Jenny de Jesus Campos

Eu sou uma pessoa normalíssima! Tenho um pouquinho mais de 30 anos. Acho que sou uma pessoa simples, pelo menos tento ser. Tenho essas raízes: sou apaixonada pela vida, pela família, pelos amigos, pelo trabalho. Nada de diferente de nenhum outro. Sou uma mistura de uma cultura que é latino-americana com a portuguesa, mas no coração sou portuguesa, apesar de em algumas coisas, ter muito de venezulana. Eu acho que as identidades mexem, são líquidas. A Jenny que eu era, por exemplo, há 10 anos atrás, está aqui, só que cresceu e desenvolveu. Quando falamos de comunidade – e é essa uma das partes que eu adoro no nosso trabalho – é perceber de que forma é que a Jenny consegue influenciar a pessoa A, B, C; como é que essa cultura consegue influenciar a Jenny. É um jogo de influências, mas nem sempre elas são notadas, nem sentidas, nem percebidas, pelo contrário.
Eu vivo com o meu marido. Mas tenho uma relação muito próxima com os meus pais e com a minha irmã, assim com a família mais direta. Depois tenho mais meia dúzia de pessoas que são muito próximas, muito chegadas. Mas a minha família central é o meu marido, meus pais, minha irmã e meu cunhado. Moro em Espinho, uma cidade pequenina e muito organizada, que dá pra passar de uma ponta a outra à caminhar, em 40 min, calmamente. É uma cidade, felizmente ainda, tranquila. É segura, tem um bocadinho de tudo, mas acima de tudo tem o mar, que é a parte mais bonita; que é a parte que me fascina.
Eu nasci na Venezuela, daí a minha influência latina. Mas eu vim para Portugal com 5 anos e desde então nunca mais lá fui. Os meus pais são portugueses que imigraram para Venezuela e estiveram lá mais de 15 anos, depois voltaram por questões de insegurança, não por uma opção. Optaram por vir para um país que era mais tranquilo e vieram para Portugal, para a terra da minha mãe. O meu pai é de Cantanhede, aqui no distrito de Coimbra. O meu pai chama-se Víctor Taipina. Minha mãe chama-se Maria Antónia Campos. Minha irmã, Cristina Campos. Meu marido, Walter Tavares, e é francês.
A vida dá muitas voltas e eu quando acabei os estudos, passado uns anos, fui convidada para ir trabalhar em uma empresa. Quando fui trabalhar para essa empresa, o meu marido trabalhava lá e pronto. Construímos uma amizade e quando demos por ela, já estávamos apaixonados e 4 anos depois casamos. Fizemos 2 anos de casados. Os meus pais vivem em Olivães, pertencente a Nogueira da Regedoura, portanto Santa Maria da Feira. Como moro em Espinho, a distância de um sítio para o outro são de 3 km, portanto, não é nada. A minha irmã mora a 500 metros de mim, mas foi pura coincidência.
Tive uma infância super feliz, daquelas de brincar na rua e se encher de terra; de ir de bicicleta para praia, em Espinho. Dez miúdos, sem nenhum adulto a tomar conta de nós. E nós, além de brincarmos como qualquer criança, tomávamos conta uns dos outros. Foi uma infância muito vivida em grupo, com familiares, primos e irmã, com vizinhos. A minha infância foi muito feliz! Fiz a primeira classe, o primeiro ciclo em Espinho e desde então, nunca mais saí de lá. Teoricamente, eu tinha que estudar em Santa Maria da Feira, mas entrei na primeira classe em Espinho e fiquei até o 12º.
O meu pai sempre foi comerciante, de diferentes coisas, desde produtos alimentares, a jornais, revistas, produtos de farmácia, vestuário. A minha mãe é modista e costureira. Durante muitos anos trabalhou em casa, portanto, é fácil imaginar como que é uma relação com uma mãe que está sempre em casa; é uma relação muito próxima. Era ela quem nos ia buscar à escola às 16 horas. Íamos para casa, lanchávamos, fazíamos os deveres e depois íamos brincar. E brincávamos até que uma mãe gritasse por um filho, aí os outros já sabiam, temos todos que ir pra casa. Era assim, era mesmo ambiente de aldeia.
Como companheira de brincadeiras sempre tive a minha irmã e hoje em dia, posso dizer que a minha irmã é minha melhor amiga, sem sombra de dúvidas. Felizmente também casou com uma pessoa que eu adoro e que considero como se fosse meu irmão. E depois tenho um tio, com quem também cresci, que é mais irmão que tio. E mais uma vez, ele também casou com alguém com quem me dou muito bem, têm um filho, o meu afilhado, um miúdo que eu adoro mesmo.
