmãos tinham. Tanto é que o meu irmão mais velho é engenheiro em informática e hoje em dia, é engenheiro do metrô de São Paulo. O mais novo está terminando medicina. São áreas bem diversas da que escolhi. Mas mesmo assim, fui um orgulho muito grande para o meu pai, para a minha mãe também, em especial.
Meu pai era operador de subestação da COELF em um tipo  de função que eles tinham; função que era uma coisa muito específica, inclusive na altura, ele ganhava mais do que um engenheiro. Ele tinha muitos problemas com os engenheiros pelo perigo da profissão. Ele trabalhava em uma subestação elétrica e minha mãe também trabalhava em uma empresa de hidrelétrica que era na SHEV. Só que ela trabalhava na parte de telefonia.
Tivemos uma avó que teve mais tempo conosco quando nós éramos pequenos. O meu avô tinha essa facilidade em tudo, porque era político na época. Ele também trazia muitas meninas do interior para ajudar em casa. Pelo menos na minha casa, desde bebê até uns oito anos mais ou menos, a gente sempre teve pelo menos duas pessoas em casa para ajudar. Uma para cuidar da gente e outra pra cuidar da casa. Pronto, a minha mãe acabava por adotar um pouco as meninas porque ele as trazia para casa. Também colocava para estudar, tratava de uma forma diferente.
Os meus irmãos nasceram todos em Fortaleza, como eu. O meu pai nasceu em São Luís do Opuru. É um interior perto, onde toda a família, e em especial o meu avô, tinha a politicagem toda, lá. A minha mãe nasceu em Barreiras, quer dizer, num interior também próximo, mas foi logo pra Fortaleza. A minha mãe diferente do meu pai, viveu uma infância mais humilde e mais pobre e perdeu o pai quando tinha nove anos e pronto.
Na escola uma das coisas que eu mais gostava de fazer era redação. Com isso, a gente lá em casa, se saia muito bem. Todas as provas, exames de vestibular, tudo que a gente fazia era muito bom. Nos trabalhos era onde eu tirava as melhores notas. O meu problema era com as provas, estudar para as provas. Mas meus trabalhos eram sempre 9 ou 10 nas notas. Tanto é que a minha mãe dizia, ‘minha filha, você pra trabalho é uma maravilha!’ Meu problema era dar prioridade, como os meus irmãos, aos estudos. Eu não tinha o ritmo como o deles. Todos nós sempre estudamos de manhã, acordávamos muito cedo, sempre foi assim. Eu só estudei um ano a tarde, e já nem me lembro qual foi o problema. Acordávamos muito cedo e depois íamos para a escola que era próxima da nossa casa. Na hora do almoço, era o jornal do meio dia; na hora do jantar, era o jornal nacional.
A gente sempre teve muita liberdade em casa para trazer os amigos, desde sempre. Até porque a minha mãe dizia que quando ela era mais nova, ela não tinha isso com a mãe, então ela sempre presou isso com a gente; então tudo acontecia na minha casa. Até depois da universidade, festas, tudo, tudo acontecia na minha casa. Festa de natal ou qualquer outra coisa, mesmo que fosse pequeno, apertado pra todo mundo, mas era lá. A nossa infância… Eu não me recordo de ter uma infância ruim, ao contrário, pelo fato também da questão do meu avô de estar muito tempo lá na prefeitura. Ele mandava sempre uma coisa para gente no final de semana. Ele era muito carinhoso e a gente sempre tinha muita coisa com o que brincar. O parque que ele mandou fazer na cidade – tipo um playground que ele mandou fazer – naquela época, não abria antes das cinco, mas quando a gente estava na cidade, abria uma hora. Eu não tenho muito do que reclamar a nível dessas brincadeirinhas e essas coisas todas.
Das lembranças ruins que eu tenho de infância, aquilo que eu me recordo, é só da bebida do meu pai, porque eu sabia que um dia ia ocasionar uma coisa ruim pra ele. Minha mãe sempre foi o poder da casa, mesmo não tendo dinheiro, ela sempre foi a organização da casa. Então ela organizava, ela dirigia, ela estava sempre vendo isso e aquilo e assim meus pais sempre foram também muito unidos. Passaram isso muito pra gente e chegou uma altura que a minha mãe já não me dava mais boneca, porque ela prezava pela integração da gente na casa. Então, a gente brincava muito de jogos, começou a surgir tipo, um passa ou repassa, a gente jogava juntos. Chegou uma altura que eu tinha as minhas bonequinhas antigas, mais a gente tinha que brincar juntos. Foi sempre assim essa união, pode ser coincidência ou não, mas essa união até hoje acontece.
