Maria Goreti Esteves Pinto Monteiro

Eu sou uma pessoa que procura sempre algo na vida e que procura sempre estar a estudar, ler e que gosta de ler, pronto! Que gosta de viver a vida de uma forma bastante positiva, por isso, gosta de ser professora. Sou filha por que não consegui ter filhos e já tenho 51 anos, então é uma idade que já não me permite ser mãe, mas também a vida não se esgota aí, não?! Portanto, sou filha, nunca fui casada, mas sou irmã e sou tia.
Nasci no Porto. Nasci no Porto por que a madrinha estava lá. A minha mãe foi para me ter no Porto, por que eu acho que ela achava que o parto iria correr um cadinho meio difícil; ela e os médicos estavam com medo. Os meus pais viviam em Aveiro. E lá, vivem ainda atualmente. O Meu pai é Francisco Pires Monteiro e a minha mãe é Maria do Céu. Tenho dois irmãos e são ambos casados, têm filhos; dois filhos cada, já adolescentes; são jovenzinhos.
A minha infância foi em Aveiro até os 2 ou 3 anos, por aí, e depois meu pai era militar, meu pai estava na força aérea e teve que ir trabalhar para a África e para os Açores. De modo que a minha vida foi bastante viajada, digamos. Nós passamos primeiro pelos Açores, onde vivemos lá 1 ano. Depois aos meus 4 anos formos para Guiné e tivemos lá 1 ano, depois voltamos para cá para Lisboa e depois fomos para Angola onde vivemos 6 anos. Viajei até os meus 12 anos. Até os meus 12 anos eu vivi em Luanda e depois com o 25 de Abril,  eu vim para Portugal, pra Aveiro novamente.
A minha infância foi ótima e neste aspecto acho sim, embora estivéssemos num mundo muito também ligado às famílias dos militares que também lá estavam. Meu pai era Sargento e então, vivíamos numa zona onde também viviam sargentos e outros oficiais e suas famílias. Tinha escolas, e elas eram escolas normais com primária e eu fiz a escola primária lá e fiz o 2º (segundo) Ciclo também. Portanto, na altura que estava para ir para o chamado Liceu, foi quando aconteceu o 25 de Abril e pronto! Viemos em setembro pra cá, pra Portugal. Nós viemos assim que houve o 25 de Abril e passados uns meses, em setembro, eu voltei para cá com minha mãe e meus irmãos e meu pai ficou lá, mais 1 ano. Foi em janeiro do ano de 1975. Ele ficou esses meses lá e depois veio pra cá.
Com as lembranças dele, nos transmitiu o que achou que realmente aconteceu. Muitas pessoas tiveram que entregar tudo, não é. Tiveram que entregar tudo entre “aspas”, por que estavam todas em infraestruturas muito básicas, e era tudo também no fundo… Está me faltar a palavra…Por que eram os portugueses que lá estavam e, de fato, ajudavam também um pouco, não é, na organização das coisas, na orientação e eram os que lá estavam, na organização do país. E quando vieram embora, vieram muitos e muitos portugueses e muita gente que veio pra cá, e claro que as infraestruturas foram completamente minadas, por que não havia infraestruturas. Depois se instalaram aqui, imediatamente, representantes da UNITA, da MPLA, do FNLA e da FLEC – nomes das entidades e movimentos ligados à guerra em prol da descolonização e do domínio de Portugal em Angola -, e depois, também confusão entre eles três movimentos, não é, que de fato tentaram lutar sempre, e pensavam que em Luanda tinham que conseguir também dominar. Foi uma luta sem tréguas e eu assisti aos primeiros problemas e no início teve logo problemas, mas quando fui embora, claro, que foi muito pior! Eu vejo que depois, mesmo no testemunho dos militares que também saíram foi ficando pior.