Na infância os meus pais sempre nos ensinaram. Íamos pra escola, chegávamos, lanchávamos, fazíamos os deveres, os trabalhos de casa, fosse o que fosse, e só depois é que se brincava. No início andaram muito em cima de mim e da minha irmã, até os 10 anitos que é quando se acaba a 4ª classe, mais ou menos. A partir dali, nós já tínhamos os hábitos de trabalho, não tinham que nos mandar trabalhar. Nem meu pai e nem minha mãe são licenciados e eles sabiam que nós estávamos um bocado por nossa conta. Nós também sabíamos todo o esforço que eles estavam a fazer para nós estarmos as duas a estudar. Então, não havia a menor chance, nem de minha parte e nem de minha irmã, de podermos falhar. Assim, essa era a nossa responsabilidade. Se meus pais trabalhavam, para nós estarmos as duas a estudar, a única coisa que nós podíamos fazer para compensar, era fazer o melhor possível. É claro que havia períodos do dia em que se estudava mais que outros. Para mim, as manhãs eram difíceis. Eu prefiro, por exemplo, acordar às 9:30, tomar o pequeno-almoço e depois começar a trabalhar as 10. Ficar a trabalhar até, às vezes, até as 20h. E às vezes, depois de jantar, volto ao PC para reler coisas, responder a emails etc.
Eu fiz a licenciatura em Gestão de Património Cultural no Instituto Politécnico do Porto. Quando me inscrevi pra licenciatura, eu não fazia muito bem que ideia era aquilo. Eu queria trabalhar numa área que misturasse cultura, património e turismo. E como em Portugal não havia nada, não havia nenhuma licenciatura que não fosse, ou turismo ou património, eu achei que a gestão de património cultural era a única que misturava um bocadinho das três. Então me inscrevi ainda sem saber bem. Fui naquele espírito de aventura de quem tem 18 anos, sem saber muito bem o que era aquilo. Inscrevi-me e adorei. No último ano fiz estágio na Biblioteca Municipal de Espinho. O objectivo do meu estágio era criar um projeto que obrigasse a Biblioteca a sair das quatro paredes e começar a entrar em contato com a comunidade. Assim o fiz e correu muito bem, lindamente. Depois acabou a licenciatura.
Quando acabei a licenciatura, estávamos num ano em que era relativamente complicado arranjar trabalho em Portugal. Mas eu sempre aprendi que mais vale fazer alguma coisa do que estar parada. Pronto, então foi o que eu fiz. A licenciatura acabou em julho, e já em Setembro comecei a mandar currículos pra todo o lado. Na altura trabalhei em vários pequenos serviços: em AT’s, parques de diversões infantis, dei formação… Fui trabalhar para um armazém agrícola, em uma loja, trabalhei lá dois meses. Ao fim de dois meses fui chamada para uma companhia de dança contemporânea no Porto; passei a ser produtora. Trabalhei em uma companhia de dança contemporânea e em uma pequena companhia de teatro que pertencia a Fundação Narciso Ferreira, em Famalicão, para além de trabalhar algumas horas no Europarque. A primeira experiência, uma pessoa nunca esquece, adorei. Ainda hoje em dia, adoro aquela gente, ficaram-me sempre marcados no coração.
Por outro lado, eu sempre tive o bichinho da investigação. Desde o tempo do projecto da “Biblioteca sem paredes”, porque tive que fazer uma minitese, alí. Nessa altura ficou-me o bichinho a remoer, mas… Bom, não dava em termos de dinheiro, era impossível. Eu sabia que tinha que trabalhar para conseguir pôr algum dinheiro , de lado e de outro. Um dia mais tarde, pensava em fazer o doutoramento, pronto. Estava a fazer as produções quando uma colega minha que trabalhava numa empresa me perguntou se eu queria trabalhar com eles, sem deixar a produção. Era um projecto de recolha de tradições e memórias, memórias perdidas em Portugal. São aldeias e estou a falar de aldeias muito pequeninas. Algumas tem dois habitantes, outras têm 23. Fomos nós, fazer um projeto de recolha de histórias de vida, de recolha de tradições. Um projeto muito giro que eu aconselho que vocês vejam, chama-se Aldeia de Memória. Correu tudo muito bem. O projeto durava dois anos, e ao final de um ano desse projeto, fui convidada para trabalhar na tal empresa. Tive que optar: ou ficava na produção ou então passava para este projeto.