Eu sempre tive muito problema com comida, porque eu tinha problema de garganta e eu tinha problema em comer e era muito fastiosa. Até os doze anos, eu era assim ó… Magrinha. E depois eu não queria comer tudo e aquilo que eu não gostava. Minha comida, sempre que eu ia no centro com a minha mãe, era cozinha; e coxinha cheia de massa. Eu tinha uns doze anos por aí, então eu inventei que queria aprender a fazer coxinha. E quando fui aprender a fazer uma cozinha, por acaso, ficou muito boa, né. Assim eu fui começando! Comecei a fazer teste. Tinha dia que eu falava, ‘vou fazer um bombom de uva’. Pegava a uva, fazia o suco da uva e botava com açúcar na panela para ferver até virar um mel e fazia uns bombons. Assim, eu fui inventando. Minha mãe não estava em casa. Tinha uma menina que morava com a gente e então, não tinha aquele impedimento, sabe. Não tinha coisas assim como: ‘você não vai fazer’ e não sei o que. Quando ela viu que eu comecei a gostar ela começou também a estimular. A minha mãe nunca foi de cozinhar coisas finas, mas cozinha e cozinha bem também, mas coisas do dia a dia como, arroz, feijão, macarrão. Ela faz uma carne muito boa. Ela começou a me ver e começou a estimular. Eu comecei, acredito nisso, porque eu comecei a cozinhar por querer comer coisa boa; por ver que as pessoas podiam fazer melhor e não faziam. Olha, eu estraguei muita coisa, errei muitas vezes, fiz muita porcaria na cozinha, mas aprendi. Eu cozinhava até para dez pessoas, às vezes. Comida para três, quatro e até mais. Fazia um monte de comida que era para não faltar. O meu início na cozinha foi mais ou menos assim, foi tipo inventando e brincando. A minha mãe foi deixando, foi deixando e eu pedia, ‘olha, mãe vamos fazer não sei o que’. Ela, às vezes, chegava cedo para ficar em casa com a gente e aí existia aquele estímulo, tipo na gincana da escola, eu levar brigadeiro para vender. A gente fazia tudo. Ela me ensinou a fazer bolo.
Aos quinze anos, uma vizinha estava precisando de ajuda, porque ela trabalhava com salgado e com doces e a funcionária faltou e ela sabia que eu gostava de fazer e me chamou pra ajudar. Eu ali aprendi a cozinhar e a ganhar dinheiro. Tanto que quando eu cheguei nos dezessete anos, além de gostar da festa, também tinha o meu dinheiro para sair. Comecei a fazer encomenda de salgado e doce. Trabalhava em casa e estudava ao mesmo tempo. Então, dos dezessete, dezoito anos, foi um boom! Eu passei na universidade, já fazia salgados, doces e outras coisas, tinha ali um emprego mais ou menos fixo. Quando entrei na universidade, comecei a trabalhar em hotel, a estagiar em hotel. Mas fiquei fazendo os salgados, isso até os vinte e três anos.
Eu vim para Portugal porque eu conheci um português, através de uma amiga em Fortaleza. A gente começou a namorar a distância. Eu não sabia se era o problema do namoro, mas quando eu vim pra cá, a gente já não estava bem, mas mesmos assim decidi vir. Tomei essa decisão sozinha porque eu já tinha mais ou menos me preparado. Nessa altura também, eu com vinte e três anos, já dava aulas no Pró-jovem, aquele programa do governo federal. Eu dava a parte técnica do turismo, a convite de um professor do CEFET. Ali eu já ganhava mil reais morando do lado do CEFET, para além dos doces e salgados que eu fazia, para além das coisas que eu fazia também no hotel e ainda ganhava um dinheiro com comissão. Tudo isso me fez juntar um bom dinheiro para poder vir. Eu usei isso para ter uma justificativa para minha família, mas também para dar continuidade a minha carreira acadêmica, porque quando eu terminei a graduação, o meu professor ficou muito satisfeito com a monografia e tudo, e me sugeriu a começar um mestrado.
Eu vindo de uma formação extremamente prática, cheguei aqui e sofri horrores, porque não tinha esse estímulo da leitura. Porque você que vem de hotelaria, o que que você aprendeu foi a atender hóspedes. Você vai aprender inglês, você vai aprender a coordenação de um hotel etc. Então assim, eram coisas práticas demais e eu pensava que o mestrado ia ser uma continuidade do curso de Turismo.
No começo eu consegui me manter com aquele dinheiro. Até porque ainda tinha mais um ano e meio pela frente. Só que o que aconteceu é que na minha turma tinha doze pessoas e essas pessoas eram doze brasileiros, quer dizer, eu dei uma sorte tremenda. Uma das meninas que eu conheci, tinha vindo como eu, não com um namorado, mas tinha vindo para se arriscar, para trabalhar. Ela conseguiu trabalho em um restaurante e me levou depois para trabalhar lá. Assim, terminei a primeira aventura, o mestrado.