Meu pai gostava muito de Angola e nós iríamos ficar lá, por que ele dizia que queria ir para ficar 10 anos a frente de uma comissão e ainda hoje ele se recorda, com bastante saudade e nostalgia de Angola. Muita gente veio sem nada de Angola, de Moçambique, muita gente veio prá cá com nada nas mãos. E chegavam aí e não tinham de fato nenhum recurso e não tinham ajuda de ninguém e as próprias famílias de cá também, não lhes ajudavam muito. E outros nem tinham família, não é?! Esses outros eram vistos com bastante desconfiança por parte das pessoas.
A população que tinham ficado cá que se sentia um pouco ameaçada, por que Portugal era um país pobre, e teve que receber quase 1.000.000 milhão de portugueses. Os portugueses e seus descendentes das ex-colônias eram uma ameaça. Era questão dos empregos para muita gente, de fato, era uma coisa completamente nova na altura e foi uma mudança muito profunda na sociedade portuguesa, por sinal. E muitos dos retornados também trouxeram muita inovação e muito desenvolvimento para o país nessa altura, mas aquilo foi um choque, claro. Foram alvo de muita desconfiança da população, passaram mesmo por muitas desconfianças, eles passaram por muitos preconceitos e ainda hoje, passados 40 anos! Ainda se alimentam esses preconceitos. Por que a família que ficou cá, que também passou por más experiências, e não tratavam bem aqueles que vinham lá das ex-colônias. E os exploravam também, e estavam a contar com algo diferente, e depois não ajudaram. Foram outras pessoas que os ajudou e teve muita gente que os ajudou. Os que ficaram se sentiram enganados. Há essa desconfiança, pronto, da parte de muita gente que cá estava na altura.
A minha mãe estava em casa como a maior parte das senhoras. Eu sempre gostei muito de ler. E a minha mãe neste aspecto sempre teve livros em casa e também era muito exigente, mas não se importava que eu estivesse a ler no sofá, deixava-me ler, não exigia muito que eu estivesse a ajudar nas tarefas domésticas. Tanto que eu podia ser colocada para aprender a cozinhar e outras tarefas, mas ela nunca se impôs muito nesse aspecto. A minha mãe só tinha até a 4ª classe. E ela, na altura, não podia nos ajudava e o meu pai também não ajudava muito, porque ele também tinha o emprego dele; quando ele chegava a casa, também já era um pouco tarde.
Eu tinha dificuldades em matemática no 2º Ciclo lá em Angola e até tinha um explicador que era um colega dele lá da tropa, que também era militar e que me explicava e tal. Pronto, neste aspecto eu não tinha o apoio dos meus pais. Nem eu e nem os meus irmãos, tivemos que estudar nós, sozinhos, não é. Havia sempre aquela recompensa, mas no início não. Mas, nós gostávamos de chegar ao pé dos meus pais e dizer: – ah nós tivemos um Bom, tivemos um não sei quê… No final, nos davam assim, uma moedazita, para nos premiar. Não sei se muita gente faria isto. O Inglês, por exemplo. O inglês nós só tínhamos a partir do atual 7º ano de escolaridade (e na altura correspondia ao 3º Ciclo e pertencia ao 3º ano) e o Inglês, portanto, era a minha segunda língua estrangeira, por que a primeira tinha sido o francês no primeiro ano. E eu tinha alguma dificuldade em Francês por que a professora que eu tinha, ela ensinava com um método muito duro e aquilo era só gramática e aquilo me chateava um pouco, mas, pronto!
O Inglês, que se tornou minha paixão, foi a partir do 7º ano e mesmo assim no primeiro período. No final do primeiro período, tive três negativas e uma delas era o Inglês! E a outra era Educação Visual e a outra, já não sei dizer se era Matemática… Mas pronto, depois consegui recuperar e foi sempre àquela coisa, assim de adaptação, e também aquele choque de passagem, não é. O choque de adaptação só passou depois a passagem do 2º Ciclo para o 3º Ciclo; mudança de idade e aquelas coisas, e pronto! Mas não tínhamos, portanto, em casa esse apoio dos pais.