Fui então trabalhar para essa empresa que se chamava Sítios e Memórias, continuar a trabalhar no projeto das aldeias. O meu objetivo ali era criar novos projetos e foi isso que eu fiz. Criamos um projeto que era o projeto de valorização do comércio tradicional da baixa do Porto. Estava inserido na SRU como Sociedade de Reabilitação Urbana da cidade do Porto . O objectivo era falarmos com as pessoas que vivem daquele comércio tradicional, recolher as suas memórias porque algumas delas tinham lojas que estão abertas há 80 anos. Eram lojas que vinham de família. Nós falamos com pessoas com 86 anos e que trabalhavam na loja desde os 12 anos. Portanto, há ali um conjunto de memórias, há uma riqueza de vivências naquelas ruas que estavam ali a perder-se, porque mais cedo ou mais tarde, muitas daquelas ruas vão fechar, e infelizmente, é o que está a acontecer. Algumas delas já nem sequer estão abertas.
Fizemos o projeto e quando esse projeto do comércio tradicional estava terminar, a Profª. Maria Manuel liga-me – porque eu mal acabei a licenciatura, mandei um e-mail à professora Maria Manuel Baptista – e disse ‘olha vamos começar com um projeto que tem tudo a ver consigo, por que está relacionado com as histórias de vida, está relacionado com a recolha de tradições e memórias das comunidades e nós gostávamos de ter tua entrevista, não é nada seguro, mas nós não gostaríamos de deixar passar’. Eu vim. Vim sem fazer a menor ideia se ia ficar ou não. Vim porque era mais uma porta, mais um passo em direcção a investigação e a trabalhar na universidade. Vim fazer a entrevista e passado dois dias, a professora liga-me a dizer ‘olha, se quiseres o lugar é teu’. E eu, pronto, despedi-me numa sexta-feira e na terça-feira já comecei a trabalhar aqui.
Começar o projecto Mimar em julho e nós, em outubro, começamos o doutoramento. Nós, porque éramos três no projeto: eu, Sara e a Uiara. Fizemos todo aquele primeiro semestre de cadeiras. E quando entregamos o projecto, abrem as candidaturas para bolsas, candidatamo-nos. Entretanto, o projecto Mimar acaba e eu tive que voltar à carga, na procura de trabalho. Só depois, aparece a resposta da FCT, a dizer que sim, que eu tinha a bolsa. Pronto, podia continuar com a investigação. Só que a resposta da FCT saiu em Setembro, e eu em Agosto, já tinha trabalho. Então, fui dar aulas para o Instituto Politécnico de Leiria, no curso de Animação Cultural, ministrando Projeto Cultural 2, Gestão Cultural 2 e a dar Gestão Cultural 1. Só que a FCT, nesse ano, não permitia que a partir do momento que nós começássemos a bolsa, déssemos aulas. Então, eu tive que dar só o primeiro semestre das aulas e ser substituída no segundo. Entretanto, veio também um convite da Profª. Maria Manuel para leccionar com ela a cadeira de Cultura e Património, a parte prática – a Professora Maria Manuel Baptista, dava as aulas da parte teórica.
Quando eu acabei a licenciatura, eu disse logo que queria seguir para doutoramento, só que não podia, por questões monetárias. Na verdade se eu quisesse, podia ter feito! Os meus pais sempre me disseram ‘vai que nós pagamos’, mas eu achava que não; eu achava que eu acabei a licenciatura com 22 anos e já chegava. Chega um momento em que eu acho que nós temos que ser independentes, monetariamente, dos pais. Os pais têem que conseguir voltar a ter um folgo, que não podem ter, se tiverem que pagar as coisas aos filhos.
Desde os 22 até aos 27 anos, ouvia o meu pai, a minha mãe, a minha irmã, a dizerem: ‘vai, inscreve-te’. Sempre incentivaram. Conheci o meu marido e ele é igual, faz parte da equipe do empurra, sempre. Até que veio o momento em que eu entrei aqui para o projecto Mimar, e esse momento parecia ser o certo. Inscrevi-me e tive o apoio de toda a gente. Agora estou dedicada totalmente à investigação, porque tenho a bolsa.
Wlad Lima e Jenny Campos em entrevista na cidade de Aveiro.
Wlad Lima e Jenny Campos em entrevista na cidade de Aveiro.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.