Cometi uma série de erros na época da minha dissertação . A professora Maria Manuel Baptista foi muito paciente, foi boa comigo e eu não tenho nada do que reclamar. Chegava e sentava comigo, revia tudo, me ajudava e corrigia vírgula por vírgula. Depois disso, a professora Maria Manuel me perguntou se eu não queria entrar no doutoramento de Cultura. Eu fiz o projeto muito rapidamente, porque ao doutorado já tinha fechado e eu tive que submeter o projeto ao conselho, mas o projeto passou e eu comecei. Submeti a minha candidatura ao projeto Mimar. Nesse projeto eu trabalhei e consegui ganhar uma bolsa de 745,00 euros. Foi um alívio geral para poder continuar. Depois, terminou esse projeto e eu submeti a uma  candidatura FCT. O projeto terminou em julho e a resposta da FCT saía em agosto. Quando saiu a resposta e eu não tinha conseguido, eu falei, ‘eu vou embora, trabalho e quando der, eu volto e continuo a tese’. No outro dia a professora recebe um email da câmara da Murtosa dizendo que o projeto dela tinha sido aprovado. Ela me disse, ‘você não vai embora porque eu tenho aqui a bolsa da Murtosa’. Pareceu um milagre! Quando foi em novembro, dezembro, eu comecei a trabalhar nesse outro projeto e aí, o ano de 2012 também ficou completo. Esse projeto terminou em dezembro de 2012. Esse inclusive foi melhor pra mim porque foi muito direcionado para o turismo e para a gastronomia. Tipo as rotas turísticas, que é aquilo que envolve também o meu trabalho. Acabava que tudo aquilo que eu ganhava de experiência nesse projeto, de literatura e também prática, servia pra mim de alguma forma. Foi um projeto que eu pude aproveitar mais.
Meu mestrado foi em Gestão e Planejamento em Turismo. Foi no DEGEI. A professora Maria Manuel foi a minha professora de Turismo Cultural. Quando eu vim para cá é que eu tive essa mistura da teoria com a prática. Eu trouxe a minha prática do Brasil, e a teoria toda, eu aprendi aqui, principalmente, a ligada ao Turismo. Eu digo que hoje em dia eu me sinto uma profissional mais completa por isso.
Acho que nós brasileiros, quando chegamos aqui, por mais que sabemos, temos pegar esse ritmo de teoria que aqui tem na Europa. Quando a gente tem essa fusão das duas coisas à gente fica um profissional muito melhor. O meu objeto de pesquisa no mestrado foi a gastronomia portuguesa no Brasil, um roteiro de Turismo Cultural. Eu estudei toda a infância da gastronomia portuguesa no Brasil e criei o roteiro com base nos Estados que mais recebiam turistas portugueses. Três roteiros gastronômicos que poderiam ser feitos, com base em receitas com a influência da gastronomia portuguesa.  Temos o vatapá, que muita gente não sabe, é uma comida de herança  portuguesa. Contei a história de tudo. E, em cima da história como diz a professora Maria Manuel, contar a história e proporcionar uma vivência. Todas essas histórias da comida foi que eu passei com os roteiros. Os Estados que eu estudei foram, o Ceará, o Rio Grande do Norte, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e a Bahia. Eram os Estados que recebiam mais de vinte e cinco mil turistas portugueses. Eu trabalhei com estes Estados, porque aí, eu tinha como justificar. Por exemplo, Minas Gerais, tem uma culinária que abarrota também de influência portuguesa, tem várias comidas com muita influência portuguesa, só que eu não podia falar de uma coisa que não se justificava como roteiro turístico dos portugueses de hoje.
Quando decidi entrar na área da cultura, eu pensei que era uma oportunidade de valorizar e deixar o meu trabalho do Turismo, menos prático. A cultura é muito importante, mas para ela ter importância, tem que ter esse planejamento econômico. Eu sempre quis trabalhar com as coisas muito bem fundidas. Para mim, o tema central era criar um modelo de rota gastronômica. Eu quero fazer no Brasil porque é o lugar que eu vou voltar pra trabalhar. Você cria uma rota fundamentada e depois você vende como um produto. Não tem ninguém até hoje que criou um modelo conceitual de rota gastronômica. Nem no Brasil e nem em nenhum lugar.