Nós viemos para Aveiro e moramos ao pé da praia. Meus pais lá tem uma casa na Barra. E a Barra, a uns 40 anos atrás, era absolutamente vazia. E, portanto, havia autocarros e nós vínhamos de autocarro de manhã e voltávamos ao final do dia e se agente quisesse mais uma dessas atividades, dessas do extracurricular, não tinha; não tinha ginástica, nem línguas e nem natação, não havia nada! Portanto, foi assim até o 11ºano. O 11º ano – antigamente era o 7º ano do Liceu, não é? – E agora é 11º e depois 12º ano até chegar à universidade. Portanto, nunca tive nenhuma atividade extra até chegar à universidade.
O meu pai gostava muito de Aveiro, porque, como ele era militar, havia uma base militar em São Jacinto, perto de Aveiro. Há uma base militar e agora atualmente é de paraquedistas, e o meu pai, então, gostava de viver em Aveiro, por que já tinha lá estado e os meus irmãos nasceram em Aveiro e o meu pai gostou muito daquela zona e a minha mãe também e o meu pai ficou a trabalhar na base também e pronto! Não temos lá família, mas temos no Porto, temos em Coimbra, em Lisboa e temos família por aí, pelo mundo.
Eu gostava muito, na altura, quando ia lá estudar em Aveiro, eu gostava muito de História e pensei em entrar na universidade para cursar Arqueologia, por que eu gostava muito das epistemologias. Pelas dificuldades de manter os três filhos a estudar – e o pai era o único que ganhava dinheiro para casa -, meus pais disseram: você vai passar de Arqueologia para História. Mas depois, disseram-me: para cursar História, vais ter que estudar pra fora, ou para Coimbra ou para o Porto. Eu já tinha o meu irmão mais velho que já estava em Lisboa a estudar e a situação seria complicada, porque eu teria que mudar a vida e sair de Aveiro para estudar e eles disseram que era melhor arranjar aqui em Aveiro qualquer coisa. E, então uma das minhas opções foi o Inglês por que eu também gostava de Inglês, então, eu disse: ok! Não tinha como dizer que não.
No início eu fiquei um bocado triste, não é, por que eu gostava de cursar História, mas depois também pensei assim, eu compreendo, não é, pois afinal há impedimentos económicos e que remédio… Não há hipótese! É mesmo assim, não é. Por que na altura ter uma filha a estudar fora, também lhes custava muito. Mas hoje em dia, há muito mais escolha, em nível de cursos superiores, aqui em Portugal. Há muita coisa hoje em dia, eu não sei quantos cursos e quantas universidades é que há; há muito mais escolhas que eles podem fazer. E, também há muito mais atividades extras, que os pais hoje em dia arranjam para os filhos, quando eles estão a estudar no secundário.
A minha licenciatura foi de cinco anos, porque era com o Estágio Integrado. O estágio foi em Aveiro, e era um estágio que estava integrado no curso no 5º ano e mais 4 de licenciatura. Tínhamos que estagiar em duas turmas. Uma turma do básico e uma turma do secundário e pronto. Um era na universidade e a outra era na secundária e tínhamos que apresentar um relatório no final do estágio e não um TCC. Saio da universidade em 1985, portanto, em 1985 eu comecei a dar aulas, a estagiar e, portanto, em 1986, acabou o estágio. Eu tive a sorte, não é, por que como sendo um estágio integrado e era uma universidade nova e que foram formadas logo após o 25 de Abril, não precisávamos – as universidade clássicas cá em Portugal, eram mais complicadas.
Quem estudava nas clássicas de Coimbra, do Porto e naqueles cursos clássicos de letras e de línguas, para dar aulas, tinham que se candidatar a um estágio, mais tarde tinha que fazer a profissionalização em exercício. Houve uma candidatura e candidatei-me para o quadro de uma escola e fiquei efetiva, que é diferente dos que são contratados. Mas, no primeiro ano eu fiquei efetiva numa escola em Guimarães, que é perto do Porto, e fiquei lá um ano apenas! No ano a seguir concorri para outro sítio, fiquei no quadro de outra escola. Na altura era fácil. Na década de 80, foi quando foi o “boom” das escolas secundárias, e o “boom” dos alunos, e era, de fato, um número crescente de alunos e, cada vez mais e, não havia problemas em nível de vagas nos quadros das escolas para os professores; entrava-se facilmente.
Eu fiz o mestrado em 1998, por gostar de estudar e pela vontade de continuar a cultivar e no fundo também para minha carreira também era bom. Concorri para uma vaga em uma escola em Braga, por que havia, em Braga, o mestrado. Na altura não havia assim muitos mestrados e então me escrevi em Braga na minha área e concorri para Braga e depois fiquei aqui a dar aulas também. Fiz o mestrado em Literatura, Língua e Cultura Inglesa. Meu objeto de estudo foram os cartazes do cinema e os filmes de terror; um estudo sobre três obras do Stephen King e a sua adaptação para o cinema. Portanto, a literatura desses três livros dele e a adaptação deles, das três obras, para o cinema também.
Eu vou pra área do cinema, por que eu gostava muito do meu orientador/professor de cinema, por que eu achava que ele um ótimo professor, que era o Professor Barker. Ele é que me deu um pouco a ideia, tenho que confessar. E ele me disse: por que é que então não exploras os filmes de terror do Stephen King! Na altura, eu tenho que confessar, não conhecia muito bem o Stephen King, e então, comecei a ler os livros dele e achei que era realmente interessante; achei mesmo que era capaz de fazer algo que fosse interessante. Foi essa sugestão do professor, que depois se tornou, o meu orientador.
Em nível de carreira o mestrado foi ótimo, por que nós avançamos na carreira por escalões. Nós professores, temos uma carreira e vamos ascendendo por escalões. Temos fazer todas as escadinhas até o grau 15, e com o mestrado, eu avancei 4 anos num escalão e acho que fiquei no 6º ou 7º escalão, ascendi logo 4 “degrauszinhos”, foi muito bom. Portanto, tive uma boa subida de ordenando, de salário e nesse aspecto foi bom. O mestrado abriu o meu mundo. Em nível de autoestima, tornei-me uma pessoa mais confiante também, e talvez, a nível linguístico, eu senti que tinha enriquecido. Eu nunca tive que pedir licença, como se costuma dizer. E, mesmo no ano em que estive a fazer a tese, eu tinha sempre turminhas maravilhosas do básico. Poderia ter pedido uma licença sabática, mas na altura, eu achei que poderia perfeitamente aguentar, consegui acabar em menos de um ano e entreguei minha tese.
Entro na 1ª turma de Estudos Culturais, das Universidades de Aveiro e Minho, em 2010. Estudos Culturais também tem a ver com Inglês, não é?! E são alguns dos meus professores antigos. As sextas-feiras eu podia ir;  pude criar a sexta-feira como o meu dia livre lá na escola; pude ir para Aveiro e ainda por cima, tenho lá os meus pais. O que mais eu podia querer?! Era em uma área de estudos que me interessava.
Wlad Lima e Gorete Monteiro em entrevista na cidade de Braga.
Wlad Lima e Gorete Monteiro em entrevista na cidade de Braga.

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Publicação digital do relatório final do estágio de pós-doutoramento em Estudos Culturais da Profª. Drª. Wlad Lima da ETDUFPA ICA UFPA junto a Universidade de Aveiro Portugal sob a supervisão da Profª. Drª. Maria Manuel Baptista. A realização dessa pesquisa cobre o período de maio de 2013 a outubro de 2014. Esse site está acoplado ao portal virtual do Programa Doutoral em Estudos Culturais das Universidades de Aveiro e Minho. Está disponível para todos os interessados, mantendo a política de copyleft de sua autora. Esse estágio teve o apoio da CAPES, através de bolsa pós-doc no exterior.