Depois dessas experiências, voltei para o Brasil, enquanto esperava o resultado das bolsas do CNPq e CAPES. Também não fiquei parada, assim, só esperando os resultados. Dei uma disciplina de Sociologia do Turismo, online, pela Universidade Aberta do Brasil, pelo SENAC. Esta formação que eles estão dando lá, em Turismo, foi uma coisa também que ocupou o meu tempo. E pronto, assim fui me virando, até que saiu o resultado do CNPQ e eu não consegui. Não tinha bolsa, porque o meu projeto foi aprovado, apesar de ter sido o segundo melhor do Brasil, não me deram a bolsa. É o mesmo que nada! Porque da minha grande área, só teve uma bolsa e essa foi dada para um arquiteto. Pronto, aí já tinha ficado desanimada e tudo, quando surgiu, realmente, uma oportunidade do SENAC. Eu fiz todas as seleções e só estava esperando o resultado final. O que acontece? Passei nas duas. No dia que saiu o resultado da CAPES, o SENAC também me liga para eu começar a trabalhar. Foi tudo ao mesmo tempo. É engraçado porque quando acontece, é uma tensão, uma tensão, uma tensão e na hora… É tudo de uma vez! Sabe, sempre é desse jeito.
Na realidade aquilo que eu pretendo para o doutoramento – ainda tenho que conversar muito bem com os professores – é o seguinte: Turismo Cultural no Brasil: nas Rotas da Tapioca em Fortaleza. Como é que a gente cria uma rota turística e gastronômica? A gente não pode criar uma rota só com uma pessoa, a gente tem que criar uma rota como uma rede. E tem que fazer uma criação de rede e aquilo que eu vou estudar na comunidade das tapioqueiras em Fortaleza é exatamente como é que anda essa ligação, do produtor como o tapioqueiro, com o fornecedor, com o produtor da goma, com o fornecedor da goma com o tapioqueiro, com quem compra, com o agente de viagem que leva pra comer, como é que os hotéis estão se comportando com relação a isso… Então, assim ver toda essa ligação e ver como a partir dela, pode se criar um produto que é uma rota; ver como esse ambiente está funcionando.
Acredito que é possível ter uma rota a partir daqui desse caminho, fazendo uma ligação com a qual, todo mundo se beneficie. Assim, a gente cria alí uma proposta que envolve a valorização da identidade cultural dessa comunidade. Tenho que contar um pouco da história da comunidade das tapioqueiras de Fortaleza. É uma comunidade que foi transferida de um lugar para outro. Essa comunidade fabricava tapioca na varanda de casa, onde tinha um forno; é uma comunidade artesanal, de descendência indígena. Essa comunidade fazia tudo em casa, normalmente. Todo mundo passava lá na beira da estrada, que era uma avenida. Antigamente, dava acesso as praias do litoral leste. Todo mundo que passava lá, comprava essa tapioquinha. De repente, o que o governo faz? Tapa aquela avenida. Tipo assim, já não deixa ela como via principal e cria a FE040, passando a dez metros ou vinte dali. Essa mudança tira o comércio daquelas famílias que viviam a setenta anos da tapioca do Ceará e criaram filhos e netos e acabam por perder tudo. A comunidade organizada mostra para o Governo que eles tinham que dar uma forma de subsistência àquela gente. O governo responde, ‘então, está bem, nós vamos criar o centro das tapioqueiras e vocês vêm pra cá e assim, não deixa de ganhar dinheiro’. O que o centro traz? O centro traz uma mudança de espaço e de ambiente, total para eles. Pense, ‘quando eu trabalhava em casa, eu mãe, deixava a minha filha cuidando da filha dela e ficava de manhã tapioqueira e a tarde eu trocava com ela e eu que cuidava da filha, eu sentava na minha cadeira, ia fazer o almoço, ia limpar a casa, enquanto não chegava um cliente ou fazia qualquer coisa do gênero’. Quando elas vão para o centro, o que acontece? Há uma desestruturação familiar enorme, perdem várias características. O SEBRAE junto com o Governo, ensinam para elas, as tapiocas recheadas e elas passam das tapiocas tradicionais para as tapiocas recheadas. Aquilo vira uma coisa extremamente turística. Tudo para elas gira em torno do financeiro, porque elas não tem apoio do governo, apesar do governo deixar elas lá. O apoio que elas tem é do SEBRAE, vai lá de três em três meses, refaz a formação delas desde o começo e elas tem que aprender a atender, ter jornada de trabalho de doze horas ou quatorze… Fazer o que? Contratar outras pessoas o que não faziam antigamente, quando estavam nas casas?
Então é assim! Elas passam por uma série de transformações que afeta a identidade cultural delas. É disso que eu quero falar! Falar de tudo o que envolve a rota das tapioqueiras de Fortaleza e que implica, culturalmente, tudo isso que narrei.
Wlad Lima e Uiara Martins em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Uiara Martins em entrevista na cidade de Aveiro.

Um comentário em “Uiara Maria Oliveira Martins”

  1. Lindo documentário sobre a vida da minha irmã. Apesar de todas as dificuldades, soube superá-las e, hoje, já está perto de concluir o seu doutorado. Tive o prazer de estar com ela em Aveiro e vivenciar o clima da Universidade. Deus ainda tem muito guardado para ela.